Gleisi chama de ‘nojento’ alinhamento de Eduardo Bolsonaro com Zelle
A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) critica Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nesta quinta-feira (4.jun.2026) após declaração sobre Pix e Zelle. Ela chama de “nojento” o alinhamento com os Estados Unidos e sai em defesa do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
Disputa política em torno do Pix
O embate começa depois de Eduardo Bolsonaro comparar o Pix ao Zelle, sistema de transferências usado por grandes bancos norte-americanos. Ao exaltar a plataforma estrangeira, o deputado sugere que o Brasil deveria seguir “padrões internacionais” e reduzir a centralidade do Banco Central no sistema de pagamentos. A fala circula em vídeos de redes sociais, em meio a debates sobre regulação financeira e influência externa.
Gleisi reage em discurso público e em suas contas oficiais, acusando o deputado de desvalorizar uma tecnologia desenvolvida no país. Ela afirma que a defesa do Zelle simboliza “submissão” aos interesses dos Estados Unidos e aponta o Pix como exemplo de soberania financeira. “É nojento ver parlamentar brasileiro vender o que é nosso para puxar saco de sistema americano”, diz Gleisi, em referência direta ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A crítica da presidente nacional do PT mira um símbolo de política econômica recente. Lançado em novembro de 2020 pelo Banco Central, o Pix ultrapassa 160 milhões de usuários cadastrados, segundo dados oficiais de 2025, e responde por mais de 40% das transferências eletrônicas no país. O sistema permite pagamentos em segundos, 24 horas por dia, sem tarifa para pessoas físicas na maior parte das operações. Gleisi usa esses números para reforçar a ideia de que o Brasil não depende de modelos importados para liderar a inovação bancária.
O discurso também tem recado político mais amplo. Ao criticar o alinhamento de Eduardo Bolsonaro com o Zelle, a deputada retoma old debate sobre a influência dos Estados Unidos em decisões estratégicas brasileiras. Ela afirma que o Pix representa autonomia tecnológica, já que foi concebido, desenvolvido e operado por instituições nacionais, sem controle de big techs ou bancos estrangeiros. “Quando atacam o Pix, atacam uma conquista do povo brasileiro, construída com dinheiro público e com inteligência brasileira”, argumenta.
Soberania financeira no centro do debate
A reação de Gleisi expõe uma disputa de narrativa sobre soberania financeira. De um lado, parte da oposição à esquerda defende o Pix como infraestrutura pública, essencial para garantir acesso bancário barato a mais de 200 milhões de brasileiros. De outro, aliados de Eduardo Bolsonaro usam o argumento da concorrência internacional para relativizar o papel do Banco Central na arquitetura de pagamentos.
O debate ocorre em um momento em que o Pix já movimenta trilhões de reais por ano e praticamente substitui operações tradicionais de TED e DOC, que somavam tarifas de até R$ 20 por transferência antes de 2020. A gratuidade para pessoas físicas pressiona receitas bancárias, mas amplia a inclusão financeira, especialmente entre trabalhadores informais e pequenos negócios. Em paralelo, o Zelle funciona integrado a grandes bancos privados dos EUA, sem modelo de acesso universal e sem a mesma capilaridade vista no Brasil.
Especialistas em sistema financeiro ouvidos por economistas do governo apontam que, com o Pix, o país exporta referência tecnológica em vez de importar soluções. Países da América Latina e da Ásia estudam modelos semelhantes ao brasileiro. Ao classificar o elogio ao Zelle como “nojento”, Gleisi tenta transformar essa comparação em símbolo de um projeto de país: um modelo que privilegia plataformas nacionais em vez de subordinação a padrões ditados por Washington ou Wall Street.
O embate reacende, ainda, a discussão sobre segurança digital. Críticas frequentes ao Pix se concentram em golpes e sequestros relâmpago, que exploram a velocidade das transferências. Gleisi reconhece a preocupação, mas afirma que “o problema não é o Pix, é o crime organizado e a falta de educação financeira”. Ela defende reforço na regulação, com limites diários, travas de horário e rastreabilidade, sem enfraquecer a plataforma. Para a deputada, a solução passa por investigações mais rápidas, integração entre bancos e polícia e campanhas de orientação ao usuário.
O que está em jogo a partir de agora
A troca de acusações tende a ir além do choque de declarações. A fala de Gleisi já repercute em grupos de trabalho na Câmara que discutem regulação de meios de pagamento, proteção de dados e participação de empresas estrangeiras em infraestrutura crítica. Integrantes da base do governo cogitam apresentar projetos de lei para blindar o Pix de eventuais tentativas de privatização indireta, como concessão de partes do sistema a consórcios estrangeiros. Na outra ponta, parlamentares alinhados a Eduardo Bolsonaro devem aproveitar o embalo para defender abertura maior a plataformas internacionais, em nome da “liberdade de escolha” dos usuários.
No curto prazo, a polêmica alimenta o debate público sobre quem controla o dinheiro digital no Brasil. A médio prazo, pode influenciar decisões sobre limites de tarifas, regras de competição entre bancos e fintechs e os próximos passos da digitalização do real, inclusive com a agenda do Drex, a versão digital da moeda brasileira prevista para avançar a partir de 2027. Ao chamar de “nojento” o alinhamento com o Zelle, Gleisi coloca na mesa uma questão que ultrapassa a disputa partidária: até que ponto o país está disposto a abrir mão de sua própria infraestrutura financeira em nome da integração com o sistema dos Estados Unidos?
