Ginecologista é preso em Goiás por estuprar 23 pacientes em consultas
O ginecologista Marcelo Arantes Silva, 50, é preso em Goiânia na quinta-feira (23) sob acusação de estuprar 23 pacientes durante consultas entre 2017 e 2026. A prisão preventiva, mantida após audiência de custódia na sexta (24), expõe uma rotina de abusos cometidos em consultórios de Goiânia e Senador Canedo, em Goiás.
Consultório vira cenário de medo e silêncio
O caso rompe a barreira das queixas isoladas e revela um padrão de violência sexual sustentado por quase uma década dentro de salas de exame. A investigação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher aponta que Marcelo se vale da autoridade do jaleco branco para transformar consultas de rotina em episódios de terror psicológico e físico.
Entre as 23 vítimas já identificadas, 10 são de Goiânia e 13 de Senador Canedo. Todas relatam situações semelhantes: toques sem explicação, ausência de luvas em exames íntimos, perguntas de teor sexual que não têm relação com o tratamento. A delegada Amanda Menuci descreve um método repetido. Segundo ela, o médico inicia o atendimento com aparente gentileza, ganha a confiança da paciente e, em seguida, cruza de forma deliberada os limites éticos e legais.
“Ele se aproveitava da confiança das pacientes e da posição de médico para praticar abusos”, afirma Amanda. A delegada relata que as primeiras consultas costumam ser marcadas por toques físicos inadequados e comentários que vão escalando até a violência mais explícita. Em muitos casos, diz, as mulheres não conseguem reagir ou sequer nomear o que acontece ali, tamanho o choque diante da quebra de expectativa em um ambiente que deveria ser de cuidado.
Uma das vítimas, ouvida sob reserva, descreve a sensação de paralisia ao perceber que o exame não seguia o protocolo. “Foi como se eu tivesse morrido por alguns minutos”, conta. Ela relata que Marcelo começa a consulta com tom calmo, pergunta sobre a rotina e a saúde, e logo passa a deslizar as mãos pelas pernas e pela região íntima, sem explicação médica. O exame segue sem luvas, com proximidade física exagerada e atos que, segundo a acusação, configuram estupro de vulnerável.
Quebra de confiança abala relação entre mulheres e sistema de saúde
A prisão de Marcelo ocorre em um cenário em que a confiança entre pacientes e profissionais de saúde já enfrenta desgaste por outras denúncias de violência obstétrica e assédio em atendimentos ginecológicos. O caso em Goiás adiciona um novo grau de desconfiança a um campo em que a vulnerabilidade é regra, não exceção. Em uma consulta íntima, a paciente se despe, entrega seu corpo a exames invasivos e depende da conduta ética do médico para se sentir segura.
No inquérito, os relatos mostram como essa vulnerabilidade é explorada. Mulheres descrevem o constrangimento de questionar um procedimento diante de alguém visto como autoridade técnica. Algumas procuram o consultório em busca de acompanhamento de rotina; outras estão fragilizadas por dores, sangramentos ou suspeita de gravidez. Em comum, aparece a dificuldade de reconhecer de imediato que se trata de um crime, e não de um procedimento médico legítimo.
Do ponto de vista jurídico, a acusação de estupro de vulnerável se apoia na condição de submissão das pacientes ao médico. A violência não depende apenas de força física, mas da incapacidade de resistência diante de quem detém o poder da informação e do tratamento. Especialistas em direitos das mulheres ouvidos pela reportagem apontam que esse tipo de crime costuma ser subnotificado e que 23 vítimas em um único caso sugerem a possibilidade de mais mulheres ainda em silêncio.
O Conselho Regional de Medicina de Goiás suspende o registro profissional de Marcelo logo após a prisão e informa que todas as denúncias correm em sigilo. A medida impede, na prática, que ele continue atendendo enquanto responde ao processo criminal e ao processo ético. A decisão do Cremego tenta conter o dano imediato, mas não repara o rastro de trauma emocional deixado em quem acreditou estar em um ambiente de proteção.
Pressão por respostas e fortalecimento da proteção às pacientes
A Delegacia da Mulher segue colhendo depoimentos e cruzando agendas, prontuários e registros de atendimento de 2017 a 2026. A linha de investigação busca identificar outras possíveis vítimas que ainda não se apresentaram. A manutenção da prisão preventiva, decidida na audiência de custódia de sexta (24), se baseia no risco de novas violações e na necessidade de garantir a integridade das testemunhas.
O caso provoca reação em entidades de defesa das mulheres e em grupos que discutem violência sexual no ambiente médico. Em redes sociais e fóruns de pacientes, multiplicam-se relatos de medo de ir ao ginecologista e pedidos por regras mais claras sobre a presença de acompanhantes em consultas íntimas, gravação de atendimentos e canais de denúncia acessíveis. Especialistas defendem que hospitais, clínicas e consultórios adotem protocolos mais rígidos, com consentimento informado detalhado e supervisão mais ativa de conselhos profissionais.
No curto prazo, o impacto recai diretamente sobre as 23 mulheres já identificadas, que agora enfrentam o desafio de reviver o trauma em depoimentos formais e perícias. No médio e longo prazo, o caso tende a influenciar a forma como pacientes escolhem profissionais, pressionando por maior transparência em histórico de condutas e processos disciplinares. A repercussão em Goiás indica que a discussão sobre abuso de autoridade médica deixa de ser assunto restrito a bastidores e passa a integrar a agenda pública.
O inquérito deve avançar nas próximas semanas com novas oitivas, análise de provas e laudos periciais. Se o Ministério Público oferecer denúncia e a Justiça aceitar a acusação, Marcelo responderá a processo por estupro de vulnerável em série, com penas que podem superar décadas de prisão. A principal pergunta em aberto, enquanto isso, é quantas mulheres ainda precisam reunir coragem para transformar em relato oficial o que, por anos, carregam como lembrança solitária de uma consulta em que o cuidado deu lugar ao abuso.
