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Garoto de 11 anos é mordido por tubarão na Praia de Piedade

Um garoto de 11 anos é mordido por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, na tarde deste domingo (31). O ataque ocorre por volta das 13h30, em área oficialmente sinalizada como de risco. A criança é socorrida na areia e levada em estado grave para o Hospital da Restauração, no Recife.

Resgate começa ainda na água e mobiliza banhistas

A cena se forma em poucos segundos em um ponto do mar próximo ao antigo Hotel Dorisol, trecho conhecido pelos alertas de tubarão. Banhistas percebem a movimentação e chamam os guarda-vidas que já atuam na faixa de areia. O menino, segundo testemunhas, apresenta ferimentos profundos na perna esquerda e na mão esquerda.

Uma banhista que acompanha o resgate de perto, e prefere não se identificar, relata a tensão. “Os bombeiros socorreram ele, tinha uma médica na hora e ela fez os primeiros socorros. A pressão dele baixou muito, ele perdeu muito sangue. Deus queira que ele resista”, diz. O Corpo de Bombeiros confirma que a equipe de guarda-vidas em serviço realiza o socorro imediato e inicia o atendimento ainda na praia.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) é acionado às 13h27. Duas motolâncias seguem para o local, entre elas uma unidade de suporte avançado, uma espécie de UTI móvel. O menino recebe atendimento pré-hospitalar ali mesmo e durante o trajeto até o Hospital da Restauração, referência em traumas no Grande Recife. A unidade informa que o paciente dá entrada pouco depois das 15h, quando começa o trabalho de uma equipe multiprofissional para tentar conter os danos dos ferimentos.

Piedade iguala Boa Viagem em número de ataques

O ataque deste domingo amplia a estatística que já assusta moradores e frequentadores do litoral pernambucano. Em 34 anos, Pernambuco acumula 83 registros de incidentes com tubarões, o que equivale a uma média de 2,44 casos por ano. Três deles ocorrem apenas em 2026, todos em áreas classificadas como críticas pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidente com Tubarões (Cemit).

Piedade chega agora a 24 ocorrências e iguala a vizinha Boa Viagem, no Recife, como as praias com mais registros de ataques no estado. Del Chifre, em Olinda, aparece na sequência, com 6 casos confirmados. O recorte do Cemit aponta um corredor de 33 quilômetros, entre a Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, e a Praia do Farol, em Olinda, como faixa de risco crítico para incidentes com tubarões.

O trecho de Piedade onde o garoto é atacado está dentro da área delimitada pelo decreto estadual 21.402, de 1999, que estabelece regras para o banho de mar e alerta de forma permanente para a possibilidade de incidentes com animais marinhos. Placas orientam banhistas a evitar áreas profundas, práticas como surfe e permanência em pontos próximos a canais e rios. Mesmo assim, a orla segue cheia em fins de semana de calor, como o deste domingo.

O caso reacende lembranças recentes. Em 29 de janeiro, um adolescente de 13 anos é mordido na perna também no litoral pernambucano e não resiste. Ele chega ao Hospital do Tricentenário, em Olinda, já sem vida, segundo relato de um médico da unidade. A sucessão de episódios reforça a percepção de que o risco deixa de ser uma estatística distante e passa a fazer parte da rotina de quem vive do turismo e do comércio nas praias da Região Metropolitana do Recife.

Pressão por prevenção e monitoramento ganha fôlego

O episódio deste fim de semana ocorre em meio à tentativa do governo estadual de reorganizar a política de monitoramento de tubarões. Após 11 anos de interrupção, o Cemit se prepara para retomar, em 2026, o acompanhamento sistemático dos animais por meio de um novo edital do programa Cientista Arretado. A proposta inclui pesquisa em campo, marcação de animais e análise de dados ambientais para entender por que a região concentra tantos ataques.

A reativação do monitoramento ganha peso quando números e rostos se encontram no noticiário. Comerciantes de Piedade e Boa Viagem relatam queda no movimento sempre que um ataque ganha repercussão nacional. Famílias que vivem de barracas e quiosques veem, de um dia para o outro, o medo disputar espaço com a areia. Banhistas locais aprendem a conviver com a dúvida sobre até onde avançar no mar e em que horário entrar na água.

Especialistas em segurança costeira apontam que a combinação de sinalização clara, campanhas educativas permanentes e presença constante de guarda-vidas reduz o risco, mas não zera a possibilidade de ataque. A recomendação é evitar trechos de mar mais escuro, não entrar na água sozinho, sobretudo ao amanhecer e no fim da tarde, e respeitar as placas que alertam para a presença de tubarões. O caso deste domingo mostra que, mesmo em áreas já sinalizadas, a percepção de perigo ainda esbarra na rotina de lazer de milhares de pessoas.

Orla em alerta e expectativa por atualização médica

Moradores de Piedade acompanham a tarde entre telefonemas e mensagens em grupos de bairro em busca de informações sobre o estado de saúde do garoto. A sensação de déjà vu se espalha, misturando solidariedade e indignação. Pais que costumam levar os filhos para a praia discutem novas regras dentro de casa, como limitar o banho à parte rasa e só entrar na água com a maré mais baixa.

Autoridades estaduais e municipais prometem reforçar ações educativas na orla do Grande Recife nos próximos fins de semana, com distribuição de panfletos, uso de carros de som e orientações diretas de guarda-vidas aos banhistas. O desafio é transformar alertas formais, como o decreto 21.402 e as placas fixas, em mudança concreta de comportamento. Enquanto médicos do Hospital da Restauração avaliam a extensão dos ferimentos e o risco de sequelas, a pergunta que fica na areia de Piedade é se o socorro ágil e o retorno do monitoramento científico serão suficientes para evitar que o próximo ataque apenas some mais um número às estatísticas.

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