Funeral de Ali Khamenei expõe transição de poder em meio à guerra
O funeral do aiatolá Ali Khamenei começa em 4 de julho, em Teerã, e termina em 9 de julho, em Mashhad, sua cidade natal, em pleno cenário de guerra. O ex-líder supremo do Irã, morto em 28 de fevereiro em ataques aéreos de Israel e dos Estados Unidos, é sucedido pelo filho, Mojtaba Khamenei, que assume o comando do país enquanto o corpo do pai percorre as cidades sagradas.
Cerimônia rara em meio a bombas e negociações
As autoridades iranianas desenham um rito fúnebre que combina tradição religiosa e cálculo político. O corpo de Khamenei permanece por mais de quatro meses à espera do enterro, algo incomum na lei islâmica, que recomenda o sepultamento em até 24 horas. Clérigos próximos ao regime justificam o atraso com a exceção prevista para tempos de guerra e com o desejo de permitir que milhões se despeçam do líder que comandou o país por 36 anos.
O cortejo começa em Teerã, centro do poder político e palco do ataque aéreo que destrói o complexo oficial de Khamenei em 28 de fevereiro. Em seguida, segue para Qom, em 7 de julho, coração do clero xiita e termômetro da legitimidade religiosa do novo líder. O ciclo se encerra em 9 de julho em Mashhad, no nordeste do Irã, cidade sagrada e berço do aiatolá, onde o regime projeta um enterro monumental, com transmissão ao vivo e forte presença da Guarda Revolucionária.
No mesmo fim de semana em que a mídia estatal detalha o calendário do funeral, diplomatas em Islamabad e Washington falam de paz. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, um dos principais mediadores, afirma que Irã e Estados Unidos chegam a um entendimento sobre a estrutura de um acordo para encerrar mais de três meses de confrontos. Ele diz que um texto preliminar deve ser assinado em até 24 horas, descrevendo o momento como “a mais próxima” oportunidade de paz desde o início da guerra.
Legado de confronto e sucessão concentrada na família
Ali Khamenei chega ao poder em 1989, após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica. Ao longo de 36 anos, consolida o cargo de líder supremo como a instância máxima do Estado, acima da presidência, do parlamento e do Judiciário. Nesse período, molda o Irã como uma força antiamericana de peso no Oriente Médio, apoiando grupos aliados como o Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque, na Síria e no Iêmen.
Em Teerã, analistas lembram que o aiatolá mantém postura dura em relação a Washington até o fim. Governos sucessivos dos EUA tentam negociar limites para o programa nuclear iraniano, mas Khamenei se mantém desconfiado. Em discursos frequentes, acusa os americanos de buscarem “mudança de regime” e diz que qualquer diálogo deve preservar o que chama de “independência revolucionária” do país.
A morte do líder, aos 86 anos, durante a ofensiva aérea conjunta de Israel e EUA, rompe um equilíbrio delicado. O ataque que o mata destrói também o complexo onde vivia e trabalhava no centro de Teerã. Fontes próximas ao regime relatam que o filho Mojtaba, de 56 anos, sobrevive ferido e perde a esposa na mesma noite. Poucos dias depois, o Conselho de Peritos, responsável pela escolha do líder supremo, confirma a sucessão que muitos consideravam provável, mas ainda assim controversa.
Mojtaba Khamenei constrói sua influência longe dos holofotes, por meio de redes dentro da Guarda Revolucionária e dos seminários religiosos de Qom. A ascensão de um herdeiro direto ao posto mais alto do Estado alimenta críticas internas. Intelectuais reformistas falam em “monarquia disfarçada”. Exilados iranianos chamam o movimento de “herança de sangue”. Para o círculo de poder em Teerã, porém, a sucessão familiar garante continuidade em meio à maior crise militar desde a guerra com o Iraque, nos anos 1980.
Risco de ruptura e cálculo regional
A forma como o regime organiza o funeral revela o esforço para projetar estabilidade. As imagens de multidões em Teerã, Qom e Mashhad interessam tanto ao público interno quanto aos aliados externos, de Beirute a Bagdá. Ao exibir fileiras de comandantes da Guarda Revolucionária, líderes religiosos e membros do novo gabinete em torno do caixão, o Estado iraniano pretende sinalizar que a máquina de poder continua intacta, apesar da morte do dirigente que a comandou por quase quatro décadas.
Especialistas em Teerã e nas capitais ocidentais, porém, enxergam rachaduras. O luto prolongado pode mobilizar tanto apoio quanto descontentamento. Famílias de vítimas de repressões recentes, como os protestos de 2019 e 2022, lembram que o líder morto autoriza o uso de força letal contra manifestantes. Jovens urbanos, afetados por sanções econômicas e desemprego alto, veem o funeral como símbolo de um sistema que não responde às demandas por abertura política.
Na região, a morte de Khamenei e a ascensão de Mojtaba levantam dúvidas sobre o futuro das redes armadas financiadas por Teerã. Diplomatas ocidentais observam com atenção eventuais mudanças no apoio a grupos como o Hezbollah, no Líbano, e milícias xiitas na Síria e no Iraque. Qualquer gesto de recuo poderia facilitar o acordo de paz em discussão com Washington. Um movimento na direção contrária reforçaria a percepção de que o novo líder tenta provar força redobrada para consolidar sua autoridade.
O calendário das cerimônias também influencia a diplomacia. Se o acordo preliminar sugerido por Shehbaz Sharif se concretiza até domingo, 14 de julho, Mojtaba terá de administrar a transição entre dois símbolos fortes: o corpo do pai, carregado por milhões de iranianos, e a caneta que assina um texto de paz com o principal inimigo ideológico do regime. A escolha de palavras e gestos durante o funeral se torna, assim, parte da mensagem enviada ao mundo.
O que vem depois do luto
Passado o enterro em Mashhad, o Irã entra em uma nova fase política sob o comando de um líder supremo que herda um país exausto pela guerra e isolado por sanções. Mojtaba precisa responder a três frentes ao mesmo tempo: garantir a lealdade das forças de segurança, acalmar o clero de Qom e lidar com uma população pressionada por inflação elevada e desemprego persistente. Qualquer tropeço pode abrir espaço para disputas internas que o funeral, por ora, ajuda a disfarçar.
Os próximos meses devem mostrar se o novo líder escolhe preservar a linha dura do pai ou explorar a janela de negociações com os Estados Unidos. O desenho final de um eventual acordo de paz, o ritmo da retomada econômica e a forma como o regime lida com novas ondas de protestos internos vão definir o alcance real dessa transição. Entre o som dos cânticos religiosos em Mashhad e as conversas discretas em mesas de negociação, permanece a pergunta que ronda Teerã e as capitais vizinhas: o Irã de Mojtaba Khamenei será continuação ou ruptura do legado de Ali Khamenei?
