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Funeral de Ali Khamenei começa em Teerã e expõe transição no Irã

O Irã se prepara para seis dias de rituais que vão marcar o adeus ao aiatolá Ali Khamenei e expor, em público, a transição de poder em plena guerra. O funeral do ex-líder supremo começa em Teerã em 4 de julho e termina com o enterro em Mashhad, sua cidade natal, no dia 9.

Cerimônias em três cidades sagradas sob clima de guerra

Teerã se torna o primeiro palco dessa despedida prolongada. A partir de 4 de julho, a capital recebe as principais autoridades iranianas, chefes militares e delegações estrangeiras que ainda mantêm laços com o regime. O corpo de Khamenei, morto em 28 de fevereiro durante a primeira onda de ataques aéreos coordenados por Israel e Estados Unidos contra o Irã, deixa a cidade sob forte esquema de segurança.

O cortejo segue então para Qom, o coração teológico do xiismo iraniano, onde está prevista uma grande cerimônia religiosa em 7 de julho. A parada na cidade, ao sul de Teerã, atende a tradições islâmicas que frequentemente associam a despedida de grandes clérigos à bênção dos principais seminários religiosos. Em meio a alertas constantes de novos bombardeios, as autoridades prometem manter a liturgia, mas adaptam horários, percursos e acesso do público para reduzir riscos.

O percurso se encerra em Mashhad, no nordeste do país, onde Khamenei nasceu e construiu parte de sua imagem como líder religioso. O enterro está marcado para 9 de julho, segundo a mídia estatal. As cerimônias se estendem por 12 dias após a morte, em contraste com a regra islâmica que recomenda o sepultamento em até 24 horas. A guerra e a necessidade de organizar a sucessão justificam a exceção, apresentada pelo próprio establishment religioso como resposta a uma situação extraordinária.

Legado de poder e sucessão em meio aos escombros

Ali Khamenei governa o Irã por 36 anos e se torna a principal voz antiamericana da região desde o fim da Guerra Fria. Sob seu comando, a República Islâmica amplia sua influência militar e política em, pelo menos, cinco frentes: Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e a Faixa de Gaza. Grupos armados aliados, como o Hezbollah no Líbano, passam a operar como extensão da estratégia iraniana contra Israel e os Estados Unidos.

Dentro do país, o aiatolá consolida um sistema em que a palavra final não está no presidente nem no Parlamento, mas no próprio líder supremo e em órgãos controlados por ele. Protestos em 1999, 2009, 2019 e 2022 são reprimidos com mão de ferro por forças de segurança e pela Guarda Revolucionária. Khamenei assume o posto em 1989, após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, e permanece no poder até o ataque que destrói seu complexo no centro de Teerã em 28 de fevereiro.

A sucessão é imediata. Seu filho Mojtaba Khamenei, de 56 anos, assume o posto máximo do sistema político iraniano logo após o ataque, mesmo ferido e em luto pela morte da esposa no mesmo bombardeio. O arranjo confirma o que analistas e dissidentes suspeitam há anos: a consolidação de uma dinastia clerical em um regime que, na teoria, rejeita hereditariedade política. A transição ocorre sem consulta popular, mediada pelo círculo de clérigos e militares que cercam a liderança.

Em público, a transmissão do cargo é apresentada como forma de garantir continuidade frente ao que Teerã descreve como “agressão externa coordenada”. Na prática, Mojtaba herda não apenas os símbolos religiosos do pai, mas um país sob sanções pesadas, com economia fragilizada e em confronto direto com duas potências nucleares. As homenagens durante o funeral funcionam também como palco para o novo líder exibir controle interno e unidade entre os principais centros de poder do regime.

Equilíbrio regional em jogo e acordo sob tensão

A morte de Khamenei reabre uma série de questões sobre o futuro do Oriente Médio. Durante décadas, Washington e Teerã travam um impasse em torno do programa nuclear iraniano, que mistura enriquecimento de urânio, ameaças de sanções e tentativas de acordo. Nenhum governo americano consegue, até agora, encerrar o ciclo de desconfiança. No período em que o aiatolá está no poder, a inflação interna oscila em patamares de dois dígitos e o país sofre sucessivas rodadas de punições econômicas, sem recuar de sua retórica antiamericana.

Israel vê o Irã de Khamenei como ameaça existencial. O ataque aéreo de 28 de fevereiro, conduzido em coordenação com os Estados Unidos, encerra de forma abrupta o comando do líder supremo. Em seguida, cresce o temor de uma escalada regional, com resposta direta de forças aliadas a Teerã em várias frentes. Ao mesmo tempo, diplomatas tentam conter o incêndio. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirma que Irã e Estados Unidos chegam a uma “estrutura para um acordo de paz” após mais de três meses de guerra e que um texto inicial deve ser assinado em até 24 horas.

O calendário do funeral se cruza, portanto, com o calendário da diplomacia. Negociadores sabem que cada gesto de Mojtaba Khamenei, cada declaração na praça pública e cada imagem transmitida de Teerã, Qom e Mashhad podem influenciar a percepção dos aliados e inimigos do regime. Um sinal de endurecimento pode travar as conversas; um gesto calculado de pragmatismo pode facilitar concessões nas sanções, no ritmo do programa nuclear ou na atuação de milícias ligadas ao Irã na região.

Próximos passos e incertezas após o cortejo

Passada a etapa cerimonial, Mojtaba precisa consolidar sua autoridade dentro da elite clerical de Qom e entre os comandantes da Guarda Revolucionária, que controlam boa parte da economia iraniana. O giro do corpo por Teerã, Qom e Mashhad busca também esse sinal interno de lealdade. Cada cidade representa um pilar do sistema: o poder político, o religioso e o simbólico.

As próximas semanas indicam se o novo líder manterá a linha rígida do pai ou se abrirá algum espaço para negociações mais amplas com o Ocidente. O funeral encerra uma era, mas não responde à principal dúvida que ronda capitais de Washington a Riad: o Irã de Mojtaba Khamenei será mais previsível ou mais arriscado para a segurança regional e para a economia global.

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