Flávio perde hegemonia evangélica e Lula encosta na disputa de 2026
A base evangélica que sustenta o bolsonarismo começa a ruir em junho de 2026. Flávio Bolsonaro desaba nas pesquisas entre fiéis, enquanto Lula avança com folga e assume a dianteira no segundo turno. Escândalos de corrupção, pressão por dinheiro e a crise com o Banco Master detonam o principal ativo eleitoral da direita.
Pesquisas acendem alerta máximo no PL
Os números da última Genial/Quaest caem como uma pancada no comitê de Flávio Bolsonaro. No cenário de segundo turno, o senador do PL aparece com 38% das intenções de voto, seis pontos atrás de Lula, que marca 44%. O quadro geral já é ruim, mas o recorte religioso transforma preocupação em pânico.
Entre evangélicos, o eleitorado que garantiu a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e sustentou o bolsonarismo em 2022, a erosão é rápida e profunda. Flávio perde nove pontos em apenas um mês, caindo de 61% para 52% nesse grupo. Lula, ainda atrás, sobe de 24% para 31% e encurta uma vantagem que parecia imune a abalos.
O movimento não é isolado. A aprovação ao governo Lula entre evangélicos cresce de forma constante: salta de 28% em abril para 30% em maio e chega a 35% em junho. A desaprovação cai de 68% para 60% no mesmo período. O recuo do antipetismo nesse nicho religioso atinge em cheio a retórica de guerra espiritual usada pelo bolsonarismo desde 2018.
Entre católicos, Flávio ao menos estabiliza sua posição. Mantém 34% de apoio, o mesmo patamar medido em maio, sem avanço nem recuo relevante. O contraste reforça a sensação de que o terremoto está concentrado onde mais dói: na base evangélica, até aqui tratada como território cativo da direita radical.
Áudios, Banco Master e o desgaste moral entre fiéis
Nos bastidores, pastores e líderes evangélicos admitem que a ruptura não nasce de um único episódio. Mas apontam um gatilho claro: o escândalo do Banco Master e os áudios vazados de Flávio cobrando repasses milionários do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero por fraudes bilionárias.
Em março, quando veio à tona que a CPI do INSS havia encontrado seu número de celular na agenda de Vorcaro, o senador tentou afastar suspeitas. Disse que não tinha relação com o ex-banqueiro e que seu telefone era amplamente conhecido. A versão desmorona quando o The Intercept Brasil divulga áudios em que o próprio Flávio pressiona o empresário por dinheiro.
As gravações revelam a promessa de injeção de R$ 134 milhões na produção de Dark Horse, cinebiografia encomendada para exaltar Jair Bolsonaro. Pelo menos R$ 61 milhões acabam liberados, segundo a investigação. A narrativa de cruzada moral, central no discurso bolsonarista aos púlpitos, se choca com a imagem de um senador negociando bastidores financeiros de um filme laudatório sobre o pai.
A pesquisa Quaest mostra a dimensão do estrago. Para 60% dos eleitores ouvidos, os diálogos levantam “fortes suspeitas de corrupção”. Outros 65% avaliam que Flávio erra gravemente ao receber recursos de um magnata envolvido com crimes financeiros. Entre evangélicos, o julgamento moral pesa ainda mais, segundo relatos de pastores ouvidos reservadamente por partidos governistas e oposicionistas.
O desgaste explode com força nas redes sociais após a Marcha para Jesus. Levantamento da Ativaweb DataLab, que analisa 17 milhões de menções nas primeiras 20 horas depois do evento, aponta que 51,9% das interações sobre Flávio têm tom negativo. Cristãos criticam a transformação de um ato religioso em palanque de campanha e rejeitam a fala do senador sobre “guerra espiritual” e a promessa de que “o mal vai ser expulso do governo”. O discurso, que em outros momentos mobiliza, agora soa cansado e oportunista.
Lula cresce, independentes migram e base racha
O movimento evangélico não acontece no vácuo. Lula aproveita a brecha ética aberta pelos escândalos e ganha terreno em segmentos decisivos. Entre eleitores independentes, que não se declaram nem lulistas nem bolsonaristas, Flávio cai de 31% para 24% nas intenções de voto. O presidente abre vantagem de 13 pontos nesse grupo e transforma um empate técnico anterior em abismo eleitoral.
Analistas políticos ouvidos por partidos de centro descrevem um quadro de “isolamento” da extrema direita. A sequência de denúncias cola em Flávio rótulos de “corrupto”, “traidor da pátria” e “trapaceiro eleitoral”, expressão que circula com frequência em redes e grupos de WhatsApp monitorados por consultorias privadas. A viagem oficial do senador aos Estados Unidos, no auge da crise, reforça essa percepção.
Em Washington, Flávio busca parlamentares aliados de Donald Trump e representantes de organismos internacionais. Defende, segundo relatos, sanções econômicas e políticas ao Brasil sob o argumento de que é alvo de perseguição. A ofensiva vira munição para adversários, que classificam o gesto como tentativa de punir o próprio país para escapar da Justiça. Dentro de igrejas, o episódio é descrito por lideranças como um ponto de não retorno.
O abalo também atinge a relação do senador com as instituições eleitorais. Ao perceber o derretimento nas pesquisas, Flávio recorre ao Tribunal Superior Eleitoral e consegue, em decisão liminar do ministro Kassio Nunes Marques, suspender a divulgação de um levantamento da AtlasIntel/Bloomberg. A justificativa é de que as perguntas induzem respostas negativas ao seu nome.
A medida é recebida como censura eleitoral por partidos, entidades civis e juristas. A repercussão amplia a curiosidade em torno dos dados. Na própria AtlasIntel, Flávio já havia caído seis pontos no segundo turno, ficando com 41,8% contra 48,9% de Lula. O tiro, dentro do PL, é visto como um erro político grave.
Operação Michelle, rachaduras familiares e o que vem pela frente
Com o derretimento nas bases e a campanha paralisada, Jair Bolsonaro intervém de casa, onde cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. O ex-presidente determina que Michelle Bolsonaro assuma o protagonismo na pré-campanha do enteado. A ordem tenta repetir a fórmula que a transformou em estrela entre evangélicos em 2018 e 2022.
O plano esbarra em um histórico de conflitos internos. Aliados relatam anos de tensão entre Flávio e a madrasta, marcados por humilhações privadas e desconfiança pública. O senador se refere a ela, em conversas reservadas, como “agregada” que se pendura no sobrenome Bolsonaro. Michelle, por sua vez, não poupa ironias sobre os tropeços políticos e judiciais do enteado.
Mesmo assim, o PL joga todas as fichas na ex-primeira-dama. A estratégia é concentrada em três frentes. A prioridade absoluta é reconquistar o eleitor evangélico, nicho em que Michelle ainda mantém apelo emocional por meio de testemunhos de fé e discurso religioso intenso. Em seguida, a campanha mira o eleitorado feminino, historicamente refratário ao tom agressivo dos homens da família Bolsonaro e sensível às denúncias de corrupção.
O terceiro alvo são as classes mais pobres, onde a lembrança de ações assistenciais ligadas ao nome de Michelle ainda resiste. A ideia é usar a imagem de caridade para disputar espaço com programas sociais do governo federal e recuperar ao menos parte do terreno perdido. Dirigentes admitem, em conversas reservadas, que se trata de uma “operação de salvamento” de alto risco.
O calendário impõe um freio à ofensiva. Grandes atos conjuntos entre Michelle e Flávio não devem acontecer durante a Copa do Mundo, quando a atenção do país se volta ao futebol. A trégua temporária é usada para tentar costurar, longe dos holofotes, uma paz familiar mínima e um discurso unificado.
O tempo, porém, corre contra o PL. Se a curva de Lula entre evangélicos seguir a trajetória dos últimos meses e o desgaste moral de Flávio não for contido, a eleição de 2026 pode marcar não só uma derrota eleitoral, mas o fim da hegemonia bolsonarista em seu próprio reduto de fé.
