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Flávio culpa Lula por veto da UE à carne e promete reverter impasse

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transforma o veto da União Europeia à carne brasileira em munição eleitoral. Em junho de 2026, ele responsabiliza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela decisão europeia e promete reverter o impasse caso seja eleito em outubro.

Crise sanitária vira combustível de campanha

O estopim é a decisão da Comissão Europeia, formalizada em 5 de junho, que exclui o Brasil da lista de países autorizados a exportar carne bovina, frango e outros produtos de origem animal para o bloco. O ato cita falhas nas garantias oferecidas por Brasília sobre o uso de medicamentos antimicrobianos na produção animal e mantém o país como única nação barrada por não cumprir as exigências sanitárias.

Em publicação nas redes sociais, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro atribui o impasse diretamente ao Palácio do Planalto. “Pelo visto, mais um problema do Lula que vou ter que resolver ano que vem. O Brasil e o Agro voltarão a ser respeitados”, escreve o senador, em referência a uma eventual vitória na eleição presidencial de 2026. Flávio é pré-candidato e tem Lula como principal adversário na disputa pela reeleição.

A fala ecoa entre produtores rurais e exportadores que veem na decisão europeia o risco concreto de perda de mercado. Entidades do setor calculam impacto potencial de até US$ 2 bilhões por ano em exportações, considerando carne bovina, frango, pescado, embutidos, cavalos vivos e mel. A União Europeia é destino estratégico para o agronegócio brasileiro, tanto pelo volume de compras quanto pelo peso simbólico de seu mercado, visto como vitrine sanitária.

No centro da disputa está uma regra técnica com efeitos políticos imediatos. Desde 2019, a legislação europeia exige que países exportadores comprovem, por meio de documentos formais, que não utilizam determinados antibióticos para acelerar o crescimento de animais ou aumentar a produtividade. A União Europeia aceita o uso desses medicamentos apenas para prevenir e tratar infecções, mas considera que o Brasil não apresenta, até agora, garantias suficientes de que segue esse padrão.

Pressão sobre o governo e isolamento do Brasil

A Comissão Europeia informou em maio que havia dado prazo até 3 de setembro para que o Brasil se adequasse às novas exigências. O bloco, porém, afirma não ter recebido informações consideradas satisfatórias sobre o controle do uso desses medicamentos. A decisão mantém o veto, mesmo sem registro recente de carne contaminada ou de surto sanitário envolvendo produtos brasileiros no mercado europeu.

As comparações feitas em Bruxelas aumentam o constrangimento para o governo Lula. Países como Armênia, Índia, Indonésia, Quênia, Nigéria, Sérvia, Tanzânia, Tunísia, Uganda e Uzbequistão seguem autorizados a exportar após enviarem as garantias pedidas. Os vizinhos de Mercosul também permanecem habilitados. Argentina, Paraguai e Uruguai conseguem manter o acesso ao mercado europeu, o que esvazia o argumento de que o veto estaria ligado à negociação do acordo comercial entre os dois blocos.

O Ministério da Agricultura tenta ajustar a rota desde o início do ano. Em abril, a pasta publica uma portaria restringindo parte dos medicamentos questionados pelos europeus e reforçando a regulamentação sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. A medida, porém, ainda não convence a Comissão Europeia, que considera o pacote de informações enviado por Brasília insuficiente para retirar o Brasil da lista de países barrados.

No Itamaraty, o tom é de discrição. Em nota enviada ao Estado de Minas, o Ministério das Relações Exteriores confirma que há “diálogos em curso” com a Comissão Europeia, mas evita detalhar o conteúdo das conversas, sob o argumento de preservar a condução das negociações. O silêncio oficial contrasta com o barulho da campanha presidencial, em que o episódio é exibido como símbolo de perda de prestígio internacional.

No campo, a apreensão é imediata. Frigoríficos com forte exposição ao mercado europeu, cooperativas e produtores médios calculam custos de adaptação às novas regras e procuram alternativas em outros destinos, como Oriente Médio e Ásia. A União Europeia, no entanto, paga prêmios relevantes por carne com selo sanitário robusto, o que torna a perda mais pesada do que sugerem os números brutos de exportação.

Representantes do agronegócio cobram previsibilidade e se dividem na avaliação política. Parte responsabiliza o governo Lula por não acelerar as mudanças regulatórias após o aviso de maio. Outra parcela aponta um problema mais amplo, que atravessa governos e atinge a capacidade do país de responder com agilidade a novas normas internacionais em temas sanitários e ambientais.

Disputa eleitoral e corrida por uma saída

Flávio Bolsonaro tenta ocupar esse espaço de descontentamento. Ao associar o veto europeu a uma suposta perda de respeito ao Brasil, ele fala diretamente a uma base rural que tem peso decisivo em estados do Centro-Oeste, do Sul e partes do Sudeste. O discurso recupera a imagem de um “Brasil do agro forte” construída durante o governo do pai e busca contrastá-la com a atual situação de isolamento no mercado europeu.

O Planalto, por sua vez, trabalha para evitar que o tema se cristalize como derrota eleitoral antecipada. Técnicos da Agricultura e do Itamaraty discutem novas portarias, acordos de cooperação e eventuais missões a Bruxelas para detalhar procedimentos de fiscalização e controle de antibióticos no rebanho brasileiro. O governo tenta demonstrar disposição para atender às exigências sem abrir mão do discurso de soberania regulatória.

As próximas semanas são decisivas para definir o rumo da crise. Caso o Brasil consiga apresentar um pacote mais robusto de garantias sanitárias, a Comissão Europeia pode rever o veto e reabilitar parte das exportações antes do fim do ano. Se isso não ocorrer, o país entra na campanha presidencial sob a sombra de um prejuízo anual estimado em US$ 2 bilhões e com a imagem abalada em um dos mercados mais exigentes do mundo.

Entre a pressão dos produtores, a disputa eleitoral e a exigência técnica europeia, o governo corre para provar que o problema ainda pode ter solução negociada. A dúvida que permanece é se a diplomacia e a mudança regulatória conseguirão andar no ritmo imposto por um calendário eleitoral cada vez mais curto.

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