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Política

Flávio Bolsonaro teve três registros de entrada na Argentina em apenas 34 minutos

Documentos migratórios revelam movimentações durante a saída do senador do Brasil; viagem teria envolvido aviões particulares, vans e possível participação de ex-agente da inteligência israelense.

Flávio Bolsonaro teve três registros de entrada na Argentina em apenas 34 minutos

Uma reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (1º), revelou novos detalhes sobre a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil rumo aos Estados Unidos. Documentos migratórios argentinos mostram que o nome do parlamentar apareceu três vezes nos registros de entrada no país em um intervalo de apenas 34 minutos. A operação teria envolvido aeronaves particulares, veículos terrestres e a possível participação de um ex-integrante do serviço de inteligência de Israel.

O deslocamento ocorreu na terça-feira (27), dois dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. Na ocasião, o senador já estava submetido a uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinava a entrega de seus passaportes e proibia sua saída do território brasileiro. A Polícia Federal investiga como a viagem foi realizada apesar das restrições judiciais.

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Como Flávio Bolsonaro chegou aos EUA após cruzar a fronteira com a Argentina

Três registros migratórios levantam dúvidas sobre a rota

Um dos principais pontos revelados pelo Fantástico envolve documentos do sistema de imigração da Argentina, obtidos no contexto de uma investigação com cooperação internacional.

Segundo a reportagem, o nome de Flávio Bolsonaro aparece em três registros de entrada no país, realizados na noite de 27 de outubro, em um intervalo de aproximadamente 34 minutos.

O primeiro ocorreu às 22h37, com a apresentação de um passaporte italiano. Três minutos depois, às 22h40, houve outro registro utilizando uma carteira de motorista. O terceiro foi realizado às 23h11, desta vez com um passaporte brasileiro.

De acordo com a apuração, somente o primeiro registro permaneceu válido no sistema migratório argentino.

A sequência chamou a atenção dos investigadores porque os documentos indicam diferentes procedimentos de identificação para uma mesma pessoa em um curto intervalo de tempo.

A reportagem também apresentou informações que sugerem uma diferença entre o trajeto registrado pelas autoridades migratórias e o deslocamento que teria sido efetivamente realizado pelo senador.

Aviões particulares e vans teriam sido utilizados na viagem

Conforme a reconstrução apresentada pelo Fantástico, uma das hipóteses investigadas é que Flávio tenha deixado Brasília às 5h05 de terça-feira (27), em uma aeronave particular.

O avião teria pousado às 8h40 no aeroporto de San Fernando, na região metropolitana de Buenos Aires, na Argentina.

Depois, o senador teria embarcado em outra aeronave com destino a Puerto Iguazú, cidade argentina localizada na região da tríplice fronteira com Brasil e Paraguai.

Enquanto isso, a esposa do parlamentar, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal teriam seguido um percurso diferente.

Segundo a reportagem, elas viajaram de Brasília até Cascavel, no Paraná, e posteriormente utilizaram uma van para atravessar a fronteira brasileira em direção à Argentina.

A travessia terrestre teria ocorrido na noite de terça-feira, por volta das 20h.

A principal hipótese apresentada pela investigação jornalística é que Flávio tenha chegado a Puerto Iguazú por via aérea e permanecido na aeronave enquanto aguardava a chegada dos familiares.

Essa possibilidade, entretanto, ainda depende de confirmação pelas autoridades responsáveis pela investigação.

Um dos pontos que precisam ser esclarecidos é por que o nome do senador apareceu em registros associados ao deslocamento terrestre, caso ele tenha realizado parte do percurso em aeronaves particulares.

Ex-agente da inteligência israelense aparece na investigação

Outro personagem identificado na reportagem é o israelense Menachem Booky Halevy, apresentado como ex-integrante do serviço de inteligência de Israel.

Segundo o Fantástico, Halevy estava em uma segunda van que atravessou a fronteira entre Brasil e Argentina aproximadamente sete minutos antes do veículo associado à família de Flávio Bolsonaro.

A presença do israelense passou a integrar os elementos examinados na reconstrução da viagem.

A Polícia Federal busca esclarecer se ele participou da organização do deslocamento e qual teria sido sua atuação.

Até o momento, a presença de Halevy na região não comprova, isoladamente, que ele tenha coordenado ou executado uma operação para facilitar a saída do senador.

A reportagem também mencionou informações publicadas pela imprensa argentina sobre a contratação de diferentes aeronaves e a possível participação de pessoas ligadas a autoridades estrangeiras.

Essas informações ainda dependem de confirmação independente e de esclarecimentos sobre a responsabilidade de cada envolvido.

Polícia Federal confirma investigação sobre saída do país

Em nota oficial divulgada em 28 de outubro, a Polícia Federal informou que havia solicitado ao STF, no dia 25, medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro após identificar risco de saída do Brasil.

Entre as providências autorizadas estavam a apreensão dos passaportes, a proibição de deixar o território nacional e a restrição de contato com outros investigados.

A corporação confirmou que os passaportes brasileiros comum e diplomático do senador foram cancelados após a decisão judicial.

Também foi incluído um alerta migratório no Sistema Nacional de Alertas e Restrições de Viagem, conhecido como Sonar.

Flávio foi intimado na manhã de segunda-feira (26) a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas, determinação que, segundo a PF, não foi cumprida.

A instituição também informou que não encontrou registros oficiais da saída do parlamentar pelos postos brasileiros de controle migratório.

Apesar disso, a Polícia Federal ressaltou que a existência de restrições sobre documentos de viagem não significa, automaticamente, que o investigado seja considerado foragido.

“A existência de restrições relacionadas a documentos de viagem, por si só, não caracteriza a condição de foragido nem autoriza a realização de prisão, de vigilância permanente ou de outras medidas cautelares.”

A PF informou que continua investigando as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais.

Flávio Bolsonaro nega fuga e acusa perseguição política

Antes da exibição da reportagem, Flávio Bolsonaro publicou uma nota nas redes sociais em que contestou a caracterização de sua saída do Brasil como uma fuga.

O senador afirmou que decidiu deixar o país por considerar injustificadas as medidas determinadas contra ele e acusou o ministro Alexandre de Moraes de perseguição política.

“Não saí do Brasil, saí pelo Brasil!”

Flávio também criticou a TV Globo. Segundo o parlamentar, a emissora teria oferecido uma entrevista exclusiva, mas não aceitado sua condição de que a conversa fosse exibida integralmente, sem cortes ou restrições de assuntos.

A versão sobre a negociação da entrevista foi apresentada pelo senador e não havia confirmação independente sobre os motivos pelos quais a conversa não ocorreu.

Na reportagem do Fantástico, foi apresentado o posicionamento do advogado Frederick Wassef, que contestou a classificação da viagem como fuga.

A defesa sustenta que o senador não cometeu irregularidades e questiona as medidas judiciais adotadas contra ele.

As acusações de perseguição política feitas por Flávio representam a posição do parlamentar e não constituem uma conclusão judicial sobre a atuação das autoridades.

Investigação envolve suspeitas de irregularidades financeiras

A saída do país ocorreu enquanto Flávio Bolsonaro é investigado em um procedimento no Supremo Tribunal Federal relacionado a suspeitas de irregularidades financeiras que também envolvem o advogado Willer Tomaz.

O senador e sua defesa negam a prática de crimes.

Em 30 de outubro, os advogados apresentaram novas petições ao Supremo para contestar a condução da investigação.

Entre os pedidos estão o afastamento de Alexandre de Moraes da relatoria, a transferência do procedimento ao ministro André Mendonça e a revisão das restrições impostas aos passaportes de Flávio.

Os pedidos ainda dependem de análise judicial e não suspendem automaticamente as medidas cautelares em vigor.

O caso também trouxe questionamentos sobre o uso de documentos estrangeiros e sobre os mecanismos de comunicação entre autoridades migratórias de diferentes países.

A existência de um passaporte emitido por outra nacionalidade não elimina, por si só, as obrigações decorrentes de uma decisão judicial brasileira.

Próximos passos

A Polícia Federal deverá continuar a reconstrução do trajeto realizado por Flávio Bolsonaro, com atenção aos horários dos deslocamentos, à documentação utilizada na Argentina e à possível participação de terceiros na organização da viagem.

Também será necessário esclarecer as divergências entre os registros migratórios apresentados e as informações sobre o deslocamento aéreo do senador.

No Supremo Tribunal Federal, seguem pendentes de análise os pedidos apresentados pela defesa para questionar a relatoria da investigação e revisar as restrições judiciais.

Flávio Bolsonaro permanece nos Estados Unidos. Até que as apurações sejam concluídas e novas decisões sejam divulgadas, as circunstâncias completas da viagem e as possíveis consequências jurídicas continuam em investigação.