Flamengo tem pior público da Libertadores no Maracanã em 16 anos
O Flamengo registra nesta terça-feira (27) o pior público de um jogo de Libertadores no Maracanã em 16 anos. Apenas 32.497 torcedores pagam ingresso para a vitória sobre o Cusco, em noite marcada por setores fechados no estádio e protestos nas arquibancadas.
Maracanã esvaziado expõe tensão entre clube e arquibancada
O número causa estranheza porque a Conmebol libera a carga total de ingressos, que supera 60 mil lugares disponíveis. As imagens de anéis vazios e cadeiras recolhidas contrastam com o clima habitual de Libertadores no Rio. Em vez de mosaicos e bandeirões, sobram buracos nas curvas e um som de estádio meio engasgado, em que vaias dividem espaço com cânticos de apoio.
A noite no Maracanã deixa claro que o problema vai além do adversário modesto e do horário de terça-feira. A decisão do clube de manter setores fechados, aliada à escalada de críticas à diretoria e ao desempenho irregular na fase de grupos, cria um cenário de afastamento. Em 2024, a média de público do Flamengo na competição ultrapassa 55 mil pessoas. Em 2026, o dado de 32.497 pagantes acende um alerta imediato.
Setores fechados, protestos e um novo recorde negativo
Os portões se abrem por volta das 19h, mas boa parte do anel superior permanece bloqueada. Funcionários instalam faixas de isolamento em degraus que costumam receber as torcidas organizadas em jogos de mata-mata. A direção alega questões operacionais e de segurança. Torcedores enxergam, sobretudo, um distanciamento crescente. “Não faz sentido deixar a gente de fora com o estádio liberado. A Libertadores é o torneio que mais mexe com o torcedor”, reclama o administrador Rodrigo Nogueira, 36, que acompanha o time desde a década passada.
O clima de insatisfação se traduz em cânticos contra a diretoria ainda no aquecimento, com o estádio longe de encher. Em alguns momentos do primeiro tempo, gritos de “time sem vergonha” e “time morto” ecoam na arquibancada leste, abafando o barulho tímido da bateria no setor sul. Cada erro de passe vira motivo para vaias esparsas. A vitória em campo não basta para mudar a atmosfera pesada.
O dado de público pago, divulgado no telão na metade da etapa final, confirma a impressão visual. O número de 32.497 torcedores é o mais baixo do Flamengo em um jogo de Libertadores no Maracanã desde 2010, quando o time ainda vivia outra fase financeira e esportiva. A renda bruta, mantida sob sigilo pelo clube até o fim da partida, tende a ficar distante das cifras frequentes de bilheterias acima de R$ 4 milhões registradas em noites decisivas recentes.
Dentro de campo, o Flamengo faz sua parte e vence o Cusco, resultado que mantém o time vivo na competição. O desempenho, porém, não contagia. Parte dos torcedores passa boa parte do segundo tempo de costas para o gramado, cantando palavras de ordem. Outra parcela responde com aplausos e tenta empurrar o time. O estádio parece dividido entre cobrança e proteção ao elenco.
Público baixo vira sinal amarelo na gestão e na Libertadores
O esvaziamento do Maracanã tem impacto imediato na imagem do clube e no ambiente que o Flamengo costuma transformar em trunfo na Libertadores. Em 2019, 2021 e 2022, o time constrói campanhas longevas apoiado em médias superiores a 60 mil pessoas por jogo, com alta taxa de ocupação e ingressos valorizados. A quebra dessa lógica em 2026 é interpretada internamente como um recado. “É um choque de realidade. A conta chega quando a relação com a arquibancada se desgasta”, admite, em caráter reservado, um dirigente ouvido pela reportagem.
No curto prazo, o clube se vê pressionado a rever políticas de precificação, abertura de setores e comunicação com as organizadas. A manutenção de áreas fechadas em partidas consideradas de risco pode voltar a debate na próxima reunião do Conselho de Administração. Empresários do entorno do estádio também sentem o impacto. Bares na rua Eurico Rabelo e ambulantes relatam queda nas vendas em comparação com jogos de 2025, quando o público raramente ficava abaixo de 55 mil pessoas na fase de grupos.
Especialistas em segurança ouvidos por emissoras de TV durante a transmissão reforçam que a estratégia de restringir setores não pode ser a única resposta a episódios de violência pontuais. “Fechar arquibancada é uma solução fácil, mas não resolve o problema estrutural. É preciso inteligência, monitoramento e punição individual, não coletiva”, afirma o sociólogo e pesquisador de segurança em estádios Marcelo Silva.
A torcida organizada insiste que não aceita mais ser colocada “como culpada genérica” por qualquer confusão. Nas redes sociais, vídeos de filas vazias e corredores desertos circulam ainda no intervalo. Hashtags que cobram da diretoria mais diálogo e transparência em decisões envolvendo o Maracanã ganham força ao longo da noite. O episódio ultrapassa o campo esportivo e entra na discussão sobre o modelo de gestão de arenas no país.
Pressão por mudanças e a incógnita dos próximos jogos
Os próximos jogos da Libertadores no Rio de Janeiro passam a ser vistos como termômetro da reconstrução dessa relação. A diretoria discute internamente a possibilidade de reabrir setores já na fase de mata-mata, se houver classificação, e testar faixas de preço mais agressivas em partidas de menor apelo. A ideia é recuperar o efeito de caldeirão que faz diferença em confrontos eliminatórios.
Reuniões com torcedores organizados e conselheiros estão previstas para as próximas semanas, com foco em segurança, logística e experiência do torcedor. O clube também deve ser cobrado por órgãos públicos e pela própria Conmebol a apresentar planos detalhados de controle de acesso e prevenção a conflitos. A tendência é que a discussão sobre o Maracanã vá além de grades e catracas e toque no ponto central: como manter o estádio cheio e, ao mesmo tempo, seguro.
Enquanto o time tenta se firmar em campo, o Flamengo enfrenta outra batalha fora das quatro linhas, mais complexa e silenciosa. O recorde negativo de 32.497 pagantes em um Maracanã liberado simboliza esse impasse. As próximas noites de Libertadores dirão se a arquibancada volta a ser protagonista ou se o esvaziamento desta terça-feira marca o início de uma nova fase na relação entre clube e torcida.
