Figurinhas ‘Legend’ da Copa 2026 viram ouro no mercado paralelo
Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, colecionadores brasileiros travam uma corrida milionária por figurinhas raras do álbum oficial. As peças mais cobiçadas, da série “Legend”, alcançam preços acima de R$ 1.000 em marketplaces e grupos de troca online.
Caça ao tesouro em pacotinhos de R$ 5
O álbum da Copa 2026 chega às bancas num cenário já inflacionado pelo aumento de seleções. São 48 equipes e 980 figurinhas necessárias para completar a coleção, o maior volume da história. Em paralelo à busca tradicional, uma febre mais silenciosa ocupa noites e fins de semana de torcedores: encontrar as raras figurinhas “Legend”, lançadas pela Panini fora da contagem oficial.
A editora escala 20 jogadores considerados lendas da geração atual e os distribui em quatro acabamentos especiais, com brilho e textura exclusivos: roxo, bronze, prata e dourado. Cada uma dessas versões aparece de forma aleatória nos pacotes, sem indicação na embalagem. Quem compra não sabe se está levando um reserva desconhecido ou um Cristiano Ronaldo dourado avaliado em centenas de reais nas plataformas de revenda.
As probabilidades revelam o tamanho do desafio. Uma figurinha roxa pode aparecer entre o primeiro e o 90º pacote. A versão em bronze exige algo entre 1 e 317 pacotes. A prata surge, em média, entre 1 e 900. A dourada, ápice da coleção, pode demandar até 1.900 pacotes, segundo estimativas de colecionadores que cruzam tiragens e relatos em comunidades especializadas.
O cálculo transforma o passatempo em investimento de risco. Considerando um preço médio de R$ 5 por pacote, a busca teórica por uma única dourada pode custar até R$ 9.500. “É loteria pura, mas a gente entra sabendo disso”, diz um colecionador paulistano ouvido pela reportagem. “Tem quem abra caixa atrás de caixa só para achar uma ‘Legend’ e recuperar parte do dinheiro na revenda.”
Mercado paralelo, lendas em leilão e pressão sobre fãs
A Panini decide manter as figurinhas “Legend” fora do álbum oficial. Não há espaço reservado, numeração específica ou necessidade de tê-las para considerar a coleção completa. Na prática, essa escolha empurra as lendas para um mercado paralelo que funciona como bolsa de valores do futebol, oscilando conforme desempenho em campo e hype nas redes sociais.
Os nomes selecionados refletem o mapa atual do estrelato global. Estão na lista Cristiano Ronaldo, Vini Júnior, Erling Haaland, Jude Bellingham, Lamine Yamal, Mohamed Salah, Son Heung-min, Luis Díaz, Alphonso Davies, Hakimi, Pulisic, Gakpo, Valverde, Wirtz, Doku, Caicedo, Raúl Jiménez e outros craques espalhados por América, Europa, África e Ásia. A figurinha dourada de Cristiano Ronaldo, por exemplo, aparece em anúncios por mais de R$ 600. A de Vini Júnior, estrela da Seleção Brasileira, chega a R$ 500 em classificados online.
Nas principais plataformas de compra e venda, anúncios em português se misturam a ofertas internacionais. Vendedores exibem fotos em alta resolução, comprovantes de envio e avaliações de compradores anteriores para justificar preços que passariam por exagero em outras épocas. “O que antes era troca na porta da escola virou negócio global”, afirma um colecionador veterano, que participa de grupos de negociação desde a Copa de 1998. “Hoje tem gente que nem liga para completar o álbum. O foco é só nas ‘Legend’, como investimento.”
A estratégia da Panini, que reforça a aura de exclusividade sem tornar as lendas obrigatórias para o álbum, reduz o risco de frustração entre colecionadores tradicionais, mas aprofunda a divisão entre quem pode gastar mais e quem se limita aos pacotes ocasionais. Em bairros populares, bancas relatam filas no início da manhã e compras fracionadas de três ou quatro pacotes, enquanto influenciadores exibem em vídeos pilhas de caixas fechadas, abertas em transmissões ao vivo em busca da próxima raridade.
O aumento da tiragem total também pesa no orçamento. Para colar as 980 figurinhas regulares, sem considerar repetições, o colecionador precisa de uma combinação exata que é estatisticamente improvável de atingir com poucos pacotes. A cada repetida que sobra na mesa, a chance de sair uma “Legend” alimenta a sensação de que o gasto pode se pagar, ainda que essa aposta raramente se confirme.
Negócio em expansão e dúvidas para o futuro
O fenômeno das figurinhas “Legend” impulsiona uma economia paralela que se espalha do balcão da banca aos marketplaces globais. Revendedores especializados já organizam leilões noturnos em redes sociais, estipulam prazos de pagamento e criam tabelas de preços que variam conforme o tipo de acabamento, o jogador e o momento da Copa. Em dias de gol decisivo, valores disparam em questão de horas.
Nem todos saem ganhando. Colecionadores mais jovens, que dependem do orçamento dos pais, relatam frustração ao perceber que terão poucas chances reais de encontrar uma figurinha dourada sem investir valores altos. O contraste entre quem abre centenas de pacotes e quem conta moedas para comprar um envelope por semana acende discussões sobre acesso e limite entre paixão e aposta. “A gente precisa lembrar que é um álbum de Copa, não um produto financeiro”, alerta um torcedor em um grupo de troca.
Enquanto a bola ainda nem rola, a Panini colhe os frutos de uma estratégia que mantém o álbum no centro da conversa pública. A cada ciclo de Copa, a empresa testa formatos especiais, selos diferenciados e séries paralelas. Agora, com as “Legend”, instala uma camada extra de desafio que prolonga o interesse pelo produto mesmo depois de os primeiros colecionadores completarem as 980 figurinhas oficiais.
O sucesso comercial tende a pressionar futuras edições a repetir ou ampliar o modelo de raridades. A questão é até que ponto o público aceitará esse grau de escassez sem sentir que a experiência se distancia do espírito original dos álbuns de Copa, marcado por trocas em praças, mesas de bar e recreios de escola. Se o valor de uma figurinha ultrapassa R$ 1.000, o jogo deixa de ser apenas sobre futebol e memória afetiva. A próxima coleção dirá se os torcedores continuarão dispostos a pagar esse preço.
