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Extrema-direita larga na frente no 2º turno presidencial na Colômbia

Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda vão disputar o segundo turno da eleição presidencial na Colômbia em 21 de junho de 2026, em um país dividido entre esquerda e extrema-direita. Pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quarta-feira 3 coloca o advogado milionário à frente do senador apoiado por Gustavo Petro.

País polarizado vai às urnas

A nova rodada da AtlasIntel mostra a vantagem inicial de Espriella na corrida pela sucessão de Gustavo Petro e expõe a profundidade da polarização colombiana. O advogado de extrema-direita, admirador declarado de Donald Trump, aparece com 50,3% das intenções de voto, enquanto Cepeda, nome da esquerda, soma 42,6%.

O levantamento, feito de forma digital com 2.030 eleitores entre 1º e 2 de junho, indica ainda 3,7% de votos em branco, 0,5% de votos nulos e 2,9% de indecisos. Com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, o cenário aponta um favoritismo inicial, mas mantém em aberto a disputa nas próximas três semanas.

Petro em xeque e a força da extrema-direita

A eleição coloca em jogo o alcance e a sobrevivência do projeto político de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da Colômbia. Cepeda não é apenas o candidato da coalizão governista, mas também o herdeiro direto de uma agenda que tenta enfrentar a desigualdade, reformar o sistema tributário e consolidar o processo de paz com grupos armados.

Espriella surge como o contraponto mais duro a esse caminho. Milionário, famoso por sua atuação como advogado em casos de alto impacto político, ele se apresenta como defensor de uma agenda de “ordem, autoridade e livre mercado”, inspirada no trumpismo. Em discursos recentes, o candidato promete “restaurar a segurança a qualquer custo” e desmontar o que chama de “experimento esquerdista de Petro”.

Cepeda, por sua vez, tenta transformar o segundo turno em um plebiscito sobre o futuro da democracia colombiana. O senador insiste que a disputa opõe “um projeto democrático de inclusão social” a “uma aventura autoritária da extrema-direita”. Aliados de Petro repetem que uma eventual vitória de Espriella coloca em risco conquistas recentes em direitos sociais, ambientais e de participação política de ex-guerrilheiros.

A Colômbia chega a 2026 depois de um ciclo intenso de protestos, reformas contestadas e negociações de paz. As manifestações massivas de 2021, reprimidas com violência, abriram caminho para a vitória de Petro em 2022 e encerraram décadas de hegemonia de governos conservadores e de centro-direita. A ascensão de Espriella sinaliza uma reação organizada desses setores, em linha com o avanço da extrema-direita em outros países da região.

A pesquisa da AtlasIntel também revela o peso do voto de rejeição. Tanto Espriella quanto Cepeda carregam índices altos de desaprovação, o que transforma a campanha em uma disputa para ver quem o eleitor rejeita menos. Em tom de alerta, analistas políticos em Bogotá apontam que muitos colombianos se sentem “presos entre dois extremos” e podem recorrer ao voto em branco como gesto de protesto.

Economia, segurança e relações regionais em jogo

Os números da AtlasIntel antecipam uma campanha concentrada em três frentes: economia, segurança e política externa. Espriella promete reduzir impostos para empresas, flexibilizar regulações ambientais e atrair investimentos por meio de privatizações. O discurso agrada parte do empresariado, que critica a incerteza econômica sob Petro e teme novas reformas distributivas.

Cepeda defende a continuidade de políticas sociais financiadas por tributação progressiva, com foco em redução da pobreza e inclusão de jovens no mercado de trabalho. O senador sustenta que “não há segurança duradoura sem justiça social” e tenta associar o rival a um modelo que aprofunda desigualdades e tensiona conflitos no campo.

Na área de segurança, o contraste é ainda mais nítido. Espriella promete endurecer o combate ao crime organizado, ampliar o poder das Forças Armadas e rever pontos sensíveis do acordo de paz com as antigas Farc. Em sua narrativa, a Colômbia “afrouxa demais” sob Petro e precisa de “mão firme” para enfrentar narcotraficantes e grupos armados.

Cepeda aposta na continuidade das negociações com guerrilhas remanescentes e grupos dissidentes, combinadas com políticas de desenvolvimento em áreas rurais abandonadas pelo Estado. Uma vitória da esquerda reforça a lógica de pacificação gradual iniciada nas últimas décadas, ainda que o processo avance entre recuos, violações e desconfiança mútua.

O resultado da eleição também interessa diretamente aos países vizinhos. A Colômbia é peça-chave na estabilidade da região andina e nas relações com a Venezuela, o Brasil e os Estados Unidos. Um governo Espriella tende a se alinhar a agendas conservadoras, aproximando-se de setores republicanos em Washington e de lideranças de direita no Cone Sul. Um governo Cepeda consolida a presença de um bloco progressista na América do Sul, ainda que fragmentado e em disputa com forças conservadoras locais.

Diplomatas na região acompanham com atenção o movimento das pesquisas. Uma vantagem de 50,3% a 42,6% pode encolher em poucos dias, caso Cepeda consiga mobilizar eleitores abstencionistas e unificar a esquerda. O peso dos 2,9% indecisos e dos 3,7% que projetam voto em branco será decisivo, sobretudo em grandes centros urbanos.

Campanha encurta tempo e amplia incertezas

Com pouco mais de duas semanas até 21 de junho, os dois candidatos aceleram a caça ao voto flutuante. Equipes de campanha já direcionam esforços às regiões onde Petro teve desempenho expressivo em 2022 e onde a rejeição à extrema-direita é mais forte. A estratégia de Cepeda passa por apresentar-se como continuador crítico do governo atual, reconhecendo erros, mas defendendo o rumo geral.

Espriella tenta capturar o sentimento de cansaço com a política tradicional e com promessas não cumpridas. Sua narrativa procura transformar a eleição em um julgamento de Petro, mais do que em uma escolha entre dois projetos completos. O discurso sobre “resgatar a Colômbia” e “devolver o país aos cidadãos de bem” ecoa slogans conhecidos de campanhas conservadoras em outras partes do continente.

À medida que o segundo turno se aproxima, cresce o risco de um debate público tomado por desinformação e ataques pessoais. Plataformas digitais, as mesmas usadas pela AtlasIntel para ouvir 2.030 eleitores, já concentram campanhas negativas, vídeos manipulados e discursos inflamados. Organizações da sociedade civil alertam para a necessidade de transparência nas pesquisas e responsabilidade no uso de dados.

O desfecho em 21 de junho vai muito além da troca de um governo por outro. A votação define se a Colômbia aprofunda a experiência inédita de um ciclo progressista ou se adere à onda de extrema-direita que volta a ganhar tração na América Latina. Entre a promessa de mudança gradual e a ruptura conservadora, o eleitor colombiano entra na reta final da campanha carregando uma pergunta decisiva: qual projeto oferece futuro com menos medo e mais estabilidade?

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