EUA propõem tarifa extra a 60 países por falha contra trabalho forçado
O governo dos Estados Unidos recomenda, nesta terça-feira (2), tarifas adicionais sobre produtos de 60 países que falham em coibir o uso de trabalho forçado. A proposta, apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), atinge economias como Brasil, China, Reino Unido e União Europeia, e amplia a pressão da Casa Branca sobre cadeias globais de produção. A iniciativa ocorre em 2 de junho de 2026 e aprofunda o contencioso comercial em torno de direitos trabalhistas e concorrência internacional.
EUA elevam o tom em disputa comercial ligada a direitos humanos
O documento do USTR, divulgado na noite de terça-feira, detalha uma nova camada de tarifas sobre todos os produtos importados dos 60 países investigados. O alvo declarado não são apenas os governos estrangeiros, mas a forma como suas economias convivem com mercadorias produzidas com trabalho forçado, tema sensível em organismos internacionais há pelo menos duas décadas. A medida surge um dia depois de um outro órgão de comércio do governo Trump sugerir uma taxação de 25% sobre todas as importações originadas do Brasil, o que adiciona carga política à ofensiva.
Segundo o embaixador Jamieson Greer, que assina a recomendação, os parceiros comerciais falham ao lidar com a entrada de bens fabricados sob condições abusivas. “Houve uma falha dos parceiros comerciais dos Estados Unidos em lidar com a importação de bens fabricados com trabalho forçado”, afirma. Para ele, esse cenário é “inaceitável” e distorce a competição global. “Isso cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições desiguais”, diz o representante.
Na prática, Washington associa um tema clássico da agenda de direitos humanos – a erradicação do trabalho forçado – a um instrumento típico de guerra comercial: tarifas de importação. A Casa Branca tenta, assim, responder a pressões internas de sindicatos e congressistas, que reclamam de fábricas fechadas e empregos deslocados, e ao mesmo tempo ampliar seu poder de barganha em futuras negociações comerciais bilaterais e multilaterais.
Alíquotas dividem países entre “parcialmente comprometidos” e “renitentes”
O USTR propõe duas faixas de sobretaxa. Para as economias que já proíbem a importação de produtos feitos com trabalho forçado, que se comprometem formalmente a aplicar essa proibição ou que mantêm um regime parcial com efeito de barrar essas mercadorias, a alíquota sugerida é de 10%. Entram nesse grupo Canadá, Equador, Indonésia, México, Paquistão e o bloco da União Europeia, além de outros parceiros considerados cooperativos, mas ainda incapazes de garantir uma fiscalização plena.
Para o segundo grupo, formado por economias que, na avaliação de Washington, não conseguiram nem impor nem aplicar de maneira eficaz qualquer proibição, a tarifa adicional proposta é de 12,5%. Esse conjunto inclui Brasil, Argentina, China, Japão, Reino Unido e Rússia, entre outros mercados relevantes. Em todos os casos, as taxas incidem sobre a totalidade das exportações desses países para os EUA, independentemente do setor ou do tipo de produto.
O alcance da medida é amplo. Brasil e China, por exemplo, têm nos Estados Unidos um de seus principais destinos de manufaturados e bens agrícolas. O acréscimo de 12,5% no preço de entrada pode tirar competitividade de linhas inteiras de produção, pressionar margens de lucro e redirecionar fluxos comerciais para outros mercados. Para a União Europeia e o Canadá, que ficariam no grupo de 10%, o golpe financeiro é menor, mas ainda relevante em segmentos com margens apertadas, como vestuário, calçados e bens de consumo.
A decisão também se insere em um movimento mais largo de endurecimento da política comercial americana. Desde o início da gestão Trump, a Casa Branca usa tarifas como instrumento de pressão, primeiro sobre aço e alumínio, depois sobre a China e, mais recentemente, em disputas setoriais. Ao atrelar o tema ao combate ao trabalho forçado, Washington tenta ocupar um terreno moralmente defensável diante de aliados, mas abre espaço para acusações de protecionismo disfarçado.
Impacto sobre exportadores e pressão política interna
Os efeitos econômicos devem se espalhar por cadeias produtivas complexas. Empresas exportadoras brasileiras que vendem aos EUA desde commodities agrícolas até produtos industriais enxergam risco imediato de perda de mercado. Com uma tarifa extra de 12,5%, um embarque de US$ 10 milhões pode ficar US$ 1,25 milhão mais caro na fronteira americana, valor suficiente para deslocar contratos para concorrentes de países não afetados ou com alíquotas menores.
Na China, que já enfrenta sobretaxas em setores estratégicos desde o início da guerra comercial, a nova camada de tarifas reforça o discurso de perseguição econômica. Pequim nega de forma reiterada as acusações de uso sistemático de trabalho forçado em suas cadeias produtivas e deve responder com notas oficiais e possível retaliação. No caso britânico, a inclusão do país na faixa de 12,5% coloca pressão extra sobre Londres, que ainda tenta consolidar novos acordos de comércio após a saída da União Europeia.
No Brasil, a proposta coincide com o debate interno sobre competitividade industrial e política externa. A sugestão de uma taxa geral de 25% sobre as exportações brasileiras, feita na véspera por outro órgão americano, já acende alertas em Brasília e entre empresários. A tarifa de 12,5% agora sugerida pelo USTR, associada ao tema do trabalho forçado, pode ser usada como argumento adicional para uma reestruturação de cadeias produtivas, com rastreabilidade mais rigorosa e auditorias independentes em fornecedores.
Economias em desenvolvimento, como Argentina e Paquistão, correm o risco de ver investimentos produtivos migrarem para países considerados mais alinhados aos padrões exigidos pelos EUA. Ao mesmo tempo, governos locais enfrentam a pressão de não parecerem complacentes com violações de direitos humanos. A combinação de custo econômico e custo reputacional tende a pesar no cálculo político de presidente, ministros e parlamentares.
Diplomacia em alerta e incerteza sobre desfecho
A recomendação do USTR ainda precisa ser discutida dentro do próprio governo americano e pode passar por audiências públicas e revisões técnicas. A experiência recente mostra, porém, que propostas dessa natureza costumam servir de ponto de partida para negociações duras, em que a ameaça de tarifas funciona como alavanca. Chancelarias e ministérios da Economia nos 60 países afetados já preparam, nos bastidores, contrapropostas, pedidos de isenção setorial e promessas de reforço na fiscalização contra trabalho forçado.
Diplomatas brasileiros e de outros países latino-americanos devem buscar canais diretos com Washington nas próximas semanas, tentando transformar a recomendação em instrumento de diálogo e não em sentença definitiva. A União Europeia, que aparece no grupo de 10%, tende a reivindicar reconhecimento por suas normas mais rígidas em direitos trabalhistas e ambientais, ao mesmo tempo em que pressiona empresas europeias a verificar melhor suas cadeias de suprimento em países terceiros.
No médio prazo, a medida pode acelerar uma reconfiguração das cadeias globais de produção, com maior rastreabilidade de insumos e transparência contratual. Grandes fabricantes e varejistas que dependem do mercado americano terão de provar, com documentos e auditorias, que não utilizam trabalho forçado em nenhum elo de sua cadeia. A dúvida, por ora, é se o novo pacote de tarifas cumprirá a promessa de proteger trabalhadores e combater abusos ou se acabará ampliando incertezas e alimentando mais uma rodada de retaliações em um comércio mundial já tensionado.
