EUA miram pecuária e colocam Brasil em lista por trabalho forçado
O governo dos Estados Unidos inclui o Brasil, em 3 de junho de 2026, em uma lista de países que podem sofrer sobretaxa por uso de trabalho forçado na pecuária. A gestão Lula reage, fala em “profunda discordância” e ameaça responder com a Lei de Reciprocidade, elevando o risco de uma nova escalada na relação com Washington.
Relatório americano mira carne brasileira e acusa falha em coibir trabalho escravo
O movimento parte do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que recomenda tarifas adicionais de 12,5% sobre produtos de 54 países, entre eles o Brasil, e de 10% para outras seis economias. O relatório de 98 páginas cita o Brasil 19 vezes e sustenta que o país “não impôs nem aplicou efetivamente” uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado. No texto, a pecuária brasileira aparece como um dos três estudos de caso usados para justificar a ofensiva, ao lado do arroz de Mianmar e do tabaco do Malauí.
As autoridades americanas afirmam que “está bem documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil” e apontam a lista do governo dos EUA que monitora produtos feitos com trabalho infantil ou escravo, a TVPRA, como evidência de que há “razões para acreditar” na prática. “Pesquisas independentes sugerem que pecuaristas brasileiros constam na chamada ‘Lista Suja’”, registra o relatório ao se referir ao cadastro do Ministério do Trabalho que reúne empregadores flagrados explorando trabalho análogo à escravidão.
O USTR sustenta que a falta de uma proibição específica à importação de bens ligados a trabalho forçado cria “condições desiguais de competição” para os produtores americanos. “O fracasso dos nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado é inaceitável”, afirma o representante-geral de Comércio, Jamieson Greer. Na visão de Washington, esse vácuo regulatório permite que empresas estrangeiras reduzam custos à custa de violações de direitos e pressionem para baixo preços médios globais.
Governo Lula fala em protecionismo e cogita retaliar
Em Brasília, o impacto é imediato. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulga nota em que considera “lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais”. A pasta afirma que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece “há décadas” o Brasil como referência no combate ao trabalho forçado e cita uma combinação de fiscalização, responsabilização de empregadores, cooperação entre órgãos públicos e compromisso político.
O governo Lula deixa claro que prepara uma resposta. O MDIC menciona a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade, instrumento que permite retaliar países que, na avaliação do Brasil, adotam políticas comerciais sem amparo nas regras multilaterais. Na prática, essa decisão pode abrir espaço para novas tarifas sobre produtos americanos, em um momento em que a relação bilateral já sofre abalos sucessivos. A diplomacia brasileira, porém, ainda tenta conter danos e diz esperar que as recomendações preliminares não se convertam em tarifas efetivas.
A disputa ocorre num contexto de pressão tarifária mais ampla. Um dia antes da divulgação do relatório sobre trabalho forçado, o mesmo USTR conclui outra investigação, iniciada em julho do ano passado, e propõe sobretaxa de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros. O documento acusa o país de adotar práticas “irrazoáveis” em áreas como comércio digital, serviços de pagamento, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal. As consultas públicas sobre esse pacote vão até 1º de julho, e uma audiência está marcada para 6 de julho, com prazo final para decisão em 15 de julho.
As novas iniciativas também se encaixam na tentativa do governo americano de substituir uma tarifa de 10% criada por Donald Trump com base em uma lei de 1974 e derrubada em fevereiro pela Suprema Corte. Autoridades e especialistas veem na ofensiva atual uma forma de manter parte do “tarifaço” sob outro pretexto. “Os EUA estão buscando outras maneiras de restabelecer essa barreira tarifária”, critica o ministro do Comércio da Nova Zelândia, Todd McClay, ao jornal Financial Times, ao negar envolvimento de seu país em trabalho forçado.
Pecuária, exportações e risco de guerra comercial
O foco sobre a carne bovina dá contornos concretos à disputa. Entre 2015 e 2025, segundo o relatório americano, o volume exportado de carne bovina congelada do Brasil para as economias investigadas quase dobra, enquanto as vendas dos EUA crescem 21% no mesmo período. Os dois países disputam principalmente o mercado chinês, hoje o maior destino da carne brasileira. Para Washington, parte dessa perda de espaço se explica pela concorrência de produtos supostamente associados a trabalho forçado.
Os americanos admitem que “nem todas as importações chinesas de carne bovina congelada do Brasil são necessariamente produzidas com trabalho forçado”, mas afirmam que a “prevalência dessa prática na produção pecuária brasileira sugere fortemente” que uma parcela dessas exportações tem origem em condições ilegais. A acusação atinge diretamente frigoríficos exportadores, redes de supermercados internacionais e toda a cadeia de insumos da pecuária, de confinamentos a fornecedores de ração e logística.
Na ponta brasileira, entidades do setor ainda evitam reação pública mais dura enquanto avaliam o alcance das medidas. Exportadores de carne calculam que uma sobretaxa de 12,5% colocaria em dúvida contratos de longo prazo, principalmente com redes americanas que importam produtos processados e cortes especiais. Pequenos e médios produtores, especialmente na fronteira agrícola da Amazônia Legal, temem que a combinação de tarifas e novas exigências de rastreabilidade pressione margens já estreitas e acelere a concentração de mercado.
O risco de uma espiral de retaliações preocupa também outros segmentos. Se o Brasil aciona a Lei de Reciprocidade, setores como soja, milho, etanol e produtos industriais podem ser usados como moeda de troca. Investidores acompanham o embate com cautela, atentos a possíveis revisões de planos de expansão de plantas e de acordos de fornecimento de longo prazo. A perspectiva de uma “mini guerra comercial” entre as duas maiores economias das Américas adiciona incerteza a um cenário global já marcado por desaceleração e disputas tecnológicas.
Escalada política e próximos capítulos
As tensões comerciais se somam a um clima político carregado. O anúncio sobre trabalho forçado vem dias depois de Washington classificar as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão celebrada pela oposição ao governo Lula. A Casa Branca também é pressionada internamente por parlamentares alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que tentam usar a pauta de segurança e direitos humanos para desgastar o Planalto.
Lula reage com dureza e acusa os filhos de Bolsonaro de atuarem contra o país ao se aproximarem de Donald Trump e de senadores republicanos. Em discursos recentes, chama Flávio e Eduardo Bolsonaro de “vendilhões da pátria” e “traidores” por, segundo ele, levarem a Washington uma narrativa que fragiliza a posição brasileira nas negociações. Flávio nega e divulga carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, em que pede a suspensão de novas tarifas, alegando que o Brasil vive “grave processo de deterioração fiscal e econômica” e que as sanções causariam “sérios danos ao povo brasileiro”.
O representante de Comércio dos EUA afirma que mantém “reuniões construtivas” com Lula e Trump e diz esperar um entendimento até 15 de julho, prazo para bater o martelo sobre o pacote de tarifas. Antes disso, o USTR realiza audiência pública em 7 de julho para discutir especificamente as sobretaxas ligadas ao trabalho forçado, que atingem 59 países e a União Europeia e cobrem mais de 99% das importações americanas.
Diplomatas e negociadores comerciais avaliam que o desfecho vai indicar até onde os dois governos estão dispostos a usar tarifas como instrumento de pressão política. Se prevalecer o tom de confronto, produtores rurais, trabalhadores da cadeia da carne e consumidores dos dois países podem sentir, em poucos meses, o peso de uma disputa que hoje ainda se trava em relatórios oficiais e discursos inflamados. A pergunta que permanece em Brasília e Washington é se haverá espaço, nas próximas semanas, para um acordo que preserve comércio, empregos e compromissos reais contra o trabalho escravo.
