EUA indiciam Raúl Castro e elevam pressão máxima sobre Cuba
O governo dos Estados Unidos indicia o ex-presidente cubano Raúl Castro, 94, por assassinato em 2026 e intensifica a pressão para enfraquecer o regime comunista em Havana. A medida reacende o debate sobre mudança de governo na ilha e coloca Cuba no centro da disputa geopolítica na América Latina.
Indiciamento reabre feridas e mira o coração do regime
O processo nos EUA tem origem na derrubada de duas aeronaves civis, em 24 de fevereiro de 1996, por jatos de combate cubanos. Vinte e nove anos depois, procuradores americanos responsabilizam diretamente Raúl Castro pelo ataque e o acusam de assassinato, num gesto que vai além da disputa jurídica e atinge o símbolo maior da revolução de 1959 ainda vivo e influente.
O indiciamento chega em meio à pior crise energética e de combustíveis em décadas na ilha, com apagões diários e escassez de alimentos. Em Washington, a leitura é que o momento de fragilidade econômica abre uma janela rara para forçar mudanças políticas. Autoridades americanas falam em “fim do comunismo em Cuba” enquanto completam 66 anos de regime na ilha.
Donald Trump, novamente na Casa Branca, afirma publicamente que acredita não ser necessária uma escalada militar. Ao mesmo tempo, seu governo promete não tolerar um “Estado vilão” a apenas 144 quilômetros da Flórida e mantém aberta a possibilidade de ações mais duras. Parlamentares republicanos pressionam por uma linha ainda mais agressiva.
“Não devemos retirar nada da mesa”, diz o senador Rick Scott, da Flórida. “O mesmo que aconteceu com Maduro deveria ocorrer com Raúl Castro.” A referência é à operação relâmpago realizada em janeiro, quando forças especiais americanas capturam Nicolás Maduro na Venezuela e o levam para Nova York para responder a acusações de narcotráfico e armas.
Pressão máxima, operação cirúrgica ou transição negociada
A história recente alimenta as especulações de que Havana pode ser o próximo alvo de uma operação para captura de um líder latino-americano. Em 1989, a Operação Justa Causa leva milhares de soldados dos EUA ao Panamá para derrubar Manuel Noriega, então homem forte do país, e transferi-lo sob custódia para os EUA. O indiciamento de Castro reacende esse roteiro na imaginação de aliados da Casa Branca.
Especialistas em segurança afirmam que, do ponto de vista militar, uma ação para capturar Raúl Castro é tecnicamente viável, embora arriscada. Aos 94 anos, o ex-presidente vive cercado por camadas de proteção militar e de inteligência. “De certa forma, pode ser mais fácil extraí-lo”, avalia Adam Isacson, analista do Escritório de Washington sobre a América Latina. “Seu valor simbólico significa que ele é fortemente protegido, mas certamente é possível.”
O cálculo político em Havana, porém, é mais complexo. Raúl renuncia à Presidência em 2018, mas mantém influência sobre o Partido Comunista e as Forças Armadas. Mesmo assim, analistas veem a estrutura de poder cubana hoje mais institucionalizada do que personalizada. “Não acho que afetaria muito a estrutura de poder em Cuba. Ele tem 94 anos”, afirma Isacson. “A dinastia Castro tem influência, mas não é fundamental para o que eles construíram.”
O próprio governo americano testa outra via. Em maio, Trump admite manter contato com figuras em Cuba que pedem ajuda externa em meio ao colapso econômico. “Cuba está pedindo ajuda e iremos conversar”, escreve em 12 de maio na rede Truth Social. Dias depois, o diretor da CIA, John Ratcliffe, se reúne com autoridades cubanas, entre elas o neto de Raúl, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o “Caranguejo”, e o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas.
Em público, o secretário de Estado, Marco Rubio, reforça que Washington prefere uma saída negociada. “Iremos colaborar com os cubanos… Afinal, eles precisam tomar uma decisão. Seu sistema simplesmente não funciona”, declara, na Flórida, em 21 de maio. A agenda que circula nos bastidores inclui abertura gradual da economia, estímulo a investimentos estrangeiros e participação de grupos de exilados, em troca de garantias políticas e do afastamento de agências de inteligência russas e chinesas da ilha.
Para o professor Michael Shifter, da Universidade de Georgetown, os EUA buscam repetir em Havana parte da fórmula aplicada na Venezuela, onde Maduro é substituído por Delcy Rodríguez e o núcleo duro do regime permanece. “Da mesma forma que quiseram evitar a instabilidade na Venezuela, eles querem evitar a instabilidade em Cuba”, avalia. “Forçar uma mudança de regime para isso seria muito arriscado.”
Risco de colapso, corrida por barcos e dilema na Flórida
A equação fica ainda mais delicada à medida que a economia cubana se aproxima do colapso. Faltam combustível, remédios e alimentos básicos. Apagões se estendem por horas diárias em diversas províncias, e famílias sobrevivem com algo entre 1.000 e 1.500 calorias por dia, segundo relatos de organizações independentes citados por analistas. As ruas ainda não explodem, mas o descontentamento cresce em silêncio.
Trump aposta publicamente que a pressão econômica, combinada ao desgaste interno, será suficiente para derrubar o atual arranjo de poder. “Não haverá escalada. Acho que não é necessário”, afirma nesta semana. “O lugar está se desfazendo. É um desastre e eles perderam o controle, até certo ponto.” A leitura de especialistas, porém, é menos linear. “Você precisa distinguir a economia cubana do Estado e do governo de Cuba”, observa Shifter. “A economia cubana pode entrar em colapso e está entrando… mas o Estado ainda funciona, especialmente em relação à segurança.”
Nesse cenário, um temor atravessa Washington e Miami: um novo fluxo maciço de migrantes cubanos rumo ao norte, semelhante ao que ocorre hoje no Haiti. A travessia até a Flórida, por 144 quilômetros de mar, é curta, mas letal em barcos improvisados. “Se houver um colapso, você verá uma grande parte da população cubana fazer tudo o que puder para fugir”, projeta Isacson. “A Flórida é o lugar mais próximo, mas eu também esperaria ver algumas pessoas saírem para o México.”
O governo Trump endurece as regras migratórias desde o primeiro mandato e reduz o acesso a asilo político, inclusive para cubanos. Esse cerco cria um dilema: quanto mais o regime é pressionado, maior o risco de uma onda migratória que teste a capacidade de resposta dos EUA e agite a política interna na Flórida, Estado crucial em qualquer eleição presidencial.
O que está em jogo nos próximos meses
O indiciamento de Raúl Castro funciona como peça central de uma estratégia de máxima pressão que combina justiça extraterritorial, sanções econômicas e negociação seletiva com setores do poder cubano. Nos próximos meses, diplomatas e militares tentarão calibrar o quanto essa ofensiva pode enfraquecer o regime sem mergulhar a ilha no caos. Em paralelo, Havana testa até onde consegue resistir à asfixia financeira e às divisões internas.
As possibilidades vão de uma operação cirúrgica para capturar o ex-presidente a uma transição negociada que preserve parte da elite atual, passando por um colapso econômico que desorganize o país e empurre milhares para o mar. O resultado definirá não apenas o futuro de um regime que completa 66 anos, mas também os limites da política de mudança de governo dos Estados Unidos na América Latina. A dúvida, em Washington e em Havana, é se ainda é possível redesenhar o mapa político da ilha sem acender um novo foco de instabilidade regional.
