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EUA e Israel avaliam Ahmadinejad como peça no pós-guerra do Irã

Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irã e símbolo da retórica anti-Israel, entra em cenários de bastidor dos EUA e de Israel como possível líder no pós-guerra. A informação, revelada pelo jornal The New York Times para o contexto de 2026, expõe a aposta em contradições internas do regime iraniano e provoca ceticismo entre analistas.

Da prisão domiciliar ao centro dos planos

O relato do jornal americano descreve um enredo improvável. Em meio à guerra que envolve o Irã e amplia as tensões no Oriente Médio, autoridades dos Estados Unidos e de Israel teriam incluído Ahmadinejad em simulações para o “dia seguinte” do conflito. A ideia seria explorar rupturas dentro da elite de poder iraniana e usar o ex-presidente como catalisador de divisões em Teerã.

Segundo o New York Times, o plano parte de uma combinação pouco usual de atributos. Ahmadinejad governa o país entre 2005 e 2013, conhece o funcionamento da máquina do Estado, fala com camadas populares e, desde que sai do poder, se afasta do líder supremo Ali Khamenei e da poderosa Guarda Revolucionária Islâmica. Esse distanciamento alimenta a hipótese de que ele poderia se apresentar como alternativa ao atual núcleo duro do regime.

O jornal afirma que, no início da atual guerra, forças envolvidas em uma operação clandestina tentam libertar Ahmadinejad da prisão domiciliar. O ataque fracassa, fere o ex-presidente e encerra a tentativa. Depois desse episódio, o paradeiro do iraniano se torna incerto, o que reforça o mistério em torno de seu papel na disputa pelo futuro do país de cerca de 90 milhões de habitantes.

Nem Ahmadinejad nem seus aliados confirmam a versão. O silêncio contrasta com a trajetória de um político que, por anos, faz do microfone a principal arma. Ao comentar a reportagem, o jornal diz na rede X que “confia plenamente” no material e que a apuração envolve autoridades americanas, israelenses e iranianas, além de outras fontes familiarizadas com o tema.

A reação entre especialistas é imediata. Analistas em Washington e em Tel Aviv questionam tanto a lógica estratégica de apostar em Ahmadinejad quanto a viabilidade prática de recolocá-lo no centro do poder iraniano. O professor de ciência política Max Abrahms, da Universidade Northeastern, fala em “grande ceticismo” e lembra o volume de desinformação que acompanha a guerra.

Do discurso incendiário ao personagem útil

A trajetória de Ahmadinejad ajuda a explicar por que o seu nome ainda desperta tanto interesse. Em 2003, ele é eleito prefeito de Teerã e, dois anos depois, chega à presidência com o apoio aparente de Ali Khamenei. A projeção internacional, porém, não vem de políticas econômicas ou sociais, mas de frases que atravessam fronteiras.

Em outubro de 2005, durante a conferência “O mundo sem o sionismo”, em Teerã, Ahmadinejad declara que “um mundo sem a América e o sionismo é possível”. Em seguida, a capital iraniana recebe a Conferência Internacional de Revisão da Visão Global do Holocausto, que reúne negacionistas e gera reação diplomática intensa. Em outra fala, ele afirma que o “regime odiado” de Israel caminha para o colapso e “em breve desaparecerá do mapa”.

O impacto dessas declarações ultrapassa o Irã. Em 2008, Efraim Halevy, ex-chefe do Mossad, chama Ahmadinejad de “o maior presente do Irã para Israel”. Na visão de Halevy e de outros analistas israelenses, o tom agressivo e o negacionismo do Holocausto fortalecem o argumento de que o Irã representa uma ameaça estratégica real.

Aliados do ex-presidente rejeitam essa leitura e dizem que ele apenas mantém uma linha “revolucionária” de confronto com Israel e com o Ocidente. O fato concreto é que sua política externa agrava o isolamento do Irã, aprofunda a crise nuclear e ajuda a justificar sanções internacionais que atingem a economia iraniana ao longo da década de 2000.

Depois de deixar o cargo, em 2013, Ahmadinejad rompe com parte do establishment que o ajudou a chegar ao poder. Entra em choque com Khamenei, critica setores da Guarda Revolucionária e vê o Conselho dos Guardiões barrar suas tentativas de voltar à presidência. Ao mesmo tempo, tenta redesenhar a própria imagem para o público externo, especialmente nas redes sociais.

O ex-presidente passa a publicar mensagens em inglês, comenta a temporada do time de futebol americano da Universidade de Michigan, cita o rapper Tupac Shakur e elogia Donald Trump por “combater a corrupção política nos EUA”. As postagens viram notícia e sugerem uma tentativa de se afastar do estereótipo do líder obcecado por Israel e pelo programa nuclear.

Para Raz Zimmt, diretor do programa sobre Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos em Segurança Nacional de Israel, a oscilação é parte da essência do personagem. “Durante o seu governo, Ahmadinejad foi uma combinação de populismo e oportunismo”, escreve no X. O pesquisador reconhece o esforço de reconstrução de imagem, mas afirma que ele nunca volta a reunir base social consistente.

O que mudaria com Ahmadinejad no tabuleiro

A hipótese de um retorno de Ahmadinejad ao centro da política iraniana mexe com cálculos em Teerã, em Washington e em Jerusalém. Para parte dos estrategistas ocidentais, ele poderia funcionar menos como aliado e mais como estopim, alguém capaz de aprofundar clivagens num sistema que mistura poder religioso, aparato militar e estruturas eleitorais controladas.

Especialistas em segurança em Israel, no entanto, rejeitam a ideia de que essa aposta faça sentido. Danny Citrinowicz, do Instituto de Estudos em Segurança Nacional, escreve que qualquer tentativa de “coroar” Ahmadinejad revela “profunda incompreensão” do funcionamento do regime iraniano. Na visão dele, o ex-presidente não tem base real de poder e não obtém apoio da Guarda Revolucionária, a principal força militar de elite do país.

Yossi Melman, analista veterano de segurança, vai na mesma linha. Em texto publicado no X, afirma que a história é “absurda em vários níveis” e diz que a crença em uma queda rápida do regime, motivada por levantes de minorias e ataques aéreos, mostra que parte do planejamento em Israel e nos EUA “vive em um mundo de fantasia”.

Nos EUA, três especialistas ouvidos pelo serviço em persa da BBC também demonstram descrença. O analista Ilan Berman, do American Foreign Policy Council, considera improvável que Washington e Jerusalém tenham montado um plano robusto com Ahmadinejad no centro. Mesmo que o nome tenha circulado, afirma, dificilmente aparece como primeira opção.

Michael Rubin, do American Enterprise Institute, chama o relato de “fantasioso” e critica o uso extensivo de fontes anônimas pelo New York Times. Ainda assim, reconhece que Ahmadinejad responde a uma questão mal resolvida no Ocidente: como um político com discurso tão radical conseguiu mobilizar parte significativa da sociedade iraniana em meados dos anos 2000.

Dentro do Irã, críticos lembram que o próprio Ahmadinejad constrói alianças e as desfaz com rapidez. Durante seu governo, rotula figuras reformistas de “sediciosas” após os protestos de 2009 contra a eleição contestada. Anos depois, a imprensa local relata tentativas de reconciliação com alguns desses mesmos nomes, inclusive um ex-presidente, em encontros que nunca se concretizam.

Enigma para o futuro do regime iraniano

O episódio descrito pelo New York Times não produz, por enquanto, mudanças visíveis na correlação de forças em Teerã. Não há sinais de que Ahmadinejad reúna hoje apoio suficiente para disputar, com chances reais, o comando de um país em guerra e sob pressão econômica. Tampouco surgem evidências concretas de vínculos dele com serviços de inteligência estrangeiros.

Ainda assim, o simples fato de o seu nome aparecer em cenários de planejamento de EUA e Israel revela a dificuldade em enxergar alternativas na elite iraniana. Também expõe o grau de fragmentação interna de um sistema em que o líder supremo, o aparato militar e os órgãos de segurança disputam espaço com políticos eleitos em eleições controladas.

Se o conflito atual se prolonga ao longo de 2026, cresce a relevância de figuras capazes de dialogar com diferentes segmentos sociais e religiosos, dentro e fora das grandes cidades iranianas. Nesse contexto, a combinação de fama, experiência no poder e distância de Khamenei mantém Ahmadinejad em uma zona cinzenta: influente o suficiente para atrair atenção externa, frágil demais para ser visto como sucessor óbvio.

A incerteza sobre seu paradeiro alimenta teorias e disputas de narrativa. Para uns, ele continua sendo o rosto de um extremismo que isola o Irã e fortalece adversários. Para outros, encarna um populismo capaz de canalizar frustrações de parte da população com a crise econômica, a repressão política e o custo humano da guerra.

O destino político de Ahmadinejad ajuda a iluminar o dilema maior: como será o Irã depois da guerra. Se o regime mantém sua arquitetura atual, ele provavelmente permanece nas margens, como símbolo de um passado incômodo. Se a estrutura balança, sua trajetória errática pode voltar ao centro do debate, nem como herói nem como vilão, mas como sinal das ambiguidades que cercam o futuro da República Islâmica.

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