Ultimas

EUA e Irã negociam memorando para encerrar guerra e reabrir Ormuz

Estados Unidos e Irã negociam, em 2026, um memorando de entendimento que pode traçar o fim da guerra no Oriente Médio e reabrir gradualmente o Estreito de Ormuz. O texto também pretende limitar de forma rígida o programa nuclear iraniano e destravar bilhões de dólares em ativos bloqueados.

Trégua em construção sob pressão militar e econômica

O acordo ainda está “em desenvolvimento”, como admite o secretário de Estado americano, Macron Rubio, que viaja pela Índia e mantém contato diário com negociadores em Doha e em capitais europeias. Ele resume o impasse em público: “Ou teremos um bom acordo ou teremos que lidar com isso de outra forma”, disse nesta segunda-feira (25).

O roteiro em discussão prevê que, assim que o memorando for assinado, os combates parem em todas as frentes, inclusive no Líbano, onde o Hezbollah, apoiado pelo Irã, confronta Israel há meses. Em paralelo, começaria um cronômetro de 60 dias para fechar um acordo final que trate de temas sensíveis, como o desmonte do estoque de mais de 400 quilos de urânio altamente enriquecido em poder de Teerã e o futuro das sanções internacionais.

A Casa Branca trabalha sob a pressão do calendário interno. O presidente Donald Trump enfrenta eleições de meio de mandato ainda este ano, com o preço da gasolina em forte alta e o conflito pressionando o petróleo. Em Teerã, a urgência é econômica: a moeda local se desvaloriza, a inflação dispara e o governo calcula que só a liberação das exportações de petróleo poderia render quase US$ 10 bilhões em 60 dias.

Rubio insiste que há “algo bastante sólido em cima da mesa” em relação à abertura do estreito e a uma “negociação significativa e com prazo determinado sobre questões nucleares”. Um alto funcionário americano disse à CNN que o entendimento atual dá às partes “60 dias para chegarem a um acordo final”.

Disputa pelo controle de Ormuz e pelo urânio iraniano

O Estreito de Ormuz, por onde circula perto de um quinto do petróleo negociado no mundo, aparece no centro da barganha. Trump afirma em redes sociais que a via estratégica será reaberta sob o memorando. Veículos iranianos, alguns ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, respondem que o estreito continuará sob supervisão de Teerã e que o tráfego só voltará ao nível pré-guerra ao longo de 30 dias.

Na versão americana, o memorando funciona como uma espécie de “chave” para a economia iraniana. À medida que o estreito abre para navios petroleiros e cargueiros, o bloqueio a portos e o acesso a ativos em bancos estrangeiros seria afrouxado de forma proporcional. “Sem poeira? Sem dinheiro”, resume um funcionário dos EUA, usando a expressão “poeira nuclear” que Trump costuma empregar para se referir ao urânio altamente enriquecido.

Washington quer garantias explícitas de que o Irã nunca terá uma arma nuclear, que cessará qualquer novo enriquecimento e abrirá mão de todo o estoque de urânio de alta pureza. A forma de descarte, se por envio ao exterior, diluição ou destruição, ficaria para a próxima fase. “Isto é ‘confiar, mas verificar’ ao extremo”, diz a fonte americana.

Teerã fala uma língua diferente em público. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei, reconhece avanços, mas freia qualquer clima de contagem regressiva. “Chegamos a um entendimento sobre grande parte das questões em discussão. Mas dizer que isso significa que um acordo está prestes a ser assinado — ninguém pode afirmar isso”, afirma. A agência semioficial Fars vai além e sustenta que “o Irã não assumiu nenhum compromisso neste acordo em relação à entrega de estoques nucleares, remoção de equipamentos, fechamento de instalações ou mesmo promessa de não construir uma bomba nuclear”.

O governo iraniano amarra a discussão nuclear ao fim da guerra. Autoridades deixam claro que só aceitarão negociar o destino do urânio depois da assinatura de um memorando que declare formalmente o cessar-fogo em todo o Oriente Médio. A estratégia é preservar poder de barganha tanto diante dos EUA quanto de Israel e das monarquias do Golfo.

Sanções, ativos e guerra por influência regional

A economia aparece como outro eixo da negociação. O Irã exige a liberação imediata de uma parcela de seus ativos bloqueados no exterior, estimados em dezenas de bilhões de dólares, já na primeira etapa do acordo. A agência Tasnim relata, citando uma “fonte informada”, que sem esse pagamento inicial “não haverá acordo”. Para Washington, o desbloqueio só virá depois da reabertura efetiva de Ormuz, e o formato de devolução do dinheiro ainda não está definido.

As sanções sobre petróleo, bancos e setores estratégicos permanecem como instrumento de pressão. Baghaei admite que “a suspensão das sanções não será discutida neste curto prazo”, embora, segundo ele, a exigência iraniana de suspensão total esteja “explicitamente no texto”. A mensagem americana é oposta: sanções só começam a cair quando o estreito estiver “aberto e funcionando plenamente”, de acordo com um funcionário ouvido pela CNN.

O memorando também tenta alcançar frentes onde não há diálogo direto. A agência Tasnim afirma que o rascunho menciona “a declaração do fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Baghaei ecoa a formulação e diz que esse será “um dos elementos de um possível entendimento”. Israel reage com a própria linha vermelha. Em telefonema no sábado, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diz a Trump que o país manterá “a liberdade de ação contra ameaças em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Segundo um funcionário israelense, o presidente americano “reiterou seu apoio a esse princípio”.

O arsenal de mísseis balísticos iranianos, que os EUA queriam destruir no início do conflito, hoje aparece mais nas entrelinhas. Aliados árabes de Washington e o governo israelense veem esse ponto como urgente, mas ele ainda não ocupa o centro dos rascunhos. Trump, por sua vez, volta a citar o programa nuclear como justificativa para os ataques do ano passado e fala em uma suspensão do enriquecimento por 20 anos como horizonte aceitável.

Roteiro incerto, impacto global imediato

Mesmo sem texto final, o mercado financeiro reage à simples perspectiva de uma rota de saída para a guerra. Cotações de petróleo recuam em relação aos picos dos últimos meses, investidores ajustam apostas em empresas de energia e governos importadores veem margem para aliviar políticas de subsídio ao combustível. A reabertura de Ormuz, ainda que gradual em 30 ou 60 dias, tende a estabilizar o fluxo de navios e reduzir o risco de novos choques de oferta.

Na prática, um memorando robusto redistribui forças na região. O Irã ganha fôlego econômico se ativos forem liberados e sanções começarem a ser desmontadas. Os EUA aliviam a pressão doméstica sobre Trump e tentam evitar uma escalada militar mais ampla, especialmente com eleições à vista. Israel e monarquias do Golfo monitoram cada vírgula do texto em busca de garantias de que Teerã não converterá ganhos econômicos em expansão militar.

Ainda há armadilhas em cada etapa. O Irã insiste que a gestão de Ormuz “não tem nada a ver com os Estados Unidos” e será coordenada com Omã, enquanto Trump escreve que “o bloqueio permanecerá em pleno vigor até que um acordo seja alcançado, certificado e assinado”. Entre essas posições, negociadores tentam costurar mecanismos de verificação e cronogramas de liberação de recursos que sejam politicamente vendáveis em Washington e em Teerã.

No discurso público, cada lado fala para sua base interna. Trump promete um acordo “bom e adequado, não como aquele feito por Obama” e diz que o pacto anterior deu ao Irã “um caminho claro e aberto para uma arma nuclear”. Autoridades iranianas repetem que buscam apenas “um acordo justo e equilibrado”, nas palavras de uma fonte à CNN, e que o objetivo central é “que a guerra termine de vez em todo o Oriente Médio”.

A negociação de 2026 pode redefinir a arquitetura de segurança da região pelas próximas décadas. O memorando, se sair, abre uma janela curta de 60 dias para um compromisso mais amplo sobre armas, petróleo e influência. A dúvida, agora, é se os dois governos conseguem transformar esse esboço frágil em um acordo capaz de resistir à pressão das ruas, dos aliados e dos inimigos de ambos os lados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *