EUA e Irã fecham acordo para prorrogar cessar-fogo por 60 dias
Estados Unidos e Irã chegam, nesta quinta-feira (28), em Washington, a um acordo para estender por 60 dias o cessar-fogo no Oriente Médio. O entendimento, firmado em um memorando que aguarda apenas a assinatura final do presidente Donald Trump, abre caminho para uma nova rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Trégua como ponto de partida
O documento, costurado ao longo das últimas semanas por diplomatas dos dois países, busca preservar uma trégua frágil em uma das regiões mais instáveis do planeta. A proposta prevê a suspensão de novos ataques militares diretos entre EUA e forças ligadas a Teerã por um período inicial de 60 dias, contados a partir da confirmação presidencial.
O cessar-fogo tem um objetivo definido: criar um corredor político para discutir limites e mecanismos de fiscalização do programa nuclear iraniano. Washington tenta, com o texto, recuperar algum controle sobre um dossiê que volta a preocupar capitais ocidentais desde 2025, quando relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica apontam para aumento na capacidade de enriquecimento de urânio do Irã.
Negociadores descrevem o memorando como um “acordo guarda-chuva”, que ainda depende de anexos técnicos. Esses anexos tratam de acesso de inspetores a instalações sensíveis e de um cronograma de conversas, previstas para começar já nos primeiros 15 dias de vigência da trégua. A expectativa é realizar ao menos três rodadas formais em 60 dias, duas em Genebra e uma em Viena, sede da agência nuclear da ONU.
Em Washington, assessores veem na extensão do cessar-fogo uma rara convergência entre adversários que voltam a falar diretamente, ainda que por canais limitados. “Não se trata de confiança, mas de necessidade mútua”, afirma, sob condição de anonimato, um funcionário ligado às negociações. Segundo ele, o cálculo é simples: cada semana sem ataques reduz o risco de uma escalada regional difícil de controlar.
Pressão internacional e disputa regional
A movimentação ocorre em meio à pressão de aliados europeus, que cobram do governo Trump um sinal concreto de compromisso com a estabilidade regional. Países como Alemanha e França defendem, nos bastidores, uma espécie de “congelamento” das hostilidades por ao menos dois meses, tempo considerado mínimo para se medir a disposição de Teerã em negociar limites mais rígidos para seu programa atômico.
O Irã, por sua vez, tenta transformar o cessar-fogo em argumento político interno. Correntes mais pragmáticas do regime apresentam a trégua como uma chance de aliviar sanções econômicas que atingem setores estratégicos, como petróleo e gás, responsáveis por parcela relevante da receita do país. Interlocutores próximos ao governo iraniano dizem que a prioridade é obter garantias de que eventuais concessões nucleares serão acompanhadas de algum alívio gradual nas punições comerciais.
Especialistas lembram que cessar-fogos anteriores na região naufragam em poucas semanas, vítimas de ataques pontuais ou da ação de grupos que rejeitam qualquer aproximação. “Sessenta dias não resolvem décadas de desconfiança, mas criam uma janela rara”, avalia um pesquisador de relações internacionais ouvido pela reportagem. Para ele, o impacto imediato é a redução do risco de erro de cálculo militar, como bombardeios mal interpretados que possam arrastar outros países para o conflito.
Nas capitais vizinhas, a leitura é pragmática. Monarquias do Golfo observam com cautela a reaproximação entre Washington e Teerã, temendo perder espaço na balança de poder regional. Ao mesmo tempo, enxergam na trégua uma oportunidade para diminuir a pressão sobre rotas estratégicas de comércio, como o estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial transportado por mar.
O histórico das negociações nucleares pesa sobre cada linha do novo memorando. Em 2015, o acordo conhecido pela sigla JCPOA estabelece limites claros para o programa iraniano, em troca da suspensão de sanções. Três anos depois, em 2018, Trump retira os EUA do pacto, reacende o confronto político e abre espaço para que Teerã retome parte das atividades mais sensíveis. Desde então, a região vive ciclos de tensão, com períodos breves de calma interrompidos por ataques e retaliações.
O que muda na prática
A extensão do cessar-fogo, se confirmada, não encerra confrontos em toda a região, mas reduz a margem para choques diretos entre forças ligadas a Washington e a Teerã. Com menos risco de ataques cruzados, governos locais avaliam que podem redirecionar parte de seus orçamentos militares para frentes internas, como reconstrução de infraestrutura e combate à inflação, que passa de dois dígitos em alguns países árabes desde 2024.
Mercados de energia já reagem à notícia de forma cautelosa. Analistas projetam que, mantida a trégua por 60 dias, o preço do barril de petróleo pode recuar alguns dólares em relação aos picos recentes, refletindo menor probabilidade de interrupção abrupta de fornecimento. Empresas de transporte marítimo e seguradoras, que elevam prêmios na região a cada episódio de tensão, acompanham o desfecho em Washington para recalibrar contratos.
Em termos diplomáticos, o memorando devolve aos EUA parte do protagonismo perdido após a saída unilateral do acordo de 2015. Ao se colocar novamente à mesa com Teerã, Washington tenta mostrar a aliados e rivais que ainda é capaz de liderar soluções negociadas, e não apenas impor sanções ou ações militares. O Irã, por outro lado, ganha tempo para reorganizar sua economia e medir até onde pode ir sem provocar nova reação em cadeia.
Nem todos veem benefícios imediatos. Setores mais duros em Washington criticam qualquer gesto interpretado como concessão a Teerã e pressionam Trump a condicionar a trégua a compromissos públicos, detalhados e verificáveis. Em Teerã, alas conservadoras temem que conversas diretas com os EUA sejam apresentadas como sinal de fragilidade interna. “O cessar-fogo é uma pausa, não uma rendição”, resume um analista iraniano, em conversa por telefone.
Assinatura pendente e cenário em aberto
O texto segue agora para a mesa de Donald Trump, que precisa chancelar formalmente o memorando para que a extensão de 60 dias entre em vigor. Assessores falam em uma decisão “imediata”, mas não cravam data. A avaliação da Casa Branca leva em conta não apenas o cálculo de segurança nacional, mas também o impacto político interno, em ano de intensa polarização nos Estados Unidos.
Diplomatas envolvidos nas conversas defendem que a assinatura ocorra ainda em maio, para evitar que incidentes no terreno inviabilizem a trégua antes mesmo de seu início. O relógio corre contra os negociadores, que veem em cada novo dia sem confirmação um risco adicional. A pergunta que se impõe em Washington, Teerã e nas capitais aliadas é simples e decisiva: a oportunidade aberta por 60 dias de silêncio relativo será suficiente para redesenhar a segurança no Oriente Médio ou será apenas mais um intervalo breve em uma história de confrontos recorrentes?
