EUA e Irã discutem memorando para encerrar guerra e reabrir Ormuz
Estados Unidos e Irã negociam, nesta segunda-feira (25), um memorando de entendimento para encerrar o conflito no Oriente Médio e reabrir gradualmente o Estreito de Ormuz. O texto também prevê um cronograma para novas negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Roteiro em disputa para fim da guerra
O secretário de Estado americano, Macron Rubio, descreve o documento como um “roteiro” para resolver todas as pendências entre Washington e Teerã. Ele evita falar em acerto fechado e insiste que o memorando ainda está “em desenvolvimento”. Em visita à Índia, nesta segunda-feira (25), Rubio resume a lógica das conversas: “Ou teremos um bom acordo ou teremos que lidar com isso de outra forma”.
O plano em discussão estabelece um cessar-fogo imediato assim que o texto for assinado e dá início a um processo de 60 dias de negociações intensivas. Nessa janela, Estados Unidos e Irã precisam detalhar limites ao programa nuclear iraniano, condições para a liberação de ativos financeiros bloqueados e regras para a reabertura completa do Estreito de Ormuz, por onde passa parte central do petróleo exportado para o mundo.
O presidente Donald Trump tenta capitalizar politicamente o possível entendimento em meio à pressão de eleições de meio de mandato ainda este ano e à alta dos preços da gasolina nos EUA. Para a Casa Branca, um acordo que reduza o risco de guerra aberta e alivie o choque no mercado de energia pode ajudar a conter a insatisfação doméstica com a economia. Para Teerã, sufocado por sanções e bloqueio a portos, o memorando representa uma chance de aliviar uma crise que já corrói o cotidiano da população.
Apesar do discurso de otimismo cuidadoso em Washington, a visão iraniana é mais cautelosa. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei, admite avanços, mas rejeita a ideia de que a assinatura seja iminente. “Chegamos a um entendimento sobre grande parte das questões em discussão. Mas dizer que isso significa que um acordo está prestes a ser assinado — ninguém pode afirmar isso”, afirma.
Estreito de Ormuz no centro da barganha
O Estreito de Ormuz, corredor por onde circulam, em tempos de normalidade, cerca de um quinto do petróleo comercializado por mar, se torna a principal moeda de troca. O memorando prevê reabertura gradual da rota e um sistema de alívio, também gradual, do bloqueio imposto pelos EUA aos portos iranianos. Um alto funcionário do governo americano, ouvido pela CNN no domingo (25), resume a equação: “Sem poeira? Sem dinheiro. À medida que o Estreito se abre, o bloqueio é afrouxado proporcionalmente”. “Poeira”, no jargão usado por Trump, é o urânio altamente enriquecido estocado pelo Irã.
Trump escreve nas redes sociais, no sábado à noite, que o estreito será reaberto sob o memorando. A narrativa iraniana difere. Veículos alinhados à Guarda Revolucionária informam que a passagem permanecerá sob supervisão de Teerã, com retorno do tráfego a níveis pré-guerra em até 30 dias. Uma fonte iraniana diz à CNN que “o estreito já está aberto, mas a coordenação com as autoridades iranianas competentes deve ocorrer para garantir a segurança da travessia”.
Na prática, o Irã sinaliza que aceita restabelecer o fluxo comercial, mas quer manter controle maior sobre a rota marítima do que tinha antes do conflito. Baghaei afirma que Teerã não busca cobrar pedágios, mas ressalta que oferece “serviços de navegação” e medidas para proteger o meio ambiente na região. O governo iraniano insiste ainda que a gestão do estreito será coordenada com Omã, não com Washington, por meio de um “mecanismo para garantir a passagem segura de navios”.
Washington vincula qualquer alívio econômico a passos concretos de reabertura de Ormuz. Um alto funcionário americano afirma que ativos iranianos bloqueados no exterior só serão liberados depois que o estreito estiver novamente operando plenamente. Teerã, por sua vez, considera essa condição insuficiente e exige a liberação imediata de uma parcela específica dos recursos, estimados em bilhões de dólares espalhados por bancos estrangeiros.
Núcleo nuclear e sanções ainda sem solução
O tema nuclear segue como o ponto mais sensível do desenho em discussão. Segundo uma fonte ouvida pela CNN, o acordo-quadro dá às partes 60 dias para chegar a um texto final que garanta que o Irã jamais possa possuir uma arma nuclear. O país teria de abrir mão de mais de 400 quilos de urânio altamente enriquecido e suspender qualquer novo enriquecimento em níveis elevados. O destino desse estoque, parte dele escondida em instalações subterrâneas após ataques americanos no ano passado, ficaria para uma segunda fase de negociações.
Trump repete em público que, “de uma forma ou de outra”, o Irã terá de se desfazer do material. Ele insiste que o novo entendimento não pode “repetir o erro” do acordo firmado no governo Barack Obama, que, na visão do republicano, ofereceu a Teerã “um caminho claro e aberto para uma arma nuclear”. O presidente admite que aceitaria uma suspensão do enriquecimento por 20 anos, mas não detalha como verificaria esse compromisso.
Teerã responde com sua própria linha vermelha. Autoridades iranianas afirmam que não aceitam iniciar qualquer negociação sobre o urânio antes da conclusão de um memorando que ponha fim à guerra. A agência semioficial Fars chega a publicar que “o Irã não assumiu nenhum compromisso neste acordo em relação à entrega de estoques nucleares, remoção de equipamentos, fechamento de instalações ou mesmo promessa de não construir uma bomba nuclear”.
As sanções internacionais compõem o segundo eixo crítico. O Irã exige a suspensão de todas as restrições, em especial sobre o petróleo. Baghaei diz que a remoção das sanções ao setor poderia gerar quase US$ 10 bilhões em receita em apenas 60 dias. Ainda assim, admite que “a suspensão das sanções não será discutida neste curto prazo”, embora a exigência de seu fim esteja “explicitamente no texto”. Nos bastidores, diplomatas veem pouco espaço para um acordo amplo nessa frente antes da consolidação do cessar-fogo.
Disputa de influência regional e próximos passos
O conflito não se limita às fronteiras iranianas. Israel e o Hezbollah, apoiado por Teerã, travam uma guerra de baixa intensidade no Líbano, que também entra no radar do possível memorando. A agência iraniana Tasnim afirma que o texto em elaboração fala em “declaração do fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Baghaei reforça: “O fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, será um dos elementos de um possível entendimento”.
Trump, porém, indica outra direção ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Em ligação no sábado à noite, o presidente americano afirma apoiar o desejo de Israel de “manter a liberdade de ação contra ameaças em todas as frentes, incluindo o Líbano”, segundo relato de um funcionário israelense. A frase expõe um dos nós centrais da negociação: como conciliar a promessa de “fim da guerra em todas as frentes” com a intenção declarada de Israel de continuar atacando alvos ligados ao Irã na região.
Os próximos dias testam a disposição real de Washington e Teerã de transformar um rascunho frágil em compromisso político duradouro. A economia iraniana, afetada por anos de sanções americanas e europeias, depende da reabertura de Ormuz e do desbloqueio de ativos para ganhar fôlego. Já os Estados Unidos tentam equilibrar o discurso de linha dura com a necessidade de estabilizar o mercado de energia e reduzir o risco de uma escalada militar que arraste aliados árabes e Israel.
Um acordo que combine reabertura do Estreito de Ormuz, limitações verificáveis ao programa nuclear iraniano e cronograma claro para aliviar sanções teria impacto imediato sobre o preço do petróleo, a confiança dos investidores e o cálculo estratégico de potências como China e Rússia. A distância entre esse cenário e o texto ainda em disputa, porém, permanece grande. A própria fonte iraniana ouvida pela CNN resume a encruzilhada: o país está pronto para um “acordo justo e equilibrado”, mas só aceita esse caminho se ele significar, de fato, o “fim da guerra de vez em todo o Oriente Médio”.
