Ciencia e Tecnologia

Estudo revela mistura química que transforma pessoas em ímã para mosquitos

Um grupo internacional de entomologistas detalha, em estudo divulgado nesta terça-feira (16) em Paris, por que algumas pessoas atraem muito mais mosquitos que outras. A resposta está numa combinação precisa de odores corporais, calor e dióxido de carbono, moldada pela microbiota da pele e até pelo consumo de álcool. A descoberta reforça estratégias de prevenção contra doenças como dengue, malária e zika.

Do hálito ao suor: a química que guia a picada

Os pesquisadores partem de um dado pouco conhecido fora dos laboratórios: existem pouco mais de 3.500 espécies de mosquitos no mundo, mas cerca de 100 picam humanos e apenas uma faixa de seis espécies responde pela maior parte das doenças transmitidas à população. Nesse universo restrito, pequenas diferenças no cheiro de uma pessoa mudam todo o comportamento do inseto.

As fêmeas, únicas responsáveis pelas picadas, rastreiam suas vítimas com sensores finos. Primeiro percebem, a dezenas de metros de distância, o dióxido de carbono que sai na respiração. “Sabemos há mais de cem anos que os mosquitos se sentem atraídos pelo dióxido de carbono que exalamos: é o primeiro sinal que desencadeia seu comportamento”, afirma à AFP o sueco Rickard Ignell, autor de um dos estudos citados na pesquisa.

Quando se aproximam a cerca de dez metros, outros sinais entram em cena. O cheiro da pele, a umidade, o calor emitido pelo corpo e compostos dispersos pelo suor funcionam como um mapa químico em três dimensões. É nesse ponto que as diferenças individuais pesam. “Não é um mito: não somos todos iguais diante do apetite dos mosquitos. Mas também não somos ímãs o tempo todo”, diz Frédéric Simard, diretor de estudos do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), no sudeste da França.

Os humanos liberam, segundo levantamentos recentes, entre 300 e 1.000 compostos odoríferos. A maioria passa despercebida ao olfato humano, mas não aos receptores dos mosquitos. A equipe de Ignell identifica 27 moléculas que o Aedes aegypti, vetor da dengue e da febre amarela, consegue detectar com clareza. A forma como essas substâncias se combinam em cada indivíduo define o quanto ele se torna atrativo.

Um ponto decisivo está na microbiota da pele, o conjunto de bactérias e fungos que vivem sobre o corpo. Esses microrganismos transformam o sebo e o suor em moléculas voláteis que sobem no ar. “Um fator fundamental de atração é, sem dúvida, o cheiro, uma mistura de moléculas produzida por nossa microbiota e mais ou menos atrativa para os mosquitos”, resume Simard. Pequenas variações nas espécies de bactérias, influenciadas por genética, clima e hábitos de higiene, alteram drasticamente esse perfume invisível.

Gravidez, álcool e o avanço dos vetores

Para entender como essa química se traduz em risco, os cientistas analisam, em laboratório, a reação de mosquitos Aedes aegypti diante do odor de 42 mulheres. A experiência mostra que algumas delas funcionam como iscas naturais. As mais visadas produzem doses sutilmente maiores de um composto chamado 1-octen-3-ol, conhecido como álcool de fungo, gerado pela degradação do sebo na pele.

Ignell destaca um grupo específico: gestantes no segundo trimestre. “As mulheres mais atrativas para os mosquitos, especialmente aquelas no segundo trimestre de gravidez, produziam um pouco mais de um composto derivado da degradação do sebo”, relata. A diferença é pequena, mas suficiente para alterar a trajetória dos insetos. A sensibilidade extrema dos receptores olfativos faz com que variações mínimas se convertam em enxames sobre certos corpos.

O estudo também revisa pesquisas de campo que avaliam o papel do álcool. Em Burkina Faso, voluntários bebem uma cerveja local em um dia e, em outro, apenas água, nas mesmas quantidades. O Anopheles, principal vetor da malária na África, mostra preferência clara pelos odores de quem ingeriu a bebida alcoólica. A hipótese dos cientistas combina três fatores: aumento da temperatura corporal, maior emissão de CO2 e mudança do odor da pele.

Crenças populares perdem espaço nessa equação. Diferenças entre tipos de sangue, cor da pele, dos olhos ou dos cabelos não recebem respaldo sólido nos dados disponíveis. Estudos que sugerem essa relação reúnem poucas pessoas e não se replicam em larga escala. O foco da comunidade científica migra para a mistura real que chega ao ar, resultado de metabolismo, microbiota e hábitos diários.

O interesse por essas respostas cresce à medida que os mosquitos avançam sobre novas regiões. O mosquito-tigre, Aedes albopictus, que há poucas décadas se concentrava em partes da Ásia, hoje se espalha pela Europa graças ao aquecimento global, à urbanização desordenada e ao comércio internacional. “O risco afeta cada vez mais pessoas e também mais países onde há dinheiro para se proteger, o que gera financiamento e resultados de pesquisas”, avalia Simard.

Proteção, desinformação e a próxima geração de repelentes

As conclusões do trabalho têm efeito direto sobre políticas de saúde pública. Em regiões onde dengue, malária, zika, chikungunya, febre amarela e vírus do Nilo Ocidental circulam ao mesmo tempo, entender quem atrai mais mosquitos ajuda a definir campanhas específicas. Gestantes em áreas de zika, por exemplo, exigem redes de proteção reforçadas, acesso facilitado a repelentes e triagem constante em serviços de pré-natal.

Na rotina doméstica, a mensagem dos pesquisadores é menos alarmista e mais pragmática. Roupas compridas e folgadas, mosquiteiros bem instalados, telas em portas e janelas e repelentes aprovados por agências reguladoras continuam como a linha de frente. “Quando os mosquitos estão rondando, é recomendável se proteger das picadas com roupas compridas e folgadas, mosquiteiros ou repelentes. E procure comer de forma leve e consumir álcool com moderação”, aconselha Simard.

A nova cartografia química do corpo humano abre espaço para inovações comerciais. Empresas já estudam fórmulas que imitam odores pouco atraentes aos mosquitos, com a intenção de criar uma espécie de capa olfativa protetora. Outras buscam substâncias que confundem os receptores dos insetos, desligando por alguns minutos a capacidade de localizar uma vítima em meio à escuridão.

O estudo, publicado em 16 de junho de 2026, consolida duas frentes de pesquisa que por muito tempo caminham em paralelo: a neurobiologia dos mosquitos e a ecologia da microbiota humana. Ao conectar esses campos, os cientistas sugerem caminhos para repelentes mais específicos e menos tóxicos, pensados para perfis de risco distintos.

Ainda falta transformar essa ciência em produtos acessíveis para populações que hoje carregam a maior carga de doenças transmitidas por mosquitos, sobretudo na África, na América Latina e no Sudeste Asiático. Enquanto a indústria decide se investe em soluções personalizadas ou em barreiras coletivas de baixo custo, a pergunta que impulsiona os laboratórios permanece simples e urgente: como enganar um inseto que aprendeu, ao longo de milhões de anos, a nos encontrar no escuro com uma única respiração?

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