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Erro em corda de rope jump leva à morte e expõe falhas em segurança

A morte de Adam Cardoso, 25, em um salto de rope jump em Minas Gerais em 2020, nasce de um cálculo errado de corda. Quase quatro anos depois, o pai ainda tenta transformar a dor em justiça e mudanças nas regras de esportes radicais no país.

Um salto que não termina em volta

Adam busca adrenalina em um fim de semana comum quando decide saltar de rope jump, modalidade em que o praticante salta de grandes alturas preso por uma corda de segurança. O que deveria ser um salto controlado, com freio antes do impacto, termina em queda fatal. O erro está na conta que define o tamanho da corda e o ponto exato em que o corpo precisa ser desacelerado.

O cálculo equivocado não deixa margem para correção em pleno ar. Adam atinge o solo com violência e morre ainda no local, diante de amigos e organizadores. O cenário se fecha em poucos segundos, mas abre uma disputa longa na Justiça e uma batalha pessoal do pai, que desde 2020 tenta responsabilizar quem, segundo laudos e testemunhos, falha na etapa mais básica da segurança: medir e testar a corda.

Segurança frouxa em um mercado em expansão

O caso entra nos tribunais como mais um episódio em que a combinação de improviso, falta de fiscalização e lucro rápido atropela protocolos técnicos. Esportes radicais movimentam milhões de reais por ano no Brasil, de voos de parapente a bungee jump, mas operam em boa parte em um limbo regulatório. Em muitos estados, empresas abertas como prestadoras de serviço de turismo funcionam sem certificação específica para atividades de alto risco.

No processo sobre a morte de Adam, o réu é condenado ao pagamento de uma indenização considerada baixa pela família e não é preso. A decisão, que prevê valores muito aquém de R$ 500 mil, é recebida como uma punição simbólica diante da perda definitiva do filho. “Meu filho não volta, mas quem erra tem de responder de verdade. Uma multa pequena não impede que isso aconteça de novo”, desabafa o pai, em relato à reportagem.

Especialistas em segurança em esportes de aventura defendem regras nacionais claras. Hoje, normas técnicas existem, mas são tratadas como recomendações, não como obrigação legal. “Quando a técnica é opcional, a tragédia vira estatística, não exceção”, afirma um engenheiro consultado por associações de praticantes. O acidente de 2020 se soma a outros episódios recentes em paredões, pontes e barragens usadas para saltos, muitos deles sem registro oficial.

Justiça lenta, punição branda e pressão por mudança

A resposta institucional ao caso de Adam ilustra um padrão. Processos criminais demoram anos, calibrações erradas de equipamentos são tratadas como falhas pontuais e não como negligência sistemática. As famílias lidam com custos emocionais e financeiros elevados, enquanto os responsáveis seguem em atividade ou reabrem empresas com outro CNPJ, contornando sanções administrativas. Sem prisão e com indenizações reduzidas, o recado que chega ao mercado é de que o risco jurídico é baixo.

O pai de Adam se converte em porta-voz involuntário desse debate. Ele participa de audiências públicas, conversa com parlamentares estaduais e pressiona por projetos que criem um cadastro nacional obrigatório de operadores de esportes radicais, com exigência de certificação, seguro e inspeções periódicas. A proposta, em discussão preliminar em diferentes assembleias, inclui multas progressivas e possibilidade de interdição imediata em caso de irregularidades graves.

Entidades de turismo defendem equilíbrio para não sufocar pequenos empreendedores, mas admitem que a fronteira entre aventura e temeridade está borrada. A discussão envolve seguro obrigatório para clientes, registro de equipamentos, treinamento comprovado de instrutores e responsabilidade solidária de organizadores e donos de áreas usadas para saltos. O objetivo é reduzir a margem para improvisos como o que mata Adam em 2020.

Legado de uma morte evitável

O efeito prático da tragédia já aparece em grupos de praticantes, que se organizam em redes sociais para compartilhar listas de empresas confiáveis e exigir certificados antes de contratar saltos. Em alguns municípios turísticos de Minas Gerais e de outros estados, prefeitos iniciam discussões para exigir licenças específicas para atividades como rope jump, tirolesa e rapel comercial. Não há, porém, um padrão nacional que assegure o mesmo nível de rigor em todas as regiões.

A família de Adam insiste para que o caso não seja tratado como fatalidade. “Fatal é raio, enchente. Quando alguém erra a corda, é escolha, é descuido”, diz o pai. A frase ecoa entre advogados, ativistas de segurança e legisladores que veem na morte do jovem um ponto de inflexão para o setor. O desfecho do processo e a eventual adoção de novas leis vão mostrar se o país aprende com a queda de 2020 ou se novos pais precisarão repetir a mesma peregrinação em busca de justiça.

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