Endrick diz que não quer filho no futebol e expõe bastidores da pressão
Endrick, atacante do Lyon emprestado pelo Real Madrid, revela em entrevista divulgada nesta quinta-feira (30) que não quer ver o futuro filho seguir carreira no futebol. O jogador de 20 anos descreve o ambiente do esporte como “muito duro” e afirma que prefere vê-lo em outra profissão, como medicina ou advocacia.
Do auge precoce à recusa em “glamourizar” o esporte
A declaração rompe o roteiro tradicional de jovens estrelas do futebol. No momento em que tenta consolidar espaço no Lyon e garantir vaga na Copa do Mundo de 2026, Endrick escolhe expor as fissuras por trás da imagem de promissor atacante brasileiro na Europa. Em conversa publicada pelo UOL, com trechos também ao jornal britânico Guardian, ele conta que o futebol cobra um preço emocional que não quer ver um filho pagar.
Ao lado da esposa, a influenciadora digital Gabriely Miranda, o atacante espera um menino. O nascimento está previsto para os próximos meses de 2026. Antes mesmo de o bebê chegar, Endrick já traça uma fronteira clara entre o sonho que o projetou e o futuro que deseja para a criança. “Por acreditar que o futebol não é um ambiente agradável”, resume, ele não pensa em repetir essa trajetória dentro de casa.
A recusa vem de experiência própria. Lançado muito cedo ao profissional, levado ao Real Madrid ainda adolescente e hoje emprestado ao Lyon, Endrick acumula elogios, críticas ferozes e um histórico recente de lesão. “É um ambiente muito duro. Espero que ele ou ela se torne advogado, médico ou qualquer outra coisa, e possa ser feliz no seu próprio mundo”, afirma o atacante.
A fala confronta a ideia de que o futebol europeu é automaticamente um prêmio. Em vez de reforçar o sonho de milhares de famílias brasileiras, o atacante descreve o caminho como um corredor de pressão constante, onde uma partida ruim pode virar combustível para ataques em massa nas redes sociais e dúvidas sobre o próprio futuro.
Noite de dúvidas, pênalti sofrido e uma vaga em jogo
O incômodo com o ambiente não impede Endrick de buscar espaço em alto nível. Dias antes de se consolidar como destaque no amistoso da seleção brasileira contra a Croácia, ele vive o que chama de “noite de dúvidas”. A partida, disputada às vésperas da convocação final de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026, ganha peso de decisão para o jovem atacante.
Endrick entra no segundo tempo, em um jogo tenso, e muda o roteiro em 14 minutos. Sofre um pênalti, participa da construção ofensiva e entrega uma assistência. “Rezei muito. Eu sabia que aquele dia poderia ser um ponto de virada para mim. Joguei bem, uma das minhas melhores atuações”, relata. A sensação, conta, era de que talvez fosse a última chance de convencer a comissão técnica.
Ele admite que chega ao gramado carregando um senso de urgência raro, mesmo para padrões de seleção brasileira. “Consegui afastar aqueles pensamentos negativos, aquela sensação de urgência, aquela pressão para jogar bem, de que poderia ser minha última chance”, diz. O desempenho alimenta a esperança de estar na lista final de 26 nomes para o Mundial, mas não reduz o diagnóstico duro sobre o cotidiano do futebol profissional.
Os bastidores desse processo incluem um afastamento deliberado das redes sociais. “Eu já não presto mais atenção ao que os outros dizem. Quando você tira tudo isso da sua vida, as coisas ficam mais fáceis”, afirma. Ele lembra uma fase em que deixava o campo e ia diretamente ao Twitter, hoje X, para acompanhar comentários sobre sua atuação.
“Quando comecei, eu lidava muito mal com as redes sociais e com as críticas. Eu saía de campo e ia direto para as redes sociais, ver o que estavam falando de mim. Eu queria alimentar meu ego. Mas isso não é algo bom. Graças a Deus essa fase passou”, diz. Hoje, após cada jogo, o ritual é outro: recuperação física, descanso e afastamento planejado da enxurrada de opiniões digitais.
Lesão, choro em silêncio e o futuro em aberto
A visão crítica de Endrick sobre o ambiente do futebol ganha contornos mais nítidos quando ele fala da lesão que o tirou de campo no Real Madrid. Na primeira metade da temporada 2025/26, o atacante entra em campo apenas três vezes pelo clube espanhol. Uma contusão muscular o afasta por semanas, o deixa fora da rotação de Carlo Ancelotti e acelera a negociação de empréstimo ao Lyon até meados de 2026.
“Tive uma lesão complicada e perdi muito tempo. Quando você se machuca, perde tudo. Perde a chance de brigar por um lugar. São coisas que estão fora do meu controle”, relata. Entre sessões de fisioterapia e treinos solitários, Endrick diz que o período é marcado por medo e choro longe das câmeras.
“Eu tive muito medo. Chorei várias vezes. Isso é algo que você faz no privado. Eu não sabia como lidar com a minha lesão, o que esperar”, afirma. Ele descreve a insegurança típica de quem vive do próprio corpo. “Você não sabe se vai ter uma recaída, se vai manter sua força, se vai voltar mais fraco. Isso te afeta muito. Você fica com medo do futuro.”
O futuro imediato também não está definido. O contrato de empréstimo com o Lyon termina no meio de 2026, e não há decisão pública sobre o retorno ao Real Madrid ou uma permanência na França. Enquanto tenta acumular minutos e gols em Lyon, o atacante faz contas silenciosas: uma boa sequência pode significar protagonismo, nova transferência ou mais espaço no clube espanhol; outra lesão, admite, o obrigaria a recomeçar todo o processo de reabilitação.
A fala sobre o filho, nesse contexto, funciona como síntese de tudo o que o jogador vive desde que deixou o Brasil. Endrick não renega a carreira, nem o impacto financeiro que o futebol teve na sua vida e na da família. Mas aponta o custo psicológico, invisível para quem vê apenas os lances em vídeo e o valor das transferências.
Debate sobre saúde mental e pressão no futebol de elite
O desabafo encontra um ambiente diferente do de gerações anteriores. Em 2026, clubes europeus e brasileiros investem mais em psicologia esportiva, mas o suporte ainda é desigual, principalmente nas categorias de base. A fala de um jogador de 20 anos que já passou por Real Madrid e seleção brasileira tende a alimentar discussões em comissões técnicas, famílias e empresários sobre a forma como o talento é administrado.
Ao recusar a ideia de que o filho precise repetir a trajetória do pai, Endrick expõe a assimetria entre glamour e desgaste. Em um mercado que movimenta bilhões de euros por temporada, jovens atletas lidam, muitas vezes sozinhos, com julgamentos diários em redes sociais, programas esportivos e arquibancadas. A decisão declarada pelo atacante pode pressionar clubes a oferecer acompanhamento psicológico mais robusto e preparar melhor jogadores para a exposição pública precoce.
Outros atletas brasileiros e estrangeiros relatam quadros de ansiedade, depressão e insônia ligados à performance. A cada temporada, casos de afastamento por questões emocionais ganham espaço em entrevistas e documentários, mas ainda são minoritários na comunicação oficial de clubes. Ao dizer que prefere ver o filho em outra profissão, Endrick amplia o alcance desse debate e tira o assunto da esfera privada.
O próximo capítulo passa, agora, pelos próximos meses em Lyon e pela decisão de Ancelotti sobre a lista final da Copa. Se a atuação contra a Croácia se confirmar como ponto de virada, o atacante chegará ao Mundial como símbolo de uma geração acostumada à pressão desde a adolescência. Se ficar fora, continuará como um caso de estudo sobre como um talento precoce negocia expectativas, frustrações e o desejo de proteger a própria família do mesmo ciclo.
Entre treinos, jogos decisivos e a espera pelo nascimento do filho, Endrick tenta ajustar duas linhas de futuro: o da própria carreira, ainda dependente de minutos em campo e decisões de dirigentes, e o da criança que está por vir. Ao afirmar publicamente que não quer um herdeiro no futebol, ele deixa uma pergunta em aberto para o mundo que o formou: que tipo de ambiente está sendo construído quando um dos seus protagonistas prefere ver o próximo capítulo longe do gramado?
