Empresários pressionam Alcolumbre para adiar PEC que reduz jornada para 40h
Empresários se reúnem nesta terça-feira (26.mai.2026) com o senador Davi Alcolumbre para atrasar a votação da PEC que reduz a jornada de trabalho. O alvo é o fim da escala 6×1 e a transição de 44 para 40 horas semanais.
Articulação para segurar a pauta na Câmara
O encontro ocorre em meio à reta final de discussão do relatório na Comissão Especial da Câmara, que prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas em 14 meses. A reunião, descrita por participantes como “decisiva”, busca ganhar tempo e abrir espaço para mudanças no texto antes que a proposta avance ao plenário.
Alcolumbre, um dos principais articuladores do Congresso, entra na cena legislativa como ponte entre empresários e líderes da base governista e da oposição. O grupo tenta convencer deputados a adiar a votação do parecer, que consolida o fim da escala 6×1 em setores específicos e reorganiza a distribuição de horas ao longo da semana.
O movimento ocorre depois de uma sequência de conversas reservadas com representantes de grandes redes de varejo, indústria e serviços, que calculam aumento de custos trabalhistas já no primeiro ano de vigência. Para esses setores, a combinação entre menos horas formais e manutenção de níveis de produção pressiona a folha de pagamento e exige contratações adicionais.
Um empresário ouvido pela reportagem, sob reserva, resume o clima nas reuniões prévias: “Ninguém é contra melhorar condições de trabalho, mas reduzir quatro horas semanais nesse prazo não fecha a conta”. Segundo ele, empresas com forte operação em domingos e feriados temem um efeito dominó em escalas, plantões e produtividade.
Medo de custos maiores e quebra na rotina 6×1
O relatório em discussão na Comissão Especial fixa uma transição gradual: a jornada máxima cai de 44 para 42 horas em um primeiro momento, e chega a 40 horas ao fim de 14 meses. A cada etapa, empresas precisam redesenhar turnos, escalas e contratos, sobretudo onde o modelo 6×1 ainda organiza a rotina de trabalho, com seis dias seguidos e apenas um dia de descanso.
Em setores como comércio, call centers, supermercados e serviços de logística, a escala 6×1 é a espinha dorsal da operação. A redução formal da jornada, somada ao fim progressivo desse regime, obriga empregadores a rever metas, horários de pico e a quantidade mínima de funcionários em cada turno. “Se a PEC passar como está, teremos de contratar mais gente ou cortar horário de funcionamento. Isso mexe com faturamento e margem”, afirma o executivo de uma rede nacional do varejo alimentar.
Do outro lado, centrais sindicais defendem que a redução para 40 horas corrige um atraso histórico em relação a economias que já adotam jornadas menores há anos. Argumentam que a mudança pode gerar empregos ao distribuir horas de trabalho entre mais pessoas e reduzir adoecimento ligado à carga excessiva. Dirigentes lembram que a jornada de 44 horas é fixada desde 1988 e nunca foi revista em favor dos trabalhadores.
Economistas que acompanham o debate apontam que o impacto final depende do desenho da transição e da capacidade de negociação setorial. Para empresas com alta intensidade de mão de obra e baixa margem, o ajuste tende a ser mais duro. Em segmentos com maior produtividade e tecnologia embarcada, a adaptação pode vir por reorganização de processos e automação, sem expansão proporcional da folha.
Negociação política e incerteza sobre o calendário
A ofensiva empresarial sobre Alcolumbre mira, sobretudo, o calendário da Câmara. Ao atrasar a votação na Comissão Especial, o grupo cria espaço para emendas que alonguem a transição ou preservem maior flexibilidade na gestão de escalas. Também tenta evitar que o tema entre em votação em um ambiente de forte mobilização sindical, o que reduziria a margem para recuos.
Deputados próximos ao empresariado falam, em conversas reservadas, em estender o prazo de 14 para até 24 meses, com possibilidade de acordos coletivos manterem arranjos específicos de jornada em alguns setores. Lideranças sindicais reagem e pressionam para que qualquer mudança preserve a meta final de 40 horas semanais e impeça brechas que, na prática, mantenham o padrão atual.
O adiamento da votação da PEC abre um tabuleiro de negociações que vai além da pauta trabalhista. Partidos enxergam na proposta uma moeda de troca em futuras votações econômicas e orçamentárias. A forma como Alcolumbre conduz essa articulação pode reposicionar sua influência no Congresso e reordenar alianças entre governo, oposição e blocos empresariais.
Enquanto o relatório não vai a voto, empresas antecipam cenários, simulam escalas e fazem contas para um possível regime de 40 horas já a partir de 2027, caso o texto seja aprovado e promulgado ainda neste ano. Trabalhadores acompanham à distância, entre a expectativa de ter mais tempo livre e o temor de que ajustes venham acompanhados de cortes de postos ou congelamento de salários.
O desfecho imediato está nas mãos da Comissão Especial e da capacidade de Alcolumbre de segurar ou acelerar o passo das negociações. Permanecem em aberto o ritmo da transição, o grau de proteção ao fim da jornada 6×1 e até que ponto o Congresso está disposto a redistribuir tempo entre trabalho e vida fora dele.
