El Niño mais forte desde 2015 ameaça colheitas e fertilizantes em 2026
Meteorologistas de Japão, China, Índia, Austrália e Brasil preveem um El Niño forte a partir do verão de 2026. O fenômeno ameaça colheitas, pressiona fertilizantes e acende alerta para a segurança alimentar global.
Fenômeno ganha força e recoloca clima no centro da oferta de alimentos
No Pacífico central e oriental, a temperatura da superfície do mar sobe além do normal e reorganiza o clima do planeta. Esse aquecimento, conhecido como El Niño, tem 70% de chance de se instalar entre junho e agosto de 2026, segundo a agência meteorológica do Japão. Autoridades da China já admitem que o episódio pode se estender até dezembro, com impactos em várias safras.
O movimento dos oceanos, somado ao aquecimento global, empurra o mundo para um cenário que lembra 2015 e 2016, quando um dos El Niños mais fortes da história provocou seca ampla na Ásia e cortou a produção de grãos e oleaginosas. Agora, o quadro é mais tenso: além do risco climático, produtores convivem com uma oferta frágil de fertilizantes, encarecida pela guerra no Oriente Médio e pela instabilidade no Estreito de Ormuz, rota de cerca de 30% do comércio mundial de ureia.
Em 2026, as primeiras anomalias climáticas já surgem meses antes do pico do fenômeno. “Já estamos vendo calor e secura em partes da Austrália e da Índia”, afirma Chris Hyde, meteorologista da empresa suíça de inteligência meteorológica Meteomatics. Ele lembra que a última vez em que observou sinais semelhantes foi no episódio severo de 2015 a 2016. “Austrália, Índia e o Sudeste Asiático estão entre as regiões mais suscetíveis e tendem a mostrar os primeiros sinais”, diz.
Seca, excesso de chuva e fertilizante caro reescrevem mapa agrícola
Em solo australiano, a mudança já aparece na rotina dos produtores. Após meses de chuvas escassas, agricultores de Nova Gales do Sul e Queensland reduzem o plantio de trigo e canola por falta de umidade, fertilizantes e combustível. “Nossa estação entrou em colapso total”, relata o produtor Pat Ryan, que cultiva grãos e cria gado perto de Merriwa, em Nova Gales do Sul. “Não temos tido nenhuma chuva decente há três ou quatro meses”, completa.
A Austrália é o quarto maior exportador de trigo do mundo e o segundo maior fornecedor de canola. Previsões indicam que a seca deve se aprofundar nos próximos meses, reduzindo oferta em um mercado já pressionado. No Sudeste Asiático, o clima mais seco ameaça duas bases da alimentação regional e do comércio global: o óleo de palma e o arroz. O impacto não é imediato, mas se prolonga por todo o ciclo das lavouras. “O principal efeito sobre o óleo de palma é sentido de seis a 15 meses depois”, explica M.R. Chandran, autoridade do setor em Kuala Lumpur. Segundo ele, um El Niño fraco causa apenas perturbações limitadas, mas um evento mais longo e intenso pode derrubar a produção entre 5% e 12%.
Na Índia, primeiro grande teste do fenômeno ocorre nas chuvas de monções, entre junho e setembro. Pela primeira vez em três anos, a expectativa é de precipitações abaixo da média. Isso atinge diretamente o arroz, o algodão e a soja de verão e reduz a umidade do solo para culturas de inverno, como trigo e colza. “Toda a estação ficará abaixo do normal”, projeta Hyde. Ele estima um volume de apenas 70% a 90% da chuva média, abaixo dos 92% previstos oficialmente por Nova Délhi, e alerta para “a possibilidade de uma seca severa na Índia, especialmente em agosto e setembro”.
A China, maior importador global de alimentos e grande produtora de grãos, acompanha o cenário com cautela. O país costuma sentir efeitos menos intensos de El Niño, mas não está blindado. “Um El Niño mais forte aumenta o risco de inundações no sul da China, o que pode prejudicar a produção de arroz e vegetais nessas regiões”, avalia Darin Friedrichs, cofundador da consultoria Sitonia Consulting. Árroz, trigo e milho compõem a base da segurança alimentar chinesa e qualquer perda relevante repercute nas compras externas.
Nas Américas, o efeito tende a ser o oposto da Ásia. O fenômeno costuma trazer mais chuvas para América do Norte e do Sul. Nos Estados Unidos, o excesso de água durante a colheita de milho e soja pode atrasar máquinas no campo, interromper trabalhos e comprometer a qualidade de grãos e oleaginosas. Na Europa, o verão de 2026 também pode ser mais úmido. “Se tivermos muita chuva, isso poderá ser favorável para o milho e vice-versa”, pondera Benoit Fayaud, analista sênior de grãos do grupo de dados Expana, na França. Ele lembra que, quando o El Niño se consolida, a colheita de trigo europeu já começou, o que reduz o risco direto para essa cultura, mas não elimina impactos em logística e preços.
No Brasil, meteorologistas apontam chegada de condições de El Niño por volta de maio, com ondas de calor, redistribuição das chuvas e maior risco de eventos extremos. A combinação de temperatura mais alta, períodos de seca regional e tempestades intensas tende a desafiar lavouras de soja, milho, café e cana, além de pressionar sistemas de armazenamento e transporte.
No horizonte de 2026, o campo também enfrenta um gargalo químico. A guerra no Irã e as tensões no Oriente Médio atingem a rota do Estreito de Ormuz, um corredor vital para derivados de gás natural e ureia, base de muitos fertilizantes nitrogenados. Em um mercado já concentrado, qualquer bloqueio eleva custos e reduz a disponibilidade em países dependentes das importações, como Brasil e Índia.
O encarecimento dos insumos encontra agricultores menos dispostos a assumir riscos. “Se os custos dos fertilizantes continuarem altos, a baixa pluviosidade incentivará os agricultores a não usá-los”, avalia Vitor Pistoia, analista do Rabobank na Austrália. Ele descreve um efeito em cascata: “Por que aplicar fertilizantes caros em uma safra que, de qualquer forma, será ruim? Isso pode ser um ciclo vicioso que aumenta a perda de rendimento.”
Segurança alimentar em xeque e corrida por respostas
Nos cálculos de governos e organismos internacionais, o quadro que se desenha para 2026 é o mais delicado desde o El Niño de 2015-2016. A combinação de seca severa em partes da Ásia, enchentes localizadas na China, excesso de chuva nas Américas e fertilizantes caros cria um tabuleiro instável para preços de alimentos. Em economias vulneráveis, qualquer alta adicional em arroz, trigo ou óleo de cozinha pode se transformar em gatilho de tensão social.
Mercados futuros já começam a embutir esse risco. Traders de grãos avaliam, mês a mês, mapas climáticos e relatórios meteorológicos de Japão, China, Índia, Austrália, Brasil, Europa e Estados Unidos. Um episódio forte de El Niño reduz a previsibilidade das safras e amplia a volatilidade de preços, pressionando desde grandes tradings até pequenos produtores que dependem de crédito rural. Em muitos países, a conta recai sobre consumidores de baixa renda, que gastam mais de 30% do orçamento com alimentação.
Governos buscam amortecer o choque com estoques estratégicos, linhas de crédito emergenciais e subsídios a insumos. Organismos multilaterais discutem ações coordenadas para evitar restrições unilaterais às exportações, como as que ocorreram em crises anteriores de alimentos. Programas de seguro rural, irrigação, sementes mais resistentes ao calor e sistemas de alerta precoce ganham espaço em planos de adaptação, mas ainda avançam em ritmo desigual entre regiões.
Em paralelo, o novo El Niño realimenta o debate sobre a capacidade dos sistemas produtivos de lidar com um clima mais extremo. Para agrônomos e climatologistas, a frequência crescente de eventos intensos obriga uma revisão de modelos de plantio, de escolha de variedades e de investimento em infraestrutura hídrica. No curto prazo, no entanto, o que estará em jogo é a oferta efetiva de grãos, óleos vegetais e proteínas em 2026.
À medida que o Pacífico aquece e os dados se consolidam, meteorologistas refinam projeções mês a mês. Produtores ajustam plantio, empresas recalculam estoques e governos repensam políticas de importação e exportação. A força real do El Niño de 2026 só ficará clara quando as primeiras lavouras entrarem em colheita em cada região. Até lá, a pergunta que orienta o mercado é direta: o mundo terá grãos suficientes para atravessar mais um ano de clima extremo sem aprofundar a crise alimentar?
