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Eduardo Bolsonaro cita Zelle em defesa do Pix em meio a pressão dos EUA

Em vídeo publicado nas redes sociais nesta sexta-feira (5/6/2026), Eduardo Bolsonaro compara o sistema americano Zelle ao Pix e usa o exemplo nas negociações com os Estados Unidos. A fala ocorre após o governo americano propor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e criticar o modelo de operação do Pix.

Vídeo viral e disputa em meio a tarifa de 25%

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, entra no centro do debate sobre pagamentos digitais em plena escalada da tensão comercial com Washington. No vídeo que viraliza na rede X, ele chama o Zelle de “Pix dos Estados Unidos” e diz que o serviço pode ser usado como trunfo na mesa de negociação com o governo americano.

A declaração vem depois de o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propor um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado americano. No mesmo documento, o Pix aparece como alvo de críticas diretas. O texto acusa o Banco Central de acumular dois papéis, como regulador e dono da infraestrutura, o que geraria “conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas”.

O recorte em que Eduardo destaca o Zelle como sistema “muito semelhante ao Pix” circula em perfis críticos ao bolsonarismo e alcança também integrantes do campo governista. Ele afirma: “Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos”.

Após a repercussão, o ex-parlamentar volta às redes e nega que tenha sugerido a substituição do Pix pelo Zelle. Em nova publicação, escreve: “Pix foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer. Sou pró-Pix”. O registro contrasta com o histórico do projeto, iniciado em 2018, ainda no governo Michel Temer, e implementado pelo Banco Central em novembro de 2020.

Pix público x Zelle privado: o que está em jogo

O embate em torno das declarações de Eduardo Bolsonaro expõe um ponto sensível na relação entre Brasil e Estados Unidos: a forma como cada país organiza sua infraestrutura de pagamentos. No Brasil, o Pix nasce como sistema público, operado pelo Banco Central, com uso obrigatório para instituições financeiras autorizadas que tenham mais de 500 mil contas ativas. A regra força bancos tradicionais, fintechs e instituições estrangeiras a participar da mesma engrenagem.

O Zelle, que inspira a comparação de Eduardo, surge em 2017 sob outro desenho. A rede é operada pela Early Warning Services, empresa privada controlada por sete gigantes bancários americanos, entre eles Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo. A adesão é voluntária e concentrada no sistema de grandes bancos. Segundo a companhia, o serviço está integrado a mais de 2,4 mil aplicativos bancários, mas não cobre todo o território nem chega de forma homogênea à população sem conta em banco.

No cotidiano do usuário, a experiência também difere. No Brasil, transferências via Pix são instantâneas, 24 horas por dia, todos os dias, e permitem o uso de e-mail, celular, CPF ou chaves aleatórias. Pessoas físicas, microempreendedores individuais e empresários individuais não pagam tarifas, enquanto empresas arcam com taxas que, em média, variam de 0,89% a 1,45% por operação, de acordo com a política de cada banco e o canal utilizado.

No Zelle, a promessa é de envio rápido de dinheiro usando só o e-mail ou o telefone do destinatário. Na prática, a liquidação pode demorar horas ou até dias, dependendo de problemas técnicos e da política de cada banco. A Early Warning afirma que, “normalmente”, consumidores não pagam tarifas. A ressalva abre espaço para cobranças definidas pelas instituições financeiras, o que torna o custo menos previsível para o cliente.

O contraste chama atenção também fora do Brasil. Em artigo de 2025, o economista americano Paul Krugman, Nobel de Economia, descreve o Pix como “uma versão pública do Zelle”. Ele elogia a rapidez, o custo baixíssimo e a adoção em massa do sistema brasileiro, que, segundo ele, alcança 93% dos adultos do país. “Embora o Zelle seja grande, o Pix se tornou simplesmente enorme. Parece estar rapidamente substituindo dinheiro em espécie e cartões”, escreve.

O avanço do Pix provoca reação do lado de cá. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) sai em defesa do modelo depois das críticas do USTR. Em nota, a entidade afirma que a investigação dos EUA parte de “informações incompletas” sobre o funcionamento do sistema financeiro nacional. “O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica”, diz o comunicado. Para a Febraban, trata-se de um modelo “aberto e não discriminatório”.

Impacto nas negociações e na percepção do sistema brasileiro

A comparação feita por Eduardo Bolsonaro surge em um momento em que o Pix passa de símbolo de modernização a ponto de fricção diplomática. O sistema, que supera a marca de dezenas de bilhões de transações por ano e alcança praticamente todo o varejo nacional, passa a ser visto pelo governo americano como peça central na dinâmica de concorrência bancária no Brasil.

Na prática, a proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros amplia a pressão sobre setores exportadores, da indústria ao agronegócio. O questionamento ao Pix entra nesse pacote como argumento adicional em um jogo que envolve balança comercial, regulação financeira e espaço para empresas americanas de tecnologia e meios de pagamento. Ao expor o Zelle como “espelho” do Pix, Eduardo tenta mostrar que os EUA também contam com uma estrutura de pagamentos digitais avançada, ainda que privada e menos difundida.

Para consumidores brasileiros, o debate é menos ideológico e mais concreto. O Pix se consolida como ferramenta de inclusão financeira para milhões de pessoas que antes dependiam de dinheiro vivo ou de cartões com tarifas altas. Pagamentos de pequenos comerciantes, transferências entre familiares, mensalidades escolares e serviços cotidianos se deslocam para o sistema, que funciona sem cobrança para o usuário comum e reduz custos operacionais para boa parte do comércio.

Especialistas avaliam que uma eventual mudança na governança do Pix, em resposta a pressões externas, teria impacto direto na competição bancária. A gratuidade para pessoas físicas e a integração obrigatória de grandes instituições são apontadas como fatores que forçam bancos a oferecer serviços adicionais e reduzir tarifas tradicionais. Qualquer alteração que encareça ou fragilize a estrutura pode abrir espaço para novos intermediários privados, inclusive estrangeiros, que buscam fatia do mercado brasileiro.

Próximos passos e disputa aberta no tabuleiro digital

O episódio com Eduardo Bolsonaro adiciona combustível a um debate que não se encerra com um vídeo viral. O governo brasileiro precisa responder formalmente às críticas do USTR, enquanto negocia a tentativa americana de impor a tarifa de 25% sobre exportações do país. A defesa do Pix entra na pauta diplomática com peso semelhante ao de outros temas econômicos sensíveis.

O Banco Central, o Ministério da Fazenda e o Itamaraty tendem a ser pressionados a explicar, com números e salvaguardas, como o Pix mantém neutralidade regulatória mesmo sendo operado pela autoridade monetária. Do outro lado, Washington observa a expansão do sistema brasileiro e o elogio de vozes influentes, como Krugman, como sinais de que um modelo público pode redefinir o mercado global de pagamentos. A discussão sobre Zelle e Pix, nascida em um vídeo de redes sociais, ganha escala e deixa uma pergunta em aberto: até onde a infraestrutura digital de pagamentos pode influenciar a próxima rodada de acordos comerciais entre Brasil e Estados Unidos?

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