Ecomonitoramento na Lagoa de Imaruí expõe alerta ambiental em SC
Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, em maio de 2026, o navegador Vilfredo Schurmann lidera um ecomonitoramento navegante na Lagoa de Imaruí, no Sul de Santa Catarina. A expedição reúne cientistas de quatro instituições para medir, em detalhes, a saúde do maior complexo lagunar do estado e os impactos da degradação na vida de quem depende dessas águas.
Lagoa sob pressão às portas de datas simbólicas
O barco corta o espelho d’água do Complexo Lagunar Sul Catarinense, conhecido como “mar de dentro”, enquanto Schurmann segura uma garrafa de coleta. Aos 40 anos de navegação pelo mundo, ele se volta agora para casa, onde a paisagem ainda bonita esconde sinais de adoecimento ambiental.
O ecomonitoramento ocorre em maio, poucos dias antes de 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, e de 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos. A simbologia não é coincidência. A cada mês, pesquisadores do Instituto Canto das Águas, do IFSC, da UFSC e da Ciano percorrem a lagoa para registrar temperatura, salinidade, radiação solar, condições do tempo e o ponto exato de cada amostra. O objetivo é montar um retrato contínuo do que acontece na água que abastece pescadores, comunidades ribeirinhas e a biodiversidade local.
Schurmann participa pessoalmente da coleta de maio. Ele mergulha a garrafa cerca de 10 a 15 centímetros abaixo da superfície, sem permitir qualquer contato prévio com o ar. “Aos meus olhos, a água parecia mais limpa”, relata aos pesquisadores. O comentário resume um dos desafios da equipe: a aparência engana. Apenas a análise em laboratório, guiada por protocolos científicos rígidos, mostra o que não se vê a olho nu.
Os cientistas evitam alarmismo, mas não escondem a preocupação. O Complexo Lagunar Sul Catarinense, segunda maior lagoa do país, sente o peso do despejo de esgoto sem tratamento, do manejo irregular de resíduos e de mudanças aceleradas no uso do solo em cidades próximas. A região recebe a influência direta da Bacia do Rio Tubarão, que carrega para a lagoa tudo o que encontra pelo caminho, do lixo urbano a sedimentos de áreas agrícolas.
Dados em tempo real e impactos na vida de quem vive da água
O ecomonitoramento navegante, realizado mensalmente, transforma o barco em laboratório móvel. Equipamentos registram variações de temperatura e salinidade em diferentes trechos, enquanto os pesquisadores anotam a posição geográfica de cada coleta. A partir desses dados, é possível mapear pontos mais vulneráveis à poluição e identificar tendências, como o avanço de marés mais salinas ou a queda de oxigênio dissolvido, que afeta diretamente peixes e crustáceos.
O próximo passo, segundo a equipe, é aprofundar a investigação. As coletas devem deixar de se limitar à superfície e passar a abranger toda a coluna d’água, da lâmina superior até o fundo da lagoa. Essa mudança abre espaço para entender como a poluição se distribui em diferentes camadas e como processos como o assoreamento, resultado de sedimentos trazidos pelos rios, alteram a dinâmica do ecossistema.
As consequências já chegam às margens. Pescadores artesanais relatam mudança no comportamento dos cardumes e queda na quantidade de espécies tradicionais da região. Quando a lagoa recebe esgoto não tratado e resíduos sólidos, algas se proliferam de forma descontrolada, reduzem o oxigênio da água e tornam mais difícil a sobrevivência de peixes, moluscos e crustáceos. O efeito em cadeia atinge a renda de famílias que, há gerações, dependem da pesca como principal fonte de sustento.
Schurmann, líder do movimento Voz dos Oceanos, vê na lagoa um retrato ampliado do que presencia em viagens pelo globo. “Os oceanos não são sistemas isolados. Eles estão conectados aos rios, às lagoas, aos manguezais, às florestas e, claro, à vida humana”, afirma. A frase traduz a lógica que orienta a expedição: o que acontece na bacia do rio repercute no mar, e vice-versa.
Quando manguezais são aterrados ou desmatados, a lagoa perde berçários naturais de centenas de espécies. Sem essas áreas de proteção, a reprodução de peixes diminui e o equilíbrio ecológico se rompe. Na outra ponta, a influência do oceano sobre o complexo lagunar se expressa no clima, no regime de chuvas e até na temperatura média da região. Alterações nesse sistema comprometem não só a vida marinha, mas a agricultura, o abastecimento de água e a saúde pública.
Monitoramento contínuo, políticas públicas e o que vem a seguir
A iniciativa de ecomonitoramento ganha peso político em um momento em que prefeituras e órgãos ambientais discutem planos de saneamento e licenciamento de novos empreendimentos na região Sul de Santa Catarina. Os dados gerados no barco servem de base para cobrar investimentos em coleta e tratamento de esgoto, controle de resíduos e proteção de áreas de mangue e mata ciliar.
Os pesquisadores defendem que, sem integração entre políticas de água, clima, uso do solo e gestão de resíduos, a lagoa seguirá em rota de degradação. O monitoramento, por si só, não reverte o quadro, mas cria uma linha de base: mostra, com números, se a qualidade da água melhora ou piora ano a ano. Nesse cenário, o projeto pode inspirar outras regiões a adotar programas semelhantes, conectando monitoramento científico, participação de comunidades locais e pressão por soluções práticas.
Schurmann insiste em um ponto que atravessa toda a expedição: “Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo: compreender que o oceano começa muito antes da beira-mar.” Na visão do navegador, o cuidado com os mares passa pelo descarte correto do lixo nas cidades, pelo tratamento dos esgotos, pela preservação das florestas e pela recuperação de rios e lagoas já contaminados. Cada decisão individual, do consumo de plástico à separação de resíduos, entra nessa conta.
Depois de quatro voltas ao mundo, ele resume a lição aprendida na prática: a natureza não reconhece fronteiras. A saúde da Lagoa de Imaruí e do Complexo Lagunar Sul Catarinense é mais do que um tema local. É um termômetro de como o país lida com a conexão entre terra e mar e de que forma transforma discurso ambiental em ação contínua.
O barco de pesquisa volta ao ponto de partida, mas o trabalho não se encerra. As próximas campanhas mensais devem ampliar o número de pontos de coleta, incluir novas profundidades e cruzar os resultados com dados de chuva, temperatura do ar e avanço da ocupação urbana. A pergunta que permanece, à medida que se aproximam novos Dias dos Oceanos e do Meio Ambiente, é se a ciência terá resposta rápida do poder público e da sociedade ou se continuará navegando sozinha em um mar cada vez mais pressionado.
