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Derrota de Trump no Congresso pode frear influência no Brasil

Resultados eleitorais nos EUA podem reduzir o impacto de Trump nas relações bilaterais com o Brasil.

Derrota de Trump no Congresso pode frear influência no Brasil

Com a votação desta terça-feira (3) mobilizando até 200 milhões de eleitores nos Estados Unidos, a baixa popularidade de Donald Trump e a possibilidade de perda do controle do Congresso já projetam um cenário de cerco político ao presidente e de freio à sua influência sobre a política brasileira e latino-americana.

Trump sob pressão em casa e no exterior

Em disputa estão todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 33 assentos no Senado e 36 governos estaduais, além de assembleias locais. Pesquisas apontam forte chance de derrota do Partido Republicano, o que pode tirar de Trump a maioria no Congresso e deixar o governo sujeito a uma agenda de investigações.

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A situação do presidente é frágil. Segundo levantamento da revista The Economist, “apenas 34% dos entrevistados aprovam a presidência de Trump, enquanto 61% rejeitam suas políticas”. A combinação de inflação alta, custo de vida em disparada e desgaste com a condução da economia e da imigração alimenta a rejeição, inclusive entre eleitores que o apoiaram na eleição presidencial anterior.

Analistas falam em “onda azul” democrata, com magnitude ainda incerta. Mas um ponto é consenso: se perder a Câmara e possivelmente o Senado, Trump enfrentará um Congresso disposto a recuperar poderes cedidos ao Executivo nos últimos anos e a abrir frentes de investigação sobre o uso político de agências federais, interferência em outros países e financiamento de campanhas.

Entenda o contexto

Trump chega a esta eleição de meio de mandato após apostar em uma retórica agressiva para minimizar os efeitos da inflação e do aumento do custo de vida, atribuindo as críticas a uma “narrativa” dos democratas. Na prática, combustíveis seguem caros e alimentos e itens básicos pesam no orçamento das famílias, o que corrói o discurso oficial.

Ao mesmo tempo, a agenda anti-imigrante, que foi central para sua vitória presidencial anterior, perdeu fôlego na opinião pública. Apenas 37% dos americanos aprovam as políticas migratórias do governo, e uma pesquisa da emissora Fox News mostra que “53% dos eleitores registrados acreditam que Trump ‘exagerou’ nas operações da ICE”, a agência de imigração e alfândega responsável por grandes batidas contra trabalhadores sem documentos.

Mortes de cidadãos e imigrantes em ações desses agentes provocaram protestos em várias cidades, alimentando a percepção de abuso de força e radicalização da política migratória. Esse clima ajuda a explicar a migração de eleitores jovens, negros e latinos, que haviam se aproximado dos republicanos, de volta para candidatos democratas nas urnas de hoje.

Interferência no Brasil entra na mira

O desgaste de Trump não se limita à frente interna. A relação direta com setores da direita brasileira e a tentativa de influenciar o cenário político no país também entram na conta deste momento de inflexão. O presidente norte-americano decidiu hospedar Flávio Bolsonaro, aliado e candidato derrotado no Brasil que deixou o país após prometer publicamente que não sairia.

“Flávio Bolsonaro, um candidato derrotado que fugiu do Brasil, está sendo hospedado por Trump”, registra a Agência Pública. Ao mesmo tempo, o presidente dos EUA se recusa a reconhecer formalmente o resultado da eleição brasileira e espalha, sem apresentar provas, acusações de fraude na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

As declarações ecoam o discurso do ideólogo de extrema direita Steve Bannon. Segundo a mesma Agência Pública, “Steve Bannon afirmou que o Brasil virou uma ditadura que merece severas sanções dos EUA”. O tom confrontacional contrasta com a posição de parlamentares norte-americanos que saúdam a eleição de Lula e defendem a democracia brasileira.

Mensagens públicas de congratulações ao presidente brasileiro partiram de figuras como o deputado estadual nova-iorquino Zohran Mamdani, o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, além de congressistas moderados. O recado é que uma eventual maioria democrata no Congresso tende a barrar tentativas de usar os EUA como base para ataques sistemáticos ao governo brasileiro.

Rede de aliados enfraquecida

A derrota de Flávio Bolsonaro é vista em Washington como um golpe na estratégia internacional de Trump. De acordo com reportagens investigativas, o governo norte-americano lançou mão de medidas fiscais, políticas e possivelmente ações encobertas para favorecer o aliado brasileiro, sem sucesso.

Com a ascensão de governos progressistas em parte da América Latina, a articulação de uma frente regional alinhada a Trump perde fôlego. O Brasil, ao lado de México e Uruguai, se consolida como polo de resistência a uma agenda classificada por críticos como neocolonial, que buscaria aprofundar a dependência econômica e política da região em relação a Washington.

Uma vitória democrata nas eleições desta semana reforçaria esse movimento: parlamentares que já se posicionaram em defesa do sistema eleitoral brasileiro e contra ataques às instituições ganhariam espaço em comissões estratégicas de política externa e direitos humanos.

Investigação e freios ao trumpismo

No curto prazo, a principal consequência de uma derrota republicana ampla seria a mudança de comando na Câmara e no Senado. Isso abriria caminho para comissões de inquérito sobre suposta interferência externa em eleições, uso político do Departamento de Justiça, operações da ICE e circulação de recursos de origem obscura em campanhas deste ciclo.

A campanha de meio de mandato foi marcada por um forte influxo de dinheiro de origem pouco transparente, o que acendeu alertas sobre financiamento estrangeiro e uso de empresas de fachada para irrigar disputas locais e nacionais. Um Congresso sob maioria democrata tende a pressionar por mais transparência e regulação.

Outro ponto sensível é a insistência de Trump em alegar fraudes eleitorais em pleitos recentes e atribuir derrotas locais a supostos votos de imigrantes sem cidadania. Investigações estaduais já mostraram que o número de eleitores inelegíveis que de fato votaram é ínfimo diante do total de votos, mas o presidente mantém o discurso para semear dúvidas sobre qualquer resultado desfavorável.

Com o fim da votação, a disputa se desloca da urna para as mesas de apuração e para a arena política em Washington. Conforme os resultados forem confirmados, democratas e republicanos calibrarão seus próximos passos: de um lado, tentativas de conter e investigar o trumpismo dentro e fora dos EUA; de outro, o esforço de Trump para manter liderança sobre seu partido e preservar influência sobre aliados internacionais, em especial na América Latina.

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