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Deolane e Marcola são indiciados por lavagem de dinheiro ligada ao PCC

A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público indiciam a influenciadora Deolane e Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. O indiciamento é formalizado em 29 de maio de 2026, após a análise de materiais apreendidos na Operação Vérnix, deflagrada em 21 de maio. A investigação aponta uso de empresas e patrimônio de alto padrão para ocultar recursos de origem criminosa.

Operação mira elo entre influenciadora e facção

O caso nasce dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista, em 2019. Naquele ano, agentes da Polícia Penal apreendem bilhetes e manuscritos com dois presos ligados ao Primeiro Comando da Capital. Os papéis descrevem rotinas internas da facção, destacam a atuação de lideranças encarceradas e mencionam a possibilidade de ataques contra agentes públicos.

A partir desse material, investigadores da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo começam a rastrear estruturas financeiras associadas ao grupo. O trabalho avança lentamente, com quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático, até chegar a uma rede de empresas que, segundo a apuração, funciona como fachada para movimentar dinheiro de origem ilícita.

Em 21 de maio de 2026, essa primeira etapa culmina na Operação Vérnix, que cumpre mandados em São Paulo e prende Deolane após a identificação de sua suposta participação no esquema. Na mesma ofensiva, policiais apreendem joias, relógios, veículos e documentos físicos e digitais que, por quase uma semana, passam por perícia detalhada. É essa triagem que sustenta o relatório final complementar apresentado agora e o indiciamento formal de Deolane e Marcola.

Os autos descrevem movimentações financeiras consideradas expressivas e incompatíveis com a renda declarada da influenciadora. Segundo os investigadores, ela mantém vínculos pessoais e negociais com integrantes do PCC e com um dos gestores fantasmas da Lopes Lemos Transportadora Ltda, apelidada de “Lado a lado”. A empresa é apontada como uma das engrenagens do esquema de lavagem.

O relatório destaca o uso sucessivo de pessoas jurídicas, transferências entre contas de empresas e pessoas físicas e a aquisição ou vinculação a bens de alto padrão. Para os responsáveis pela apuração, a projeção pública da influenciadora, somada à atividade empresarial formal, funciona como uma camada extra de aparente legalidade. O objetivo seria dificultar o rastreamento da origem e da circulação do dinheiro.

Esquema financeiro expõe alcance do PCC

A Operação Vérnix reforça uma percepção que há anos preocupa autoridades de segurança: o PCC amplia sua atuação para além das fronteiras dos presídios e das periferias. O foco agora recai sobre negócios que se apresentam como atividades comuns, mas que, segundo a investigação, escondem fluxo milionário de recursos desviados do crime.

Os levantamentos indicam que o grupo continua ativo durante toda a apuração e, até a data da operação, trabalha na reestruturação de empresas supostamente usadas para ocultar patrimônio. A investigação descreve uma cadeia de sucessões societárias, alterações contratuais e transferência de cotas que pretende embaralhar o caminho do dinheiro.

Após a análise dos materiais apreendidos, os investigadores pedem à Justiça a ampliação do bloqueio de bens já determinado em fases anteriores. Também solicitam o sequestro de novos veículos e a custódia judicial de joias e relógios. As peças de alto valor são vistas como parte fundamental do patrimônio a ser rastreado, não apenas como símbolos de ostentação.

O caso avança ainda para a esfera federal. Diante de indícios de possíveis crimes tributários, como sonegação e omissão de receitas, a Polícia Civil e o Ministério Público compartilham informações com a Polícia Federal. O cruzamento de dados fiscais, bancários e societários pode revelar diferenças entre faturamento declarado e volume real de recursos que circulam em contas vinculadas aos investigados.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que a investigação segue em curso e que “não estão descartadas novas medidas judiciais e a identificação de outros envolvidos no esquema”. A CNN Brasil solicita posicionamento da defesa de Deolane e aguarda resposta. O espaço permanece aberto.

A defesa de Marcola insiste na tese de que ele não conhece a influenciadora. Em manifestação pública, o advogado Bruno Ferullo afirma que seus clientes têm o indiciamento reiterado por organização criminosa e lavagem de dinheiro, com base na Lei nº 12.850/2013 e na Lei nº 9.613/1998. “A Defesa esclarece que segue acompanhando todos os atos investigativos e adotará as medidas jurídicas cabíveis para a garantia dos direitos de seus clientes, ressaltando que o indiciamento constitui ato investigatório e não implica reconhecimento de culpabilidade, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência”, diz a nota.

Pressão sobre influenciadores e combate ao crime organizado

O indiciamento de uma influenciadora com milhões de seguidores ao lado do líder máximo do PCC altera o patamar do debate público sobre segurança. A suspeita de que figuras públicas integrem engrenagens de lavagem de dinheiro expõe como a popularidade nas redes sociais e a formalização de negócios podem servir, na versão dos investigadores, como escudo para recursos ilícitos.

Autoridades ouvidas reservadamente avaliam que o caso funciona como espécie de laboratório. A investigação combina análise de dados financeiros, monitoramento de redes, quebra de sigilos e apreensão física de documentos, joias e veículos de luxo. O objetivo é montar uma linha do tempo que ligue depósitos, transferências e compras de bens a ordens originadas no núcleo de comando da facção.

Na prática, o avanço da Operação Vérnix pressiona diferentes setores. Bancos e instituições de pagamento passam a ser cobrados por mecanismos mais rígidos de prevenção à lavagem. Plataformas digitais, que concentram contratos de publicidade e intermediação de cachês, entram no radar do poder público. Profissionais que vivem da exposição de estilo de vida de alto padrão sentem o recado de que ostentação sem lastro pode atrair suspeita.

Entre investigadores, há consenso de que a força do PCC não se mede apenas pela capacidade de organizar ataques, mas pelo domínio de engrenagens financeiras complexas. O caso ajuda a consolidar a ideia de que o combate ao crime organizado depende cada vez mais de cooperação entre polícias, órgãos fazendários e agências reguladoras, e menos de operações pontuais de grande impacto.

Inquérito continua e pode atingir novos alvos

O relatório que embasa o indiciamento de Deolane e Marcola encerra apenas a primeira etapa da análise dos materiais apreendidos. A Polícia Civil e o Ministério Público ainda vasculham bases de dados em busca de novos vínculos societários, contratos suspeitos e movimentações que escaparam ao mapeamento inicial. A possibilidade de ampliar o bloqueio de bens permanece em discussão na Justiça.

O compartilhamento das informações com a Polícia Federal tende a abrir uma frente paralela de apuração, centrada em eventuais crimes tributários e na circulação de dinheiro por contas e empresas fora de São Paulo. A depender do que surgir dessa cooperação, novos inquéritos podem ser abertos, com alvos diferentes dos atuais indiciados.

Na esfera judicial, as defesas se preparam para contestar ponto a ponto o relatório. A equipe de Marcola já anuncia que adotará todas as medidas cabíveis e insiste na presunção de inocência. Advogados de Deolane repetem que ela tem “absoluta inocência” e que foi presa “no exercício da profissão”, em referência à atuação como advogada criminal antes da fama nas redes.

O caso ainda não chega à fase de denúncia formal do Ministério Público, etapa que pode levar os indiciados ao banco dos réus. Até lá, o inquérito permanece aberto, sujeito a novos depoimentos, quebras de sigilo e perícias adicionais. A principal dúvida é se a Operação Vérnix vai se consolidar como ponto de virada no enfrentamento ao braço financeiro do PCC ou se será lembrada apenas como mais um capítulo de alta exposição na crônica policial brasileira.

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