Defesa de Jairinho atribui caso Henry Borel a traição e manipulação
A defesa de Jairo Souza Santos Júnior, o ex-vereador Jairinho, atribui a origem do caso Henry Borel a uma traição descoberta por celular. No sexto dia de júri, nesta quarta-feira (3), no Rio de Janeiro, os advogados afirmam que o rompimento entre Monique Medeiros e Leniel Borel desencadeia uma operação para responsabilizar o ex-parlamentar pela morte do menino.
Traição, disputa e a tentativa de recontar a história
No plenário do Tribunal do Júri, a estratégia da defesa se apoia em um enredo de desavenças pessoais, mensagens de celular e versões conflitantes. Advogados de Jairinho sustentam que as acusações de tortura e homicídio qualificado não nascem de uma investigação neutra, mas de um ambiente de ciúmes, ressentimento e oportunidade política.
O ponto de partida, segundo eles, é uma ligação salva como “Amor” no celular de Monique. O registro indicaria o relacionamento da professora com Jairinho quando ela ainda mantém vínculos com Leniel, pai de Henry. A partir dessa descoberta, narram os defensores, Leniel vê “a chance de destruir o rival” e passa a direcionar a culpa pelo que ocorre em março de 2021 para o ex-vereador. O Ministério Público rejeita essa leitura e mantém a tese de agressões sistemáticas dentro do apartamento na Barra da Tijuca.
O caso volta a ganhar força emocional nesta reta final de julgamento, mais de cinco anos após a morte de Henry, então com 4 anos. O júri popular entra, por volta das 20h desta quarta-feira, na fase de tréplica, a última rodada de manifestações de acusação e defesa antes do veredicto. Primeiro fala a defesa de Monique; em seguida, a de Jairinho. A previsão é de que os debates se encerrem perto das 22h e que o conselho de sentença se reúna logo depois para responder aos quesitos.
No discurso desta tarde, a defesa do ex-vereador tenta desmontar peça por peça o relato apresentado por Leniel ao longo da investigação e no tribunal. Advogados apontam supostas contradições em horários, mensagens de aplicativo e na descrição de como pai e filho passam as últimas horas juntos antes de o menino chegar em parada cardiorrespiratória ao hospital, na madrugada de 8 de março de 2021.
Acidente anterior, dor de cabeça e lacunas nos depoimentos
Um dos pilares da argumentação é um acidente anterior envolvendo Henry, relatado por uma testemunha identificada como Miriam. De acordo com a narrativa apresentada, Miriam conta em juízo que Leniel comenta, durante uma corrida de aplicativo, sobre uma queda do menino quando estava sob seus cuidados. Esse episódio, para a defesa, é ignorado na investigação inicial e não recebe o mesmo peso das suspeitas contra Jairinho.
Os advogados afirmam que, depois desse suposto acidente, Henry reclama de dor de cabeça. Afirmam também que Leniel procura uma farmácia pelo menos quatro vezes, mas não menciona essas queixas nos primeiros relatos à polícia. “Um pai que ouve o filho dizer que sente dor de cabeça e sai em busca de remédio tem obrigação de contar isso na primeira hora”, sustenta a defesa diante dos jurados, sugerindo que o silêncio faz parte de uma construção posterior dos fatos.
Outro ponto explorado é a versão sobre a última noite que Leniel passa com o filho. Ele diz que permanece com Henry até a madrugada. A defesa exibe aos jurados, segundo relata durante a sessão, mensagens trocadas entre ele e Monique para defender que esse encontro não ocorre como descrito. Para os advogados, as conversas demonstram afastamento e contradições de horários, o que, na leitura deles, abala a credibilidade do pai do menino.
Enquanto isso, promotores reforçam que laudos periciais apontam múltiplas lesões, compatíveis com agressões, e descartam a hipótese de um único acidente anterior como causa isolada da morte. A acusação considera as falas da defesa uma tentativa de desviar a atenção da rotina dentro do apartamento, onde testemunhas relatam episódios de gritos, choros e medo. O embate se prolonga por horas, num plenário lotado por familiares, jornalistas e curiosos.
Repercussão, desconfiança e pressão sobre o veredicto
A entrada da traição e de suposta manipulação de provas no centro da narrativa judicial amplia o alcance político e emocional do caso. A cada novo detalhe apresentado no tribunal, cresce o debate nas redes sociais, em programas de televisão e em grupos de mensagens. A figura de Jairinho, cassado em 2021 após a prisão, volta a dividir opiniões entre quem o vê como símbolo de violência infantil e quem enxerga espaço para dúvida.
Organizações ligadas à infância acompanham o julgamento com atenção desde o início da semana. Entidades cobram penas exemplares e criticam o que chamam de “tentativas de culpabilizar o pai e diluir responsabilidades”. A defesa de Jairinho reage e diz que “questionar versões não é desrespeitar a dor de ninguém, mas assegurar que ninguém seja condenado por conveniência”. O choque entre essas leituras alimenta a sensação de que o júri não decide apenas sobre um crime, mas sobre a confiança do público na capacidade do sistema de proteger crianças.
O impacto também atinge o campo jurídico. Advogados criminalistas apontam que o caso Henry Borel se torna, desde 2021, uma espécie de termômetro da relação entre comoção popular e garantia de defesa. A exploração de mensagens de celular, da vida íntima dos envolvidos e de lacunas em depoimentos expõe, segundo especialistas, a necessidade de investigações mais transparentes e menos dependentes de vazamentos seletivos. A forma como o tribunal lida com essas provas pode influenciar futuros julgamentos de crimes contra crianças no país.
Com o fim da fase de tréplica previsto ainda nesta noite, sete jurados anônimos passam a carregar o peso de uma decisão aguardada por milhões de pessoas. Eles se reúnem em sala reservada para responder, ponto a ponto, se houve homicídio, se foi qualificado por crueldade, se existiu tortura e qual o grau de participação de cada réu. A sentença pode sair ainda antes da meia-noite ou apenas na madrugada de quinta-feira, 4 de junho, dependendo do ritmo de votação.
Veredicto próximo e perguntas que permanecem
Quando o juiz retornar ao plenário para ler a decisão, o caso Henry Borel encerra um capítulo, mas dificilmente chega ao fim. Qualquer resultado abre espaço para recursos, debates públicos e análises sobre o papel da imprensa e das redes sociais na condução do processo. Uma eventual condenação reforça o discurso de responsabilização exemplar. Uma absolvição, ainda que parcial, alimenta suspeitas de erro investigativo e favorecimento.
Os próximos dias devem ser marcados por manifestações, entrevistas e novas disputas de narrativa. A defesa de Jairinho já sinaliza que, se necessário, vai recorrer a instâncias superiores e insistir na tese de que traição, ressentimento e confronto familiar distorcem a verdade dos fatos. A família de Henry, por sua vez, afirma que busca apenas justiça e que não aceita que a memória do menino seja usada como moeda em conflitos pessoais. Resta ao tribunal responder se suas respostas são suficientes para conter, ao menos por ora, a sensação de que ainda há perguntas sem resposta sobre a noite em que a vida de uma criança de 4 anos terminou.
