Datafolha mostra melhora de Lula, mas governo segue reprovado
A avaliação do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) melhora devagar, mas continua negativa. Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (23) mostra 38% de reprovação e 32% de aprovação, em levantamento feito nos dias 20 e 21 de maio.
Distância entre aprovação e reprovação encolhe
O governo chega a maio com um quadro mais confortável do que o registrado no início do ano, mas ainda distante de um cenário positivo. A diferença entre quem considera a gestão ótima ou boa e quem a vê como ruim ou péssima cai para 6 pontos, depois de ter alcançado 11 pontos em abril. O movimento é lento, porém consistente, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Na pesquisa divulgada em abril, 40% avaliavam o governo como ruim ou péssimo, contra 29% que o classificavam como ótimo ou bom. Na rodada seguinte, na semana passada, a distância recua para 9 pontos, com 39% de avaliação negativa e 30% positiva. Agora, a curva se aproxima ainda mais do empate: 38% de ruim ou péssimo e 32% de ótimo ou bom, enquanto 28% dos entrevistados descrevem a gestão como regular.
A aprovação pessoal de Lula também se rearranja. O Datafolha mostra 48% de aprovação e 48% de desaprovação ao trabalho do presidente, o que representa um empate numérico após meses de vantagem dos críticos. No levantamento anterior, 45% aprovavam o petista e 51% o reprovavam. A mudança ocorre em um momento de medidas com forte apelo ao bolso do eleitor, que vão de programas de renegociação de dívidas a alterações de tributos de consumo.
Medidas econômicas e contexto político influenciam humor do eleitor
A pesquisa é realizada com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 139 municípios, em entrevistas presenciais na quarta (20) e na quinta-feira (21). O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-07489/2026, tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Os números captam o efeito de uma sequência de decisões com foco direto na renda e no consumo. O governo lança o Desenrola 2.0, segunda etapa do programa de renegociação de dívidas, e revoga a chamada “taxa das blusinhas”, que incidia sobre compras internacionais de baixo valor. Uma medida provisória tenta conter o avanço do preço da gasolina, tema sensível para quem depende do transporte individual ou do frete rodoviário. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, promessa de campanha de 2022, passa a valer no início do ano e ainda repercute no orçamento das famílias.
Esse conjunto de ações reforça a percepção de que o Planalto mira o eleitorado de renda baixa e média, que sente de forma imediata qualquer alívio no fim do mês. A melhora, porém, parte de um patamar frágil. Em fevereiro de 2025, o governo vive o pior momento da série, com apenas 24% de avaliação ótima ou boa e 41% de ruim ou péssima, em meio a crises sucessivas, incluindo falhas e atrasos associados ao sistema de pagamentos instantâneos, o Pix. Desde então, a taxa negativa oscila entre 37% e 40%, até recuar agora para 38%.
No cenário eleitoral, o reflexo aparece com mais nitidez. Lula amplia de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma simulação de primeiro turno. O presidente atinge 40% das intenções de voto, contra 31% do adversário. Há uma semana, o quadro era de empate técnico, com 38% para Lula e 35% para Flávio, dentro da margem de erro. Em um eventual segundo turno, o então empate em 45% se transforma em uma vantagem de 47% a 43% para o petista.
A rodada também é a primeira inteiramente realizada após a revelação, pelo site Intercept Brasil, de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre os entrevistados que dizem conhecer o episódio, 64% avaliam que o senador agiu mal. O caso acrescenta desgaste à imagem de um dos principais adversários de Lula e ajuda a explicar a mudança no equilíbrio eleitoral.
Impacto sobre a disputa política e comparação histórica
Os dados do Datafolha indicam que, apesar do alívio nas taxas de reprovação, Lula enfrenta um ambiente mais hostil do que em mandatos anteriores. Em comparação com presidentes avaliados em ponto semelhante de governo desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB), os atuais 38% de avaliação ruim ou péssima só são menos graves que os de Jair Bolsonaro em 2022, quando 48% consideravam o então presidente ruim ou péssimo. Em 2014, Dilma Rousseff registrava 26% de avaliação negativa; em 2010, Lula encerrava o segundo mandato com apenas 5% de reprovação e, em 2006, marcava 22%. Fernando Henrique aparecia com 21% em 1998 e 29% em 2002.
Mesmo sob pressão, o núcleo duro do eleitorado de 2022 se mantém firme. Uma parcela de 91% dos eleitores diz não se arrepender do voto dado no segundo turno da disputa presidencial. Entre quem escolheu Lula, 90% reafirmam a decisão. O dado funciona como um colchão político para o governo, sobretudo em um cenário de polarização persistente e debate público marcado por acusações mútuas nas redes sociais e no Congresso.
Governadores, prefeitos e partidos monitoram de perto a oscilação. A tendência de redução da rejeição ao governo alimenta o cálculo de aliados, que enxergam espaço para associar candidaturas locais a agendas de consumo popular e crédito. Adversários, por sua vez, testam discursos que tentam enquadrar medidas como o Desenrola 2.0 e a revogação da “taxa das blusinhas” como ações de curto prazo, com objetivo eleitoral imediato e impacto fiscal ainda incerto.
O que pode mudar até a próxima rodada
O comportamento da inflação, o preço dos combustíveis e a capacidade do governo de entregar resultados concretos na economia serão decisivos para consolidar ou frear a recuperação na popularidade de Lula. A equipe econômica busca preservar a narrativa de responsabilidade fiscal ao mesmo tempo em que o Planalto amplia benefícios sociais e revisa tributos com impacto direto no dia a dia do consumidor.
Os próximos meses colocam à prova essa estratégia de equilíbrio. Se a percepção de melhora no bolso se sustentar, a distância entre aprovação e reprovação tende a diminuir ainda mais. Caso o ambiente econômico piore ou novas crises políticas surjam, o avanço recente pode se revelar apenas um respiro estatístico. A resposta só aparece nas próximas rodadas de pesquisa, quando o eleitor volta a ser ouvido nas ruas das mesmas cidades espalhadas pelo país.
