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Cratera na CE-025 mata motociclista e expõe fragilidade de obra recente

Um motociclista de 40 anos morre na madrugada desta segunda-feira (27) após cair em uma cratera que se abre de forma repentina na CE-025, entre Fortaleza e Aquiraz. O asfalto cede em meio a fortes chuvas, engole carros e motos e interrompe um dos principais acessos à área turística do Porto das Dunas, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Trecho inaugurado em 2020 desaba em minutos

O acidente ocorre em um segmento duplicado da rodovia estadual, entre a rotatória da Cofeco e o entroncamento com a Avenida Oceano Atlântico, próximo ao Beach Park. O ponto afetado fica na região do Porto das Dunas, a cerca de 2 quilômetros da rotatória de acesso ao parque aquático, em um trecho que recebe diariamente moradores, trabalhadores e turistas.

Segundo a Superintendência de Obras Públicas (SOP), a pista desaba no sentido Aquiraz–Fortaleza, em frente a um condomínio residencial localizado do outro lado da via. A cratera se abre ainda de madrugada, em meio à chuva intensa, e, poucos minutos depois, veículos que passam pelo trecho são surpreendidos pelo grande buraco na pista. Câmeras de segurança registram o momento em que carros e motos desaparecem dentro da estrutura rompida, em um cenário que lembra o colapso de uma ponte.

Alguns ocupantes conseguem sair dos veículos com ajuda de pessoas que chegam logo após o desabamento. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu Ceará) informa que é acionado por volta de 5h20. Ao chegar ao local, as equipes encontram parte dos veículos soterrada por terra, água e pedaços de asfalto. Uma das vítimas, o motociclista de 40 anos, está coberta pelo material e tem o óbito constatado ainda na cena do acidente.

Outras duas pessoas ficam feridas e recebem atendimento médico. A identidade do homem morto é confirmada como Ítalo Dantas da Silva. A morte de Ítalo, em uma via recém-duplicada, amplia a cobrança por respostas sobre a segurança da infraestrutura viária no Ceará em um período de chuvas fortes e recorrentes.

Obra de R$ 27 milhões sob investigação

O trecho onde o asfalto cede integra uma intervenção de 7,1 quilômetros, cuja ordem de serviço é assinada em 2017 e entregue em dezembro de 2020. A duplicação é realizada durante a gestão do então governador Camilo Santana, com investimento de R$ 27 milhões, sob responsabilidade da SOP. O projeto prevê pavimentação, revestimento asfáltico, drenagem, sinalização horizontal e vertical e proteção ambiental.

Na prática, a obra transforma a CE-025 em um corredor turístico. A via liga a Avenida Maestro Lisboa, em Fortaleza, às praias do Japão, Prainha e ao próprio Beach Park, um dos parques aquáticos mais visitados do País. O fluxo intenso de ônibus de excursão, vans, carros de aplicativo e veículos particulares justifica, à época, a duplicação das pistas e a ampliação da capacidade da rodovia.

A CE-025 já tinha um trecho duplicado desde 2012, na ligação entre a CE-040 (Avenida Washington Soares) e a rotatória da Cofeco. Com a entrega de 2020, as duas pistas de rolamento passam a ter 3,5 metros de largura cada, totalizando 7 metros, além de acostamento e calha central para escoamento de água. O colapso de parte dessa estrutura, menos de seis anos depois da conclusão, coloca sob pressão o modelo de planejamento e manutenção das rodovias estaduais em áreas de drenagem sensível.

Pela manhã, técnicos do governo do Estado se reúnem no local para uma avaliação emergencial. O gerente de manutenção e malha viária da SOP, Saullo Câmara, afirma que o órgão já abre uma investigação preliminar. “A gente teve um problema causado pelas chuvas”, diz o gestor, ao apontar uma possível falha de drenagem. Segundo ele, há suspeita de “escape nas manilhas” que deveriam conduzir a água sob a pista.

O laudo da perícia promete detalhar se o volume de chuva supera a capacidade do sistema projetado ou se há falhas de execução, manutenção ou dimensionamento. A SOP estima um prazo inicial de sete dias para a conclusão do relatório técnico, mas admite que a análise pode se estender. Enquanto isso, a cratera permanece isolada e reforça, visualmente, a vulnerabilidade da obra diante de eventos climáticos extremos que se tornam mais frequentes.

Trânsito desviado, turismo afetado e pressão por respostas

A interdição completa do trecho força um desvio articulado pela Polícia Rodoviária Estadual e pela SOP, com rotas alternadas pela CE-010 e pela CE-040, passando por dentro e por fora do município de Aquiraz. O desvio alonga o trajeto entre Fortaleza e o litoral leste, aumenta o tempo de viagem e provoca filas em horários de pico, especialmente em dias de maior movimento para o Beach Park e outras praias da região.

Moradores relatam dificuldade de acesso ao trabalho e a serviços essenciais em Fortaleza. Donos de pousadas e restaurantes, que ainda sentem os efeitos de períodos de baixa ocupação, temem cancelamentos de reservas e queda no fluxo de visitantes. Para turistas, a imagem de carros engolidos por uma rodovia recém-duplicada funciona como um alerta sobre riscos que vão além do trânsito pesado em fins de semana e feriados.

O governo do Estado informa que técnicos seguem no local para monitorar a estabilidade da estrutura remanescente e avaliar o entorno da rodovia. A gestão estadual também aciona equipes sociais para acompanhar famílias que moram nas proximidades e diz disponibilizar aluguel social, se houver necessidade de desocupação preventiva de imóveis ameaçados pela erosão da pista ou pela movimentação de solo.

Enquanto as investigações avançam, o episódio alimenta um debate mais amplo sobre a resiliência da infraestrutura frente às mudanças no regime de chuvas. A Funceme registra, entre a manhã de domingo (26) e esta segunda-feira (27), uma das maiores precipitações do período em um posto de Fortaleza, o que reforça o papel da chuva no desabamento. Especialistas em engenharia consultados por autoridades defendem, porém, que projetos de drenagem em rodovias estratégicas considerem cenários de chuva mais intensa e planos rígidos de manutenção.

O empreiteiro responsável pela obra classifica inicialmente o colapso como um “incidente estrutural”, em referência ao rompimento localizado da pista. A expressão técnica não reduz, contudo, a dimensão humana da tragédia. Ítalo Dantas da Silva, que sai de casa na madrugada para mais um deslocamento cotidiano, torna-se o personagem central de um acidente que poderia atingir qualquer usuário da via.

Reconstrução da pista e disputa por responsabilização

O governo promete agir em duas frentes simultâneas: reconstruir a rodovia e identificar responsabilidades. A SOP se compromete a entregar, em cerca de uma semana, um primeiro diagnóstico sobre a origem do problema, indicando se o foco está no projeto, na execução ou na manutenção da obra. A partir desse documento, o Estado deve definir se aciona empresas contratadas, revisa contratos ou redimensiona o sistema de drenagem da CE-025.

Além dos relatórios técnicos, o caso tende a chegar ao Ministério Público e aos órgãos de controle, interessados em apurar o uso de recursos públicos em intervenções que não resistem a poucos anos de operação. Entidades de engenharia e associações de moradores também articulam pedidos de transparência sobre a cadeia de responsabilidades que vai da assinatura da ordem de serviço, em 2017, à fiscalização cotidiana da rodovia.

As próximas semanas devem ser marcadas por obras emergenciais no local, com escavações, substituição de manilhas, reforço de taludes e recomposição do pavimento. A liberação total do tráfego no trecho ainda não tem prazo divulgado. Até lá, o desvio pela CE-010 e CE-040 continua como única opção segura para quem precisa circular entre Fortaleza e o litoral de Aquiraz.

O buraco aberto no asfalto da CE-025 expõe mais do que falhas pontuais de engenharia. A cratera escancara a distância entre a promessa de modernização de corredores turísticos e a garantia efetiva de segurança a quem depende dessas estradas. A resposta que o Estado der agora, em transparência, responsabilização e reforço da manutenção preventiva, indicará se a morte de Ítalo Dantas da Silva resulta apenas em mais uma estatística ou em uma mudança real na forma de planejar e cuidar das rodovias cearenses.

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