Esportes

Corinthians atrasa salários de maio e teme novo transfer ban na Fifa

O Corinthians atrasa pelo segundo mês seguido o pagamento dos salários do elenco profissional e da comissão técnica, referentes a maio de 2026. A crise de caixa expõe dívidas internacionais e coloca o clube sob risco de um novo bloqueio para registrar jogadores em meio à temporada.

Crise de caixa chega ao vestiário

Os salários de maio deveriam ter sido quitados até o último sábado, mas seguem em aberto e sem data para pagamento. A diretoria admite internamente a dificuldade para liberar receitas esperadas e orienta que o tema seja tratado como prioridade, na tentativa de encerrar o impasse ainda nesta semana.

O atraso atinge apenas o elenco principal e a comissão técnica. Os demais funcionários recebem normalmente, como ocorreu em maio, quando os vencimentos de abril saem com cinco dias de atraso para os jogadores, enquanto o restante do quadro segue em dia. A separação de tratamentos alimenta desconforto nos corredores do clube, onde a percepção é de que a área do futebol absorve quase todo o impacto da turbulência financeira.

A situação ocorre sob a presidência de Osmar Stábile, que assume o comando com a missão de reorganizar um passivo que se arrasta há anos. Os principais focos de pressão vêm de fora do país: dívidas com clubes dos Estados Unidos, Argentina e Dinamarca travam o planejamento esportivo e cercam o Corinthians de ameaças de sanções internacionais.

Transfer bans, dívidas e pressão internacional

O clube já convive com um transfer ban, espécie de bloqueio que impede o registro de novos jogadores por determinação da Fifa. A punição decorre de uma dívida de 2 milhões de dólares, cerca de R$ 10,34 milhões na cotação atual, com o Philadelphia Union, dos Estados Unidos, pela contratação do volante venezuelano José Martínez em agosto de 2024, na gestão de Augusto Melo. O jogador deixa o elenco no início desta temporada após episódios de indisciplina, mas a conta permanece inteira no Parque São Jorge.

Além do caso norte-americano, o Corinthians encara um prazo decisivo com o Talleres, da Argentina. O clube paulista tem até sexta-feira para quitar 7 milhões de dólares, aproximadamente R$ 36,3 milhões, referentes à compra do meia Rodrigo Garro em janeiro de 2024, também sob a presidência anterior. Internamente, o pagamento ao Talleres é tratado como a prioridade entre as dívidas de transferências, porque um novo calote pode ampliar o cerco da Fifa e prolongar ainda mais as restrições no mercado.

Para honrar esse compromisso, o Corinthians acerta um empréstimo com a empresa Outfield, no valor equivalente ao débito, parcelado em três anos e com juros de 1% ao ano mais CDI. A operação, porém, emperra nas garantias. Instituições financeiras pressionam para atuar como garantidoras do contrato, numa espécie de fiança que assegure o pagamento futuro. Até agora, o clube não consegue atender às exigências e vê o dinheiro travado às vésperas do vencimento.

O aperto se agrava com uma nova condenação na Corte Arbitral do Esporte (CAS). O tribunal determina outro transfer ban por causa de uma dívida de 800 mil euros, cerca de R$ 4,7 milhões, com o Midtjylland, da Dinamarca, pela contratação do volante Charles, fechada em meados de 2024. A diretoria tenta um acordo de parcelamento, mas não recebe respostas do clube dinamarquês, que prefere o silêncio. “O clube não pretende se manifestar sobre o assunto”, limita-se a afirmar um dirigente ouvido pela reportagem.

Os casos se acumulam na mesma prateleira: contratações feitas em sequência, em gestões recentes, sem a garantia de fluxo de caixa compatível com o tamanho das obrigações. Agora, o acerto com rivais estrangeiros é condição para que o Corinthians volte a operar com alguma liberdade no mercado e consiga reforçar um elenco já pressionado por resultados.

Impacto no elenco, na imagem e no planejamento

O atraso recorrente nos salários atinge diretamente a relação entre o clube e o vestiário. Jogadores e membros da comissão técnica convivem com a incerteza sobre o dia de pagamento, enquanto enfrentam maratonas de jogos e cobrança pública por desempenho. A sensação interna é de que a confiança se desgasta a cada mês de folha em aberto.

O risco de um bloqueio completo para inscrições amplia o dano. Um eventual endurecimento das punições da Fifa pode impedir o clube de registrar reforços em diferentes janelas de transferência, afetando competições nacionais e internacionais. Em termos práticos, o Corinthians corre o risco de entrar em campeonatos futuros com o elenco enfraquecido, sem reposições para lesões, suspensões e eventuais vendas.

A pressão também vem de fora do campo. Patrocinadores e parceiros observam a escalada de dívidas, os conflitos com clubes estrangeiros e a dificuldade para concluir operações de crédito. O clube tenta renegociar prazos e condições, mas esbarra na desconfiança do mercado financeiro, que exige garantias robustas antes de liberar novos recursos.

O quadro interno indica a necessidade de cortes. A direção avalia ajuste de orçamento, redução de gastos com contratações e maior aposta em atletas da base. A estratégia reduz a exposição imediata, mas envolve risco esportivo num momento em que a torcida cobra resultados e a margem para erro é pequena.

Próximos passos e incertezas

Os próximos dias são decisivos para o Corinthians em diferentes frentes. A diretoria corre para destravar o empréstimo com a Outfield e tentar quitar os 7 milhões de dólares com o Talleres até sexta-feira, ao mesmo tempo em que busca uma saída negociada com Philadelphia Union e Midtjylland para evitar novos ciclos de punições.

Dentro do clube, a promessa é de regularizar os salários de maio ainda nesta semana, desde que as receitas esperadas entrem em caixa. Em paralelo, o departamento jurídico monitora cada movimento da Fifa e do CAS, ciente de que qualquer atraso adicional pode resultar em mais um transfer ban e ampliar o isolamento do Corinthians no mercado internacional. A dúvida que permanece é quanto tempo o elenco e os credores aceitarão viver com a combinação de atraso de salários, promessas de acordos e um calendário esportivo que não espera pelo reequilíbrio das contas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *