Conselho do Corinthians expulsa Augusto Melo do quadro de sócios
O Conselho Deliberativo do Corinthians decide, na noite de 1º de junho de 2026, expulsar Augusto Melo do quadro de sócios do clube. O ex-presidente é responsabilizado por participação na invasão ao andar da presidência, associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro durante sua gestão.
Votação expressiva e pressão da arquibancada
No salão nobre do Parque São Jorge, 147 conselheiros votam pela expulsão de Augusto Melo, cinco se posicionam contra e quatro se abstêm. O placar quase unânime encerra, do ponto de vista interno, a trajetória de um dirigente que já havia sido destituído da presidência e tornado inelegível por dez anos.
Do lado de fora, a base social do clube pressiona. Torcedores comuns e integrantes de organizadas passam a tarde em frente à sede social, com faixas e cânticos que pedem a punição do ex-presidente. A Gaviões da Fiel se mobiliza nas redes e convoca corintianos a “mandar um recado” aos conselheiros, transformando uma sessão de conselho em ato público sobre a identidade do clube.
A sessão é marcada por discursos que retomam o episódio de 31 de maio de 2025, quando aliados de Augusto invadem a sala da presidência para tentar afastar o então presidente interino, Osmar Stabile. Conselheiros descrevem a cena como uma tentativa de golpe interno e cobram resposta institucional dura um ano depois. “Não se trata apenas de um dirigente, mas de um ataque ao estatuto e à história do Corinthians”, afirma um integrante do Conselho, durante a votação.
Da invasão ao impeachment: o ciclo de crise
A expulsão de Augusto Melo não nasce isolada. Em 31 de maio de 2025, o ex-presidente tenta retomar o comando do clube após ter sido afastado. Naquele dia, um grupo de apoiadores invade o andar da presidência no Parque São Jorge, força a entrada na sala do presidente e tenta destituir Stabile, que ocupava o cargo de forma interina.
No mesmo episódio, a conselheira Maria Angela Ocampos se declara presidente do Conselho Deliberativo, posto então ocupado por Romeu Tuma Júnior. Ela sustenta seu gesto em um pedido da Comissão de Ética que pedia o afastamento de Tuma, e argumenta que, com o primeiro vice-presidente em licença médica, caberia a ela assumir o comando do órgão. Tuma e Stabile rejeitam a manobra e a classificam como ilegítima.
A reação institucional vem em junho de 2025. A Comissão de Justiça do Conselho Deliberativo e o Cori divulgam uma carta aberta em que afirmam não ver respaldo estatutário para as medidas de Augusto e Maria Angela. O documento reforça que a Comissão de Ética é subordinada ao Conselho e lembra que Romeu Tuma Júnior não é formalmente notificado sobre qualquer afastamento. A crise política passa, então, a conviver com um conflito jurídico.
No mesmo dia da invasão, o advogado Leonardo Pantaleão, que assessora a gestão interina, registra boletim de ocorrência por constrangimento ilegal, cárcere privado, ameaça, injúria e tumulto. O caso entra na esfera policial e se soma ao desgaste provocado pelo escândalo do patrocínio da VaideBet, que, meses depois, embasa o processo de impeachment de Augusto.
Em 9 de agosto de 2025, os sócios do clube vão às urnas e confirmam o afastamento definitivo do presidente. São 1.413 votos a favor da destituição, 620 contrários, dois em branco e dois nulos. Além de perder o cargo, Augusto fica inelegível por dez anos. O principal fundamento é o caso VaideBet: o ex-mandatário e ex-dirigentes se tornam réus por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro, ligados à atuação do suposto intermediário do contrato, Alex Cassundé.
Durante o processo, defensores do impeachment acusam o então presidente de omissão diante de denúncias internas e reportagens sobre a intermediação do patrocínio. A gestão, que começa em janeiro de 2024 com promessa de renovação, termina encurralada por suspeitas criminais, denúncias de descontrole financeiro e confrontos abertos entre grupos políticos.
Entre 2024 e maio de 2025, o Corinthians contrata 21 jogadores e vê a dívida crescer de R$ 1,9 bilhão para R$ 2,5 bilhões. Em campo, evita o rebaixamento no Brasileiro de 2024 na reta final e garante vaga na Libertadores, mas cai para o Barcelona de Guayaquil na terceira fase. Em 2025, conquista o Campeonato Paulista sobre o Palmeiras, mas troca de treinador quatro vezes, com passagens de Mano Menezes, António Oliveira, Ramón Díaz e Dorival Júnior.
Impacto político, financeiro e de imagem
A decisão desta noite encerra a relação formal entre o Corinthians e o dirigente que comandou o clube por pouco mais de um ano. A expulsão do quadro de sócios impede Augusto de frequentar espaços sociais como associado, participar de votações futuras ou voltar a ocupar qualquer cargo eletivo, mesmo após o fim do período de inelegibilidade definido no impeachment.
Conselheiros que defendem a punição argumentam que o gesto tem caráter pedagógico. O caso fica marcado como um limite para ações consideradas golpistas e para a mistura de interesses pessoais com a estrutura do clube. Ao ligar a expulsão às acusações criminais e ao episódio da invasão, o Conselho tenta reconstruir a mensagem de que a instituição não tolera práticas que fragilizem sua governança.
O movimento também busca responder à base de torcedores, que acompanha a crise com desconfiança prolongada. A escalada da dívida, de R$ 1,9 bilhão para R$ 2,5 bilhões em pouco mais de um ano, vira símbolo de um período de gastos agressivos sem contrapartida sustentável. A turbulência política se soma a campanhas irregulares em campo, e o clube passa a conviver com a imagem de gigante em crise permanente.
O desgaste extrapola o Parque São Jorge. As ações judiciais que envolvem Augusto Melo seguem em curso e mantêm o nome do Corinthians atrelado a investigações por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro. Cada avanço nesses processos reabre o debate sobre a responsabilidade de conselheiros e dirigentes na fiscalização da gestão, mesmo após a saída do ex-presidente.
Dentro do clube, a votação pressiona outros nomes ligados ao episódio de maio de 2025. Maria Angela Ocampos, primeira-secretária do Conselho Deliberativo, e os integrantes da Comissão de Ética Mario Mello Junior, Paulo Juricic e Ronaldo Fernandez Tomé também respondem a processos internos e podem ser expulsos do Conselho. A tendência é de que o mesmo padrão de punição se estenda ao grupo que, na avaliação de parte dos conselheiros, tentou romper a linha sucessória estabelecida pelo estatuto.
Próximos passos e disputa por reconstrução
Os desdobramentos imediatos se concentram em duas frentes. No campo interno, o Conselho Deliberativo precisa concluir os processos contra Maria Angela e os demais integrantes da Comissão de Ética envolvidos na invasão. A eventual expulsão em série redesenha o mapa de forças do clube e abre espaço para uma renovação de quadros em comissões estratégicas.
No campo externo, as atenções se voltam aos processos criminais que envolvem a gestão de Augusto Melo, incluindo o caso VaideBet. Cada nova audiência amplia o escrutínio sobre contratos, decisões financeiras e o papel de intermediários no futebol. A diretoria atual tenta, ao mesmo tempo, recolocar o Corinthians em rota de estabilidade, renegociar dívidas e blindar o departamento de futebol de interferências políticas.
A expulsão do ex-presidente funciona como um marco simbólico de ruptura com um ciclo de improviso, suspeitas e confrontos internos. O clube que se orgulha de ser “democrático” busca mostrar que reage quando enxerga ameaças à sua própria estrutura. A pergunta que permanece, no entanto, é se a punição de um dirigente e de seus aliados basta para mudar a cultura de poder que levou o Corinthians a esta encruzilhada.
