Confronto entre dissidências das Farc deixa 52 mortos às vésperas da eleição
Confrontos entre duas facções dissidentes das Farc deixam 52 mortos na selva colombiana nesta quinta-feira (28). A batalha ocorre a três dias da eleição presidencial, amplificando a tensão política no país.
Escalada de violência em região estratégica
Os combates se concentram na selva do departamento de Guaviare, nas proximidades da vila de Barranco Colorado, uma área de difícil acesso e marcada pela presença histórica de grupos armados. A informação sobre as 52 mortes parte de um comunicado divulgado por uma das facções envolvidas nos confrontos, que reivindica o controle do território. O número, até o momento, não recebe confirmação oficial do governo colombiano.
As dissidências em choque são lideradas por dois dos comandantes mais conhecidos do cenário guerrilheiro atual. De um lado, está o grupo comandado por Néstor Gregório Vera, conhecido como Iván Mordisco, que rompe com o acordo de paz firmado em 2016. Do outro, a facção chefiada por Alexandre Díaz Mendoza, o Calarca Córdoba, disputa rotas e zonas de influência na região amazônica. A selva de Guaviare volta a ser palco de batalhas internas que lembram os períodos mais duros do conflito armado colombiano.
O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, confirma em suas redes sociais que há combates na área e afirma que o Exército atua na região. “Enviamos tropas para proteger a população civil em Guaviare e garantir a segurança às vésperas das eleições”, declara. Nem o ministério nem as Forças Armadas, porém, informam quantos mortos ou feridos resultam da ofensiva. A agência Reuters relata que não consegue verificar de forma independente o número de 52 vítimas apontado pelo grupo guerrilheiro.
A disputa territorial em Guaviare tem caráter estratégico. A região funciona como corredor para o tráfico de drogas, extração ilegal de recursos naturais e mobilização de combatentes entre o centro e a fronteira sul do país. O controle desses espaços garante financiamento, poder de fogo e capacidade de pressão política. A reativação de grandes confrontos nessa área mostra o grau de reorganização das dissidências que não aderem, ou rompem, com o processo de paz.
Tensão política às vésperas do voto
O episódio ocorre a apenas três dias do primeiro turno da eleição presidencial, marcado para domingo (31), e altera o clima da reta final da campanha. Segurança pública, presença do Estado em zonas rurais e futuro do processo de paz já ocupam lugar central nos debates entre candidatos. O banho de sangue em Guaviare reforça, com números concretos, a percepção de que a Colômbia ainda convive com bolsões de guerra longe da capital.
Líderes políticos usam as primeiras horas após a divulgação dos confrontos para ajustar seus discursos. Setores mais duros, ligados à linha de enfrentamento militar direto, cobram respostas rápidas e maior presença das Forças Armadas em áreas de selva. Defensores da negociação insistem que o avanço das dissidências é sintoma de um processo de paz incompleto, sem garantias suficientes de reintegração econômica e social para ex-combatentes e comunidades vulneráveis.
Em regiões como Guaviare, famílias vivem mais uma vez sob ameaça. Comunidades rurais relatam medo de ficar presas no fogo cruzado e temem novos deslocamentos forçados, fenômeno que marca a história recente do país. Organizações humanitárias acompanham à distância e alertam para o risco de expansão da violência para vilas próximas, caso os confrontos se prolonguem pelos próximos dias.
O impacto internacional também é imediato. A notícia circula em redações e chancelarias que observam a eleição colombiana como termômetro da estabilidade regional. A imagem de um país que ainda luta para consolidar a paz em áreas rurais contrasta com o discurso de normalização institucional em Bogotá. A repetição de episódios como este pode pesar na confiança de investidores e organismos multilaterais que condicionam apoio financeiro à redução sustentada da violência política.
Desafios para o governo e incertezas no horizonte
A resposta do governo nas próximas horas se torna decisiva. O envio de tropas, anunciado por Pedro Sánchez, busca conter novos confrontos e garantir a instalação de seções eleitorais em zonas críticas. Qualquer falha na proteção a civis, a mesários e a observadores internacionais alimenta questionamentos sobre a capacidade do Estado de assegurar um pleito livre de intimidação armada.
O alto número de mortos relatado pelas facções dissidentes expõe a dificuldade do governo em monitorar, em tempo real, o que ocorre em áreas remotas como Guaviare. A ausência de dados oficiais detalhados abre espaço para versões concorrentes e para a exploração política do episódio. Candidatos devem pressionar por transparência, enquanto organizações da sociedade civil pedem investigações independentes e acesso de missões humanitárias às zonas de combate.
Em médio prazo, o confronto entre os grupos de Iván Mordisco e Calarca Córdoba tende a redesenhar o mapa de controle armado no sul do país. A facção que prevalecer em Guaviare ganha não apenas território, mas capacidade de negociação com outros atores ilegais e peso nas futuras conversas sobre desmobilização. Comunidades locais, por sua vez, se veem diante de um cenário em que mudanças de comando significam novas regras impostas por grupos armados, com impacto direto em economia, circulação e vida cotidiana.
Às vésperas da votação de 31 de maio de 2026, a Colômbia entra no fim de semana eleitoral com mais perguntas do que respostas. A principal delas recai sobre o próximo governo, qualquer que seja o vencedor: como transformar acordos assinados em paz concreta nas regiões onde a guerra nunca termina?
