Flávio Bolsonaro vai aos EUA, encontra Trump e busca fôlego na direita
Flávio Bolsonaro passa quatro dias nos Estados Unidos, entre 24 e 28 de maio de 2026, para se encontrar com Donald Trump e figuras da direita americana. A viagem, sem caráter oficial e sem custos para o Senado, vira aposta para tentar reposicionar sua pré-campanha presidencial em meio à crise política no Brasil.
Encontro em Washington e recado político
O senador desembarca nos EUA no domingo, 24, e reserva a terça-feira, 26, para a reunião na Casa Branca. Ele afirma que o convite parte do governo Trump e apresenta o gesto como sinal de prestígio internacional. O gabinete do senador comunica ao Senado, por ofício protocolado em 21 de maio, que ele ficará fora do país de domingo até quinta-feira, 28, seguindo o regimento interno da Casa.
O encontro com Trump tem peso simbólico imediato. Flávio tenta colar sua imagem à do ex-presidente americano em um momento de desgaste nas pesquisas e de pressão sobre sua relação com o ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro. Ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro e do comentarista Paulo Figueiredo, ele circula por ambientes ligados à ala ideológica da direita americana, em busca de fotos, declarações de apoio e uma narrativa de alinhamento conservador.
No governo Lula, auxiliares do Planalto classificam o gesto como tentativa de “tietagem” e defendem não reagir de forma ostensiva. A avaliação é que a reunião não rivaliza com a visita oficial de Lula a Trump no início do mês, que envolve agenda econômica e diplomática mais extensa. Ainda assim, o Planalto admite, em conversas reservadas, que a imagem de um pré-candidato brasileiro com o republicano mais influente do mundo rende capital político à direita.
Dúvidas sobre caráter da viagem e cálculo eleitoral
A forma como a viagem é organizada expõe ruídos em Brasília. O Itamaraty estranha o rito e não libera o uso da Embaixada do Brasil em Washington para uma coletiva de imprensa. A equipe de Flávio faz o pedido por e-mail, sem acionar as assessorias parlamentares do Congresso nem a própria chancelaria em Brasília, o que acende dúvidas sobre o caráter da missão. Oficialmente, o Senado confirma apenas que o senador comunicou a ausência, sem registro de agenda institucional.
Ao insistir que não há ônus para o Senado nem missão oficial, Flávio tenta se blindar de acusações de uso indevido de recursos públicos. A narrativa é simples: trata-se de uma agenda política, bancada pelo próprio entorno do pré-candidato, focada em construir pontes com a direita americana. A estratégia também busca afastar o risco de conflito com a diplomacia brasileira, hoje comandada por um governo de orientação oposta à de Trump.
No plano eleitoral, a viagem funciona como resposta rápida à crise doméstica. A relação com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, pressiona o senador, alimenta ataques de adversários e ajuda a explicar a queda nas pesquisas. Em vez de recuar da cena pública, Flávio aposta em uma vitrine internacional. A foto com Trump, acompanhada de encontros com nomes como o secretário de Estado Marco Rubio, serve como mensagem ao eleitorado conservador de que ele continua próximo do núcleo duro da direita global.
A crítica de governistas explora esse ponto. Aliados de Lula afirmam, nos bastidores, que o senador se comporta como “fã” e “subserviente” à agenda de Trump, sem apresentar propostas claras para o Brasil. O cálculo, para eles, é mais de marketing do que de política externa. A base bolsonarista, por outro lado, vê na viagem um gesto de continuidade do projeto iniciado com Jair Bolsonaro, que também cultivou proximidade com o republicano durante seu mandato.
Repercussão no Brasil e próximos movimentos
O retorno de Flávio ao Brasil está previsto para antes do fim de semana, ainda em maio. A ideia é aterrissar já com uma sequência de atos públicos planejados. Na sexta-feira, 29, ele participa em Curitiba do lançamento da pré-candidatura de Sergio Moro, do PL, ao governo do Paraná. A presença ao lado do ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro, porém, expõe fissuras na própria direita. Parte do eleitorado bolsonarista ainda não perdoa Moro pela saída do Ministério da Justiça, em abril de 2020, sob acusações de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal.
O evento em Curitiba também marca o lançamento das pré-candidaturas de Deltan Dallagnol, do Novo, e Filipe Barros, do PL, ao Senado pelo Paraná. A cena reúne figuras que simbolizam, para diferentes segmentos da direita, o combate à corrupção e o enfrentamento ao PT. Ao somar o encontro com Trump à foto com Moro, Dallagnol e Barros, Flávio tenta construir uma imagem de líder capaz de unir essas diversas correntes conservadoras em torno de seu nome em 2026.
Na prática, a viagem aos EUA oferece mais munição para o debate sobre influência externa na política brasileira. A proximidade com a direita americana reacende questionamentos sobre até que ponto alianças internacionais moldam estratégias de campanha no país. Adversários devem explorar o tema para associar o senador a agendas estrangeiras, enquanto ele tende a reagir dizendo que busca apenas referências de governos alinhados a seus valores.
As próximas semanas dirão se o efeito Trump se traduz em números. Pesquisas encomendadas por partidos e institutos privados devem medir o impacto da imagem de Flávio ao lado do ex-presidente americano sobre a intenção de voto. Se o movimento render ganhos, outros pré-candidatos podem intensificar agendas fora do país. Se não alterar o cenário, a viagem corre o risco de ser lembrada apenas como uma aposta de alto risco em meio a uma campanha já marcada por crises e desconfianças.
