Ultimas

Colômbia vota presidência sob tensão e disputa acirrada

A Colômbia vai às urnas neste domingo, 31 de maio de 2026, em uma eleição presidencial marcada por tensão, violência política e desconfiança institucional. A disputa opõe projetos rivais de país e coloca no centro da cena figuras como o senador de esquerda Iván Cepeda, o advogado e influenciador conservador Abelardo de la Espriella e a senadora de direita Paloma Valencia.

Uma escolha em meio à violência e à fadiga democrática

O voto deste domingo encerra uma campanha curta, agressiva e dominada pelo medo da escalada de violência em regiões-chave. Nos últimos três meses, observatórios independentes registram dezenas de ameaças e ataques contra lideranças locais, em um país que ainda convive com grupos armados, narcotráfico e ocupação irregular de territórios antes dominados pelas Farc.

Iván Cepeda, conhecido por sua atuação em defesa dos acordos de paz de 2016 e por enfrentar o ex-presidente Álvaro Uribe, se apresenta como o candidato da continuidade do processo de paz e da ampliação de políticas sociais. Abelardo de la Espriella tenta canalizar o voto conservador urbano e promete “mão dura sem complexos” contra o crime organizado. Paloma Valencia, herdeira política do uribismo, aposta em um discurso de segurança máxima e crítica dura às negociações com grupos armados.

A disputa se concentra na capacidade de cada um convencer um eleitorado descrente. Pesquisas divulgadas nas últimas semanas apontam taxa de desaprovação acima de 60% para o governo atual e mais de 40% dos eleitores indecisos ou inclinados à abstenção. O resultado é uma eleição em que pequenos movimentos de última hora podem definir quem avança fortalecido para o próximo ciclo político.

Analistas em Bogotá descrevem o pleito de 2026 como o mais tenso desde o referendo de paz de 2016. “A Colômbia vota entre o medo da volta ao conflito aberto e o cansaço com promessas não cumpridas de transformação social”, resume um cientista político da Universidade Nacional. O clima nas grandes cidades combina campanha intensa nas redes sociais com um visível aumento de policiamento nas ruas.

Modelos de país em choque e efeitos na região

O embate entre Cepeda, de la Espriella e Valencia não se limita à retórica. Em jogo estão modelos opostos de segurança, economia e relação com a América Latina. Cepeda promete ampliar a implementação dos acordos de paz, fortalecer a Justiça de transição e redirecionar recursos para zonas rurais marcadas pela pobreza extrema. Defende um imposto mais progressivo e maior presença do Estado na regulação de setores estratégicos.

De la Espriella constrói sua candidatura em torno da promessa de crescimento rápido, com redução de impostos para empresas, flexibilização trabalhista e endurecimento penal. Em discursos recentes, afirma que “sem ordem não há desenvolvimento” e se alinha a governos conservadores da região. Paloma Valencia, por sua vez, mistura defesa intransigente da propriedade privada com propostas de ampliar o orçamento das Forças Armadas e revisar pontos sensíveis dos acordos de paz.

Diplomatas em Brasília, Buenos Aires e Washington acompanham a eleição de perto. A Colômbia é o terceiro país mais populoso da América Latina, com cerca de 52 milhões de habitantes, e recebe mais de US$ 800 milhões por ano em cooperação internacional voltada para segurança e combate às drogas, segundo dados oficiais recentes. Mudanças bruscas na orientação do próximo governo podem redesenhar alianças regionais e afetar negociações comerciais.

Organismos multilaterais alertam para o risco de que um pleito marcado por episódios de violência reduza a confiança externa. Missões de observação eleitoral da OEA e da União Europeia destacam que a integridade da votação será fundamental para manter investimentos e linhas de crédito essenciais para um país com desigualdade persistente e crescimento previsto em torno de 2% em 2026.

Nas periferias de Bogotá e Medellín, a campanha se traduz em preocupações diretas com emprego, segurança e custo de vida. Pequenos comerciantes relatam queda nas vendas e aumento da sensação de insegurança. “A gente vota esperando que, desta vez, alguém olhe para os bairros e não só para o centro”, diz uma vendedora ambulante de 38 anos na capital colombiana.

Urnas, incerteza e o dia seguinte ao resultado

O governo promete garantir a segurança do processo com o envio de milhares de policiais e militares a zonas consideradas críticas, especialmente nos departamentos de Cauca, Nariño e Catatumbo. O Tribunal Nacional Eleitoral afirma que a apuração preliminar sai ainda na noite de domingo e projeta participação próxima a 55% do eleitorado, patamar semelhante ao da eleição anterior.

Os comandos de campanha se organizam para contestar qualquer indício de irregularidade. Advogados ligados a Abelardo de la Espriella prometem recorrer a todas as instâncias em caso de suspeita de fraude. Aliados de Iván Cepeda reforçam a mobilização de observadores voluntários em seções vulneráveis a compra de votos. O grupo de Paloma Valencia prepara comunicados e equipes jurídicas para responder rapidamente a denúncias e decisões da Justiça.

O dia seguinte à eleição tende a ser tão decisivo quanto o próprio domingo de votação. Negociações por alianças no Congresso devem começar em poucas horas, já que nenhum campo político controla sozinho a maioria parlamentar. Governadores e prefeitos de cidades estratégicas avaliam o novo mapa de poder para redefinir prioridades em segurança, infraestrutura e programas sociais.

O próximo presidente assume em meio a um calendário apertado. Até o fim de 2027, o país precisa cumprir metas de redução de homicídios, revisar políticas de erradicação de cultivos ilegais e avançar na reforma do sistema de justiça, exigência antiga de entidades de direitos humanos. A forma como Iván Cepeda, Abelardo de la Espriella ou Paloma Valencia vão responder a esse conjunto de pressões começa a ser definida hoje, nas urnas. A dúvida que permanece é se o resultado trará mais estabilidade ou abrirá uma nova fase de conflito político em um país que ainda busca consolidar sua democracia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *