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Irã acusa Trump de minar acordo nuclear ao endurecer exigências

O governo iraniano acusa Donald Trump de minar as negociações sobre o acordo nuclear ao impor novas exigências duras em publicações nas redes sociais em maio de 2026. O assessor Mohsen Rezaie afirma que Washington busca “outros objetivos” ao condicionar o fim do bloqueio naval à abertura total do Estreito de Ormuz e à promessa de que Teerã jamais terá uma arma nuclear.

Exigências públicas e reação em Teerã

Donald Trump volta a usar suas redes sociais como arena diplomática. Em uma série de posts, o presidente dos Estados Unidos diz que o Irã “deve concordar que nunca terá uma arma nuclear ou bomba”. Ele exige ainda que o Estreito de Ormuz seja “imediatamente aberto” a todo o tráfego marítimo, sem pedágios nem restrições, e que as minas atribuídas ao Irã na hidrovia sejam “eliminadas”.

As mensagens circulam enquanto equipes americanas e iranianas discutem, por meio de mediadores, um memorando de entendimento para tentar encerrar anos de impasse nuclear. Trump sinaliza que está disposto a suspender o bloqueio dos EUA aos portos iranianos, mas vincula o gesto ao pacote de condições anunciado em público. O gesto acende o alerta em Teerã.

“Como previsto, o presidente dos Estados Unidos está traindo a diplomacia pela terceira vez”, reage Mohsen Rezaie, assessor do líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. No sábado, ele publica no X que Washington ataca o Irã “duas vezes” durante as negociações: ao manter o bloqueio naval e ao elevar a fasquia das exigências em plena fase final de acertos.

Para Rezaie, a ofensiva de Trump desmonta a ideia de compromisso. “Ao manter o bloqueio naval e fazer exigências excessivas nas negociações, ele provou mais uma vez que não está inclinado à negociação e que está buscando outros objetivos”, escreve. A crítica ecoa entre setores conservadores em Teerã, que veem nas condições americanas uma tentativa de impor uma rendição política disfarçada de acordo técnico.

Núcleo da disputa: bombas, bloqueio e Ormuz

O ponto mais sensível é o compromisso exigido por Washington de que o Irã jamais terá uma arma nuclear. Oficiais iranianos repetem que o país não busca a bomba e que uma fatwa, decreto religioso do próprio líder supremo, proíbe esse tipo de armamento. Ao ser colocado em letras maiúsculas nas redes de Trump, o tema ganha contornos de ultimato.

Outro foco de atrito é o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. O presidente americano cobra que a passagem seja “imediatamente aberta”, sem qualquer tipo de pedágio ou restrição imposta por Teerã. Para o Irã, esse tipo de exigência fere sua soberania sobre águas territoriais e reduz uma das poucas cartas de pressão que o país ainda controla na região.

As minas navais mencionadas por Trump completam o quadro. Nos últimos anos, episódios de navios danificados e acusações mútuas transformam a hidrovia em símbolo da disputa. Ao exigir a remoção das minas atribuídas ao Irã, Washington tenta zerar o risco militar na rota. Em troca, acena com o relaxamento do bloqueio aos portos iranianos, que há anos restringe o comércio de petróleo e produtos básicos, pressionando uma economia já frágil.

Em Teerã, negociadores tentam manter o processo vivo, mesmo sob pressão. “As negociações com os EUA estão em andamento e ainda existem pequenas divergências”, afirma Saeed Ajorloo, membro da equipe iraniana. Ele diz na TV estatal que, se o texto final for aprovado, haverá uma fase de 60 dias de diálogo para detalhar ponto por ponto o que foi acordado. A fala é reforçada pelo principal negociador do Irã, Mohammad Bagheri Ghalibaf, que republica a entrevista.

Tensão regional e impacto sobre energia

A escalada verbal ocorre em uma das rotas mais estratégicas do planeta. Qualquer incerteza em relação ao Estreito de Ormuz impacta o humor dos mercados de energia. Em ocasiões anteriores de tensão entre Washington e Teerã, o simples risco de bloqueio parcial elevou o preço do barril em vários dólares em poucos dias, alimentando inflação em países dependentes de importação de combustíveis.

Ao acusar os EUA de minar as negociações, Teerã também envia um recado à região. Aliados de Washington, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, acompanham de perto o desfecho, preocupados com o equilíbrio militar no Golfo Pérsico. Rivais do Ocidente, como Rússia e China, enxergam espaço para aprofundar laços com o Irã caso o acordo com os americanos naufrague.

Internamente, Trump fala para sua base política. O endurecimento público das condições permite que ele afirme, diante de críticos no Congresso, que não cede em temas sensíveis como desarme nuclear e livre navegação. No Irã, a retórica agressiva reforça grupos que defendem postura mais dura e resistem a qualquer concessão que pareça humilhante.

A combinação de exigências máximas, bloqueio mantido e ofensas cruzadas aumenta o risco de erro de cálculo. Um incidente militar no Golfo, um navio atingido ou um exercício mal interpretado podem rapidamente transformar a negociação tensa em crise aberta. Diplomatas envolvidos no processo alertam, reservadamente, que cada nova declaração pública de Trump torna mais difícil o trabalho das equipes técnicas nos bastidores.

Negociação em aberto e incerteza prolongada

Apesar da troca de acusações, as duas partes mantêm a mesa de negociação por meio de mediadores. O roteiro desenhado por Ajorloo prevê, primeiro, a aprovação de um texto político e, depois, 60 dias de conversas detalhadas sobre inspeções, cronogramas e contrapartidas econômicas. Esse período deve definir, por exemplo, como e quando o bloqueio aos portos iranianos seria suspenso e que tipo de monitoramento internacional acompanharia o programa nuclear.

Cada dia de atraso prolonga a incerteza sobre o fluxo de petróleo pelo Golfo e sobre a estabilidade de uma região marcada por conflitos em série. Sem um acordo, o Irã permanece sob sanções pesadas, e os Estados Unidos seguem com uma presença militar robusta em uma área onde qualquer faísca pode ter efeitos globais. A pergunta que permanece, diante das últimas exigências de Trump, é se ainda há espaço político em Washington e em Teerã para um compromisso que desarme a crise sem humilhar nenhum dos lados.

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