Carlo Petrini, fundador do Slow Food, morre aos 76 anos na Itália
Carlo Petrini, jornalista gastronômico italiano e fundador do movimento Slow Food, morre nesta quinta-feira (21), aos 76 anos, na cidade de Bra, no norte da Itália. A organização que ele criou anuncia a morte, mas não informa a causa. A ausência repentina de detalhes aumenta a comoção em torno de uma figura que redefine a relação do planeta com o próprio prato.
Do protesto em Roma a uma rede em 160 países
Petrini transforma um gesto de resistência local em Roma, em 1986, em um fenômeno global. Naquele ano, ele lidera um protesto contra a abertura do primeiro McDonald’s na Itália, instalado no centro histórico da capital, a poucos metros da Piazza di Spagna. A cena de panfletos, pratos de massa e vinho servido na rua sintetiza a mensagem que ele repete por quatro décadas: a pressa da comida industrial ameaça culturas, territórios e saúde.
Desse embrião nasce o Slow Food, organização que defende comida de qualidade, produzida com respeito ao meio ambiente, aos produtores e aos consumidores. A entidade informa que, ao longo de 40 anos, se espalha por mais de 160 países e conecta milhares de comunidades de agricultores, pescadores, artesãos, cozinheiros e ativistas. “Petrini deu vida a um movimento global enraizado nos valores de comida boa, limpa e justa para todos”, afirma a Slow Food em comunicado.
O jornalista preside a organização até 2022. Nos últimos anos, ele revela um diagnóstico de câncer de próstata, mas mantém intensa agenda pública, dividida entre encontros com agricultores, participação em eventos internacionais e articulações políticas em defesa de sistemas alimentares mais sustentáveis. A causa da morte, porém, não é divulgada.
Nascido em 1949, na mesma Bra onde morre, Petrini cresce em uma região moldada pela viticultura e pelos pequenos produtores de queijo e embutidos. O território do Piemonte, que inspira sua militância, torna-se laboratório do que ele prega: gastronomia como síntese de cultura, economia e ecologia. Nas entrevistas, insiste que comer é “um ato agrícola e político”.
Um líder que aproxima campo, cozinhas e palácios
O impacto da morte atinge ao mesmo tempo cozinhas estreladas, cooperativas rurais e gabinetes de governo. Petrini constrói pontes improváveis. Ele se aproxima de chefs que hoje são celebridades globais, mas recusa a ideia de alta gastronomia desconectada do campo. Defende que restaurante de prestígio só faz sentido se remunerar bem quem planta, pesca e cria.
Ele também conversa com o poder institucional. Amigo pessoal do rei Charles III, do Reino Unido, Petrini compartilha com o então príncipe a defesa da agricultura orgânica e da preservação de variedades tradicionais de sementes. Os dois se encontram em diferentes ocasiões desde os anos 1990, quando a agenda ambiental ainda ocupa espaço marginal nas políticas agrícolas europeias.
A morte ocorre em um momento em que o debate sobre segurança alimentar e crise climática se torna mais urgente. Em 2026, secas prolongadas, enchentes e a disparada dos preços de alimentos empurram governos a rever subsídios agrícolas e cadeias de abastecimento. Petrini passa anos alertando para esse cenário. Em palestras recentes, ele descreve a combinação de monoculturas extensivas, perda de biodiversidade e fome crescente como “um colapso anunciado”.
O discurso do Slow Food, que por muito tempo parece utopia de nicho, ganha densidade econômica. Ao estimular mercados locais, feiras de produtores e compras públicas de alimentos orgânicos para escolas, o movimento influencia leis e programas em diferentes países da Europa e da América Latina. Prefeituras e governos estaduais usam conceitos criados por Petrini para reformular merendas escolares e políticas de abastecimento, invertendo prioridades antes voltadas ao ultraprocessado barato.
Legado em disputa na era da comida ultrarrápida
A morte de Petrini abre uma disputa simbólica em um mercado dominado por aplicativos de entrega, redes de fast food e alimentos prontos. A ideia de “comida lenta” contrasta com o cotidiano de refeições em 15 minutos, embaladas em plástico e mediadas por algoritmos. Para a Slow Food, esse contraste não enfraquece o legado. “Ele conectou comunidades, agricultores, artesãos da gastronomia, cozinheiros, ativistas e jovens em todo o mundo”, destaca a nota da entidade, que reforça o compromisso com a agenda traçada pelo fundador.
Na prática, essa agenda mexe com diferentes interesses. Grandes produtores de grãos e frigoríficos veem com desconfiança propostas de transição agroecológica que reduzam o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos. Pequenos agricultores, povos tradicionais e cooperativas de orgânicos, por outro lado, ganham visibilidade e novos mercados à medida que o discurso de Petrini penetra na mídia, em universidades e nos cardápios de grandes restaurantes.
O movimento também influencia consumidores urbanos, que passam a associar origem dos alimentos a temas como trabalho digno, preservação ambiental e cultura local. Essa mudança de percepção reforça nichos de mercado para produtos de maior valor agregado, mas expõe o desafio de garantir acesso amplo a comida saudável, em um planeta onde mais de 700 milhões de pessoas ainda enfrentam fome crônica, segundo estimativas recentes de agências internacionais.
Sem o fundador, a Slow Food se apoia na estrutura construída desde os anos 1980, que inclui universidades dedicadas à gastronomia, centros de formação de jovens agricultores e eventos internacionais como o Terra Madre, realizado periodicamente em Turim. A organização insiste que o projeto é coletivo e não depende de uma figura única, mesmo reconhecendo o peso da liderança carismática de Petrini.
Um futuro de comida mais justa em um mundo em crise
O desaparecimento de Carlo Petrini deixa um vazio no ativismo alimentar, mas também consolida sua trajetória como referência. Sua morte em Bra, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, reforça a convicção que ele carrega por décadas: a transformação global começa em territórios pequenos, onde produtores conhecem pelo nome quem compra sua colheita.
As próximas etapas do movimento passam pela capacidade de adaptar o ideário do Slow Food a um cenário de inflação de alimentos, avanço de desertos verdes e concentração de terras. Jovens chefs, agricultores e ativistas que se inspiram em Petrini agora assumem o protagonismo em debates sobre transição ecológica, políticas de compras públicas e combate à fome. A pergunta que permanece, às vésperas de uma década decisiva para o clima e para a alimentação, é se o mundo conseguirá, enfim, desacelerar o suficiente para garantir comida boa, limpa e justa para todos.
