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Brasil expulsa adido dos EUA e eleva crise após retirada de delegado

O governo Lula expulsa do Brasil o adido civil americano Michael William Myers e recua de suspender as credenciais de um segundo agente dos EUA, em reação à retirada do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho do território americano, na semana de 24 a 25 de abril de 2026.

Crise aberta entre aliados estratégicos

O gesto brasileiro marca o ponto mais tenso da relação com Washington desde o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto. A decisão atinge diretamente a cooperação policial entre os dois países, pilar da parceria nas áreas de imigração, combate ao crime organizado e tráfico internacional. No Itamaraty, diplomatas tratam o episódio como crise séria, embora ainda controlável.

A reação começa depois que os Estados Unidos anunciam, em 20 de abril, a expulsão de Marcelo Ivo, delegado da PF lotado em Miami, na Flórida. Ele atua como oficial de ligação junto ao ICE, a polícia de imigração americana, desde antes de 2024. O Departamento de Estado acusa o brasileiro de tentar “manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.

O comunicado sai em um tuíte do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, reproduzido pela embaixada dos EUA, enquanto Lula cumpre agenda na Europa. A divulgação pública, em tom duro, surpreende o Palácio do Planalto e a chancelaria. Para auxiliares do presidente, o recado rompe a discrição habitual em disputas dessa natureza e expõe o governo brasileiro a constrangimento internacional.

Em Brasília, o texto ganha rapidamente contornos políticos. O caso envolve o ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin no governo Jair Bolsonaro. Condenado a 16 anos de prisão por participação na trama golpista de 8 de janeiro e considerado foragido, Ramagem foge para a Flórida com passaporte diplomático, depois cancelado. Marcelo Ivo compartilha informações com o ICE, o que leva à prisão do ex-parlamentar por questões migratórias. Ramagem alega perseguição e pede asilo político.

A reação da direita bolsonarista, que celebra o enquadramento do delegado brasileiro, reforça a percepção de que a expulsão ganha contorno ideológico em Washington. Integrantes do governo Lula passam a enxergar pressão de opositores brasileiros sobre uma ala do Departamento de Estado considerada hostil ao petista desde a campanha de 2022.

Reciprocidade, recuo parcial e disputa de narrativas

Na terça-feira, 21 de abril, Lula, o chanceler Mauro Vieira e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se reúnem na Alemanha para tratar do caso. Em entrevistas, eles falam em responder com “reciprocidade”. No jargão diplomático, a expressão costuma significar medidas na mesma intensidade e natureza. No governo, ganha contorno político: não deixar sem resposta a expulsão sumária de um delegado brasileiro.

Em Brasília, a engrenagem diplomática entra em ação. Na tarde do dia 21, Cristiano Figueroa, diretor do Departamento de América do Norte do Itamaraty, convoca a ministra-conselheira da embaixada dos EUA, Kimberly Kelly. A interlocutora americana confirma, sem rodeios, que Marcelo Ivo está expulso. Ouve também que o Brasil reagirá na mesma moeda.

O alvo escolhido é Michael William Myers, adido civil americano credenciado em Brasília desde setembro de 2024. Ele atua na área de segurança interna, espécie de articulador entre o Departamento de Segurança Interna dos EUA e órgãos brasileiros, entre eles a PF. A ordem é clara: Myers deve encerrar imediatamente suas funções oficiais e deixar o País.

O Ministério das Relações Exteriores decide, no entanto, marcar diferença de estilo em relação aos americanos. Informa a decisão primeiro em conversa reservada com a embaixada dos EUA e só depois, 24 horas mais tarde, leva o gesto às redes sociais. Em 22 de abril, o Itamaraty publica no X que determina a “interrupção imediata do exercício de funções oficiais de representante norte-americano de área homóloga em território brasileiro”. É o eufemismo diplomático para expulsão.

Enquanto isso, a Polícia Federal avança um passo além. Em entrevista à GloboNews, também na quarta-feira, 22, Andrei Rodrigues revela que retirou as credenciais de acesso à PF de um agente americano de imigração, distinto de Myers. “Eu cortei temporariamente o acesso de um funcionário dos EUA à PF, até o MRE definir qual medida adotaria”, afirma. Ele explica que a segunda medida é “a determinação que Michael saia do Brasil, o que ocorreu hoje”.

Na prática, a suspensão administrativa impede o agente de circular pela sede da PF e acessar sistemas internos, situação análoga ao que ocorre com Marcelo Ivo em Miami. A soma das duas medidas, porém, acende o alerta no Itamaraty. Punir dois servidores americanos por um brasileiro é visto como escalada que ultrapassa a reciprocidade prometida por Lula.

Diplomatas avaliam, em conversas reservadas, que a leitura em Washington poderia ser de retaliação desproporcional, com risco de reverberar no Congresso americano e em outras áreas sensíveis da cooperação. Horas depois, a PF recua. As credenciais do segundo agente são restituídas, e o caso volta a se alinhar à fórmula de “um por um”, defendida pelo Itamaraty desde o início.

Cooperação em xeque e pressão política cruzada

Ainda não está claro o tamanho do dano para a parceria Brasil-EUA. A cooperação em segurança pública envolve dezenas de operações conjuntas, intercâmbio de dados sensíveis e acordos de confidencialidade. A figura do oficial de ligação, como Marcelo Ivo e seus pares americanos, é peça-chave desse arranjo desde os anos 2000, quando cresceram as ações binacionais contra o narcotráfico e o contrabando.

Nos bastidores, técnicos dos dois lados demonstram preocupação com o efeito imediato sobre o fluxo de informações. Casos como rastreamento de fugitivos, investigações de lavagem de dinheiro e monitoramento de rotas aéreas e marítimas dependem de resposta em minutos, não em semanas. Qualquer ruído político tende a atrasar decisões e aumentar a desconfiança.

No plano doméstico, o governo Lula procura equilibrar dois movimentos. De um lado, mostra firmeza para uma base que cobra defesa da soberania nacional e da dignidade do corpo diplomático e policial brasileiro. De outro, sinaliza moderação ao reverter a suspensão das credenciais do segundo agente americano e ao insistir, em público, que deseja a continuidade da cooperação.

O episódio também realimenta o debate sobre o alcance da Justiça brasileira no exterior. A condenação de Alexandre Ramagem, a fuga para os Estados Unidos e a tentativa de prisão por motivos migratórios expõem fronteiras legais e políticas na busca por foragidos. Ao acusar Marcelo Ivo de estender uma suposta “perseguição política” a solo americano, Washington abre uma janela para questionamentos sobre interferência entre sistemas judiciais e uso de instrumentos como vistos, asilo e extradição.

A leitura no Itamaraty é que a iniciativa pública do Departamento de Estado tenta deslocar o centro da controvérsia para o comportamento de um delegado específico, e não para a conduta de um condenado por ataque às instituições democráticas brasileiras. Em Brasília, interlocutores do Planalto veem nessa mudança de foco um risco de relativizar a gravidade dos atos de 8 de janeiro aos olhos da opinião pública internacional.

Conversas pendentes e futuro da relação

O clima é de cautela em ambos os lados. O governo brasileiro repete, desde a viagem de Lula à Europa, que espera “sentar e conversar” com os Estados Unidos sobre o episódio. A Casa Branca, até agora, limita-se a reafirmar a versão do Departamento de Estado e evita escalar o tom.

A próxima etapa da crise deve ocorrer longe dos holofotes, em reuniões técnicas e políticas ao longo das próximas semanas. Terá peso o que a gestão Joe Biden fizer com o posto deixado por Marcelo Ivo em Miami e como reagir à saída de Michael Myers de Brasília. Também será decisivo se novos pedidos de cooperação, extradição ou compartilhamento de dados sofrerão atrasos ou vetos silenciosos.

Diplomatas experientes lembram que Brasil e Estados Unidos atravessam choques periódicos desde a redemocratização, da revelação da espionagem americana contra Dilma Rousseff, em 2013, a disputas comerciais recentes. Em todos os casos, a relação volta aos trilhos, mas nunca sem custo político. O desfecho desta crise dirá se a parceria atual aguenta, sem fissuras duradouras, a combinação de geopolítica, polarização interna e redes sociais que hoje molda a diplomacia das duas maiores democracias do continente.

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