Barroso vê STF como alvo inevitável e aposta em recuo do extremismo
O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso afirma, em 24 de maio de 2026, em Oxford, que o tribunal “sempre vai desagradar alguém” e se torna alvo natural da política. Em entrevista à BBC News Brasil, ele diz ver o extremismo em retração no país, defende um código de conduta para ministros e projeta um futuro em que a inteligência artificial assume parte do trabalho da Justiça, sem substituir a decisão humana.
STF no centro da política e da polarização
Barroso fala à BBC News Brasil à margem da 11ª edição do Brazil Forum UK, evento organizado por estudantes brasileiros em universidades britânicas, na Universidade de Oxford. Longe fisicamente de Brasília, mas ainda no centro do debate institucional, ele descreve um Supremo que julga “quase tudo de importante” e, por isso, vive sob fogo cruzado constante.
“Ou você desagrada as comunidades indígenas, ou você desagrada o agronegócio. Ou você desagrada os evangélicos, ou você desagrada as feministas. Ou você desagrada o governo, ou você desagrada o contribuinte”, resume. Na avaliação dele, essa arquitetura vem da Constituição de 1988, que leva temas hoje tratados como políticos em outros países diretamente ao STF por ações de partidos, entidades e órgãos públicos.
O ex-ministro enxerga o tribunal como protagonista de um período “totalmente atípico” da vida brasileira, marcado por campanha de desinformação sobre as urnas, atos em frente a quartéis e planos golpistas mapeados pela investigação. “Não é normal você ter multidões pedindo golpe de Estado. Não é normal um general assessor da Presidência planejar matar o presidente, o vice e um ministro do Supremo”, afirma.
Esse cenário, diz ele, obriga a corte a reagir e aumenta a animosidade contra os ministros, sobretudo entre grupos que apoiam, se não o golpe, ao menos a agenda política de quem o articulava. Ainda assim, Barroso avalia que o país entra em fase menos tensa. “Acho que o pior já passou”, afirma, ao analisar o ciclo que levou ao segundo turno de 2022 e agora mira as eleições municipais de 2024 e gerais de 2026.
Para ele, a polarização persiste, como fenômeno histórico que atravessa do século 18 à política contemporânea. O que muda é a intensidade do extremismo, que ele vê hoje “confinado a um percentual muito pequeno da população”. “Vamos ter eleições democráticas, com sistema de apuração totalmente confiável. Quem ganhar leva”, diz, ao defender que o campo conservador global começa a se descolar das franjas mais radicais.
Código de conduta, imagem da Justiça e sucessão no Supremo
O ex-presidente do STF evita comentar o escândalo do Banco Master, que envolve suspeitas de fraudes e reabriu o debate sobre conflitos de interesse de ministros e familiares com o setor privado. “Isso ainda está sendo investigado, e acho que não é hora de julgar. Não sou dado a pré-julgamentos”, afirma, antes de cravar que a discussão sobre um código de conduta para a cúpula do Judiciário “é importante” e tende a ser conduzida “de dentro para fora”.
Barroso admite que, na presidência do STF, preferiu não comprar essa briga. Diz que fez uma “opção pelos temas em que poderia ter apoio” e conta ter mirado a profissionalização interna. Cita como exemplo as reuniões reservadas que passou a convocar em casos sensíveis para tentar alinhar posições e reduzir o personalismo dos votos transmitidos pela TV Justiça. “O Supremo pode desenvolver mecanismos de mais institucionalidade e menos individualidade”, afirma.
Ele reconhece que a televisão estimula discursos voltados para a plateia externa, mas defende os ganhos de transparência. “Há a fantasia de que, por trás de toda porta fechada, acontecem tenebrosas transações. A imagem de onze pessoas discutindo abertamente grandes problemas do país é boa para a Justiça”, diz.
Seis meses após a aposentadoria antecipada, oficializada em outubro de 2025, Barroso assiste de fora ao impasse sobre sua cadeira. A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, é rejeitada pelo Senado, e a vaga segue em aberto. Com outras aposentadorias previstas até 2027, o próximo presidente pode nomear até quatro ministros, o que tende a redesenhar o equilíbrio interno do STF.
Ele relativiza o impacto numérico e lembra que a então presidente Dilma Rousseff também escolhe quatro ministros entre 2011 e 2015, num período marcado pela aprovação da chamada PEC da Bengala, que elevou de 70 para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória. “Não é o número, é o perfil e o escrutínio maior da sociedade”, afirma, ao citar Rosa Weber, Teori Zavascki e Luiz Edson Fachin como exemplos de escolhas que, em sua visão, elevam o padrão da corte.
Barroso aproveita para defender a magistratura como instituição. Lembra que o país tem cerca de 18,7 mil juízes e diz que “o Judiciário faz quase tudo certo”, embora a opinião pública enxergue sobretudo os abusos salariais e os raros escândalos. “A notícia é quando acontece coisa errada. Mas o Judiciário brasileiro é motivo de orgulho pelo volume e pela qualidade do trabalho”, afirma.
IA na Justiça e legado de inclusão no Judiciário
Longe da toga, Barroso volta ao universo acadêmico e se aproxima do mundo das startups de tecnologia jurídica. Ele conta que, ainda à frente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, canalizou a maior parte do orçamento extra para tecnologia da informação. Diz que o Judiciário hoje está “100% digitalizado” e lembra a criação do Portal Único do Poder Judiciário, que permite a advogados protocolar ações em qualquer tribunal sem sair do escritório.
Do ponto de vista técnico, descreve dois projetos de inteligência artificial tocados em sua gestão. O primeiro é o sistema MarIA, ferramenta que resume processos volumosos em poucas páginas, com supervisão humana, para facilitar o trabalho de gabinete. O segundo, mantido em sigilo até deixar o cargo, gera minutas de decisões a partir de parâmetros definidos pelo julgador. “O juiz não pode abdicar do dever de julgar, mas pode pedir à IA que faça a fundamentação”, explica.
Ele reconhece que a tecnologia abre dilemas éticos e cita a tese de doutorado da própria filha, que pergunta se o cidadão tem direito a uma decisão humana ou a uma decisão de maior qualidade. O cálculo, afirma, é pragmático: um juiz brasileiro profere em média nove ou dez decisões por dia, em meio a estoques milionários de processos. “A inteligência artificial vai ser uma ferramenta indispensável para dar mais qualidade e mais celeridade”, diz.
Barroso vê espaço para usos controlados, como o triagem de pedidos no INSS: se a IA defere o benefício, o pagamento sai; se nega, entra a revisão humana. O risco, afirma, é afastar o controle da ética. “É preciso usar as novas tecnologias sem medo, mas com a preocupação de que não se desviem da rota. A gente está aqui para fazer a vida das pessoas ser melhor.”
No balanço de 12 anos de Supremo, Barroso aponta três frentes que considera centrais em seu legado e que, espera, moldam a Justiça nas próximas décadas. Destaca o Exame Nacional de Magistratura, que cria um patamar mínimo unificado para quem entra na carreira em qualquer Estado; a política de paridade de gênero, que obriga tribunais a alternar promoções de homens e mulheres para o segundo grau; e o programa que amplia a presença de juízes negros, ao elevar a nota mínima geral para 7 e manter 5 para candidatos pretos e pardos.
Essas medidas, diz, apostam num Judiciário “mais qualificado, mais íntegro, mais feminino e mais negro”, enquanto a cúpula do STF ainda discute como se blindar de novos escândalos e redefinir limites para o próprio poder. Na avaliação dele, o país se afasta do abismo institucional, mas continua diante de uma escolha: aceitar que a corte que decide quase tudo vai desagradar sempre alguém ou insistir em transformá-la no vilão de cada crise.
