Ataque israelense em Beirute expõe racha no Irã e pressiona acordo com EUA
Ataques israelenses contra o Hezbollah nos subúrbios ao sul de Beirute, neste domingo (14), acendem novo foco de tensão no Oriente Médio e expõem divisões profundas em Teerã. A ofensiva militar ocorre enquanto Washington e Irã tentam salvar, nos bastidores, um acordo de paz que Donald Trump gostaria de assinar ainda hoje, em seu 80º aniversário.
Bombardeios em Beirute travam bastidores diplomáticos
Os ataques miram posições do Hezbollah em áreas densamente povoadas ao sul da capital libanesa, segundo Israel, que afirma atingir infraestrutura militar do grupo aliado ao Irã. O bombardeio reacende temores de que a frente de guerra no Líbano deixe de ser um conflito de baixa intensidade e escale para confronto aberto entre Israel e o eixo apoiado por Teerã.
Horas depois das primeiras explosões, comandantes da Guarda Revolucionária iraniana endurecem o tom. Mohammad Jafar Assadi, figura influente dentro da força de elite, transforma o ataque em mais um capítulo da disputa direta com Israel e, por extensão, com os Estados Unidos. A mensagem, ainda que não traga ameaça explícita, reforça o recado de que o Irã não está disposto a ser tratado como coadjuvante nas negociações que correm em paralelo.
Em Washington, Trump insiste em manter de pé a narrativa de que um memorando de paz com o Irã ainda pode ser assinado neste domingo. O presidente vê simbolismo político em vincular o acordo ao próprio aniversário de 80 anos, numa tentativa de consolidar a imagem de mediador capaz de encerrar a guerra que se arrasta desde fevereiro. Nem a Casa Branca nem Teerã, porém, divulgam um texto consensual até o fim da tarde.
Do lado iraniano, o silêncio oficial sobre o conteúdo do rascunho aumenta a sensação de improviso. Negociadores próximos ao presidente Masoud Pezeshkian evitam detalhes e falam em “avanços importantes”. Não há confirmação sobre prazos para reabertura total do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, nem sobre quando ativos iranianos congelados seriam liberados.
Conservadores se rebelam e levam disputa às ruas
Enquanto mísseis cruzam o céu do Líbano, a batalha em Teerã é política. A ala conservadora vê no projeto de acordo um risco existencial para o regime. Mahmoud Nabavian, um dos rostos mais conhecidos da linha-dura, afirma que, se o Irã assinar nos termos atuais, “nos tornaremos efetivamente uma colônia dos Estados Unidos”. A frase ecoa entre eleitores desconfiados de qualquer reaproximação com Washington.
Nabavian detalha suas críticas em entrevista à TV iraniana e escolhe alvos sensíveis. Diz que o acordo abriria o Estreito de Ormuz “até mesmo para Israel” e reduziria a soberania nuclear do país a um protocolo submetido ao aval americano. “Se quisermos realizar até mesmo a menor quantidade de enriquecimento de urânio, primeiro teríamos de obter autorização dos Estados Unidos — inclusive para fins como produzir medicamentos ou eletricidade”, afirma.
O parlamentar também questiona benefícios econômicos concretos. Segundo ele, não está claro quando o Irã teria de volta dezenas de bilhões de dólares bloqueados em bancos estrangeiros, nem em que ritmo as sanções seriam suspensas. “Quanto mais sinais de fraqueza enviarmos, mais a guerra se aproximará de nós”, alerta, ao defender linha de máxima pressão em resposta aos bombardeios em Beirute.
O discurso encontra eco em veículos próximos à Guarda Revolucionária. O jornal Javan acusa parte dos oradores em atos públicos de desrespeitar orientações do líder supremo, Mojtaba Khamenei, e “semear cisma e divisão entre a população”. O recado expõe o incômodo de setores do aparato de segurança com manifestações que escapam ao controle tradicional e cobram responsabilidades do próprio establishment.
No sábado, milhares de pessoas ocupam ruas de Teerã. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram manifestantes pedindo a renúncia do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, e do principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. O coro mais repetido une crítica diplomática e luto político: “Ghalibaf, Araghchi — e o sangue do meu líder?”, em referência ao assassinato, no início do conflito em fevereiro, do pai de Khamenei, então líder supremo.
A cena reforça um dado incômodo para o governo. A negociação com Washington, apresentada como caminho para aliviar a crise econômica, passa a ser vista por parte da população como moeda de troca sobre a memória de um líder morto em guerra. O cálculo doméstico fica mais complexo quando generais no front e jornais alinhados à Guarda avisam que concessões excessivas podem ser interpretadas como traição.
Mercado de energia, segurança regional e futuro do acordo
O impasse ameaça ter efeito imediato sobre o mercado de energia. Qualquer sinal de bloqueio ou instabilidade em Ormuz costuma elevar o barril de petróleo em questão de horas. Analistas em capitais árabes calculam que a combinação de ataques israelenses no Líbano e incerteza sobre o acordo pode adicionar prêmio de risco de US$ 5 a US$ 10 ao preço do barril nas próximas semanas.
Países do Golfo acompanham com atenção. Uma reabertura rápida e monitorada do estreito, em até um mês, como prevê o rascunho discutido nos bastidores, aliviaría navios petroleiros e refinarias, mas exigiria coordenação entre marinhas que hoje se olham como rivais. A presença de embarcações dos EUA, do Irã e de aliados regionais em um corredor de poucos quilômetros de largura aumenta a chance de erro de cálculo.
Israel, por sua vez, testa limites ao atacar alvos do Hezbollah em plena fase final de negociação. A ofensiva força Teerã a demonstrar firmeza diante da opinião pública interna, o que reduz espaço para concessões discretas na mesa com os americanos. Trump, que já vincula o acordo ao conjunto dos Acordos de Abraão, tenta convencer aliados árabes de que um entendimento com o Irã, ainda que parcial, reduziria a temperatura em toda a região.
Dentro do Irã, a disputa sobre os termos do pacto cristaliza a divisão entre conservadores e reformistas. Ali Rabiei, aliado de Pezeshkian, reage neste domingo às críticas de Nabavian e de outros expoentes da linha-dura. Para ele, grupos interessados em manter o confronto com Washington estariam criando “narrativas artificiais” para desacreditar o esforço diplomático e enfraquecer o governo eleito.
Rabiei insiste que qualquer texto final respeitará “linhas vermelhas” traçadas por Khamenei e que não haverá renúncia irreversível ao programa nuclear civil. A promessa tenta acalmar a base conservadora sem fechar a porta para um entendimento que alivie, ainda neste ano, índices de inflação acima de 30% e desemprego que atinge especialmente jovens em grandes cidades.
A incógnita recai sobre o tempo político. Trump deseja um anúncio imediato, de preferência ainda neste domingo, enquanto a lembrança do ataque a Beirute domina o noticiário global. Teerã prefere calibrar o discurso, medir a reação das ruas e testar até onde Israel está disposto a ir no fronte libanês antes de assinar qualquer documento.
O desfecho dos bombardeios ao Hezbollah e das manifestações em Teerã nas próximas 48 horas indica se o acordo com os Estados Unidos nascerá como trégua frágil ou se ficará adiado por tempo indeterminado. Em um cenário em que um erro de cálculo em Beirute ou em Ormuz pode acender nova guerra aberta, a pergunta que resta é quanto espaço ainda existe para diplomacia em uma região acostumada a negociar à sombra de mísseis.
