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Ataque de tubarão em Piedade leva à amputação e reacende alerta

A estudante Marcela de Lima Santos, 19, perde a perna após ataque de tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, na tarde de 1º de junho de 2026. Ela segue internada em estado grave, mas estável, na UTI do Hospital da Restauração, no Recife.

Banho de mar termina em resgate e cirurgia

O domingo começa como um programa simples de praia, água de coco e conversa entre primos. Por volta da tarde, o passeio se converte em corrida contra o tempo. Marcela entra no mar em Piedade enquanto o primo, Jonas Lima, cuida dos pertences na mesa. Minutos depois, os gritos rompem o barulho das ondas.

“Eu estava com ela na praia, curtindo e tomando água de coco, quando resolvemos entrar no mar. Nós nos revezávamos para olhar os pertences que estavam na mesa. Quando ela foi para a água, acabou sendo atacada pelo tubarão”, conta Jonas à CNN Brasil. Ele ouve o nome ecoar na água e corre na direção da prima.

“Quando vi, ela estava gritando meu nome e se debatendo na água. Nesse momento, fui até ela para tentar fazer o resgate”, relata. Um médico que caminhava pela faixa de areia percebe a cena e age antes dos bombeiros. Ele improvisa os primeiros socorros ali mesmo, ainda na areia úmida, enquanto banhistas assistem sem entender a dimensão do ferimento.

O Corpo de Bombeiros chega em seguida e leva Marcela, já em estado grave, para o Hospital da Restauração Gov. Paulo Guerra, no Recife. Segundo a unidade, a jovem chega ao centro de trauma com amputação ao nível da coxa direita, sem possibilidade de reimplante. Os médicos a entubam e a conduzem direto ao bloco cirúrgico para conter sangramentos e estabilizar o quadro.

A cirurgia termina ainda na tarde de segunda-feira, 1º, e a paciente segue para a UTI. Em boletim, o hospital informa que Marcela permanece internada em terapia intensiva, com estabilidade clínica, sem novos sangramentos e recebendo assistência multidisciplinar. A equipe inclui cirurgiões, intensivistas, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais.

Jonas acompanha a recuperação de perto. Para ele, o pior choque agora é emocional. “Ela está melhorando, já saiu da sedação e acordou. Agora precisa se recuperar psicologicamente após perder a perna”, afirma. A família evita falar em alta hospitalar e se concentra nas próximas 48 horas, consideradas decisivas em casos de grande perda de sangue e trauma.

Dois ataques em 24 horas e rotina de risco em Piedade

O caso de Marcela não é isolado. Em menos de 24 horas, a rede pública recebe duas vítimas de ataques de tubarão em Pernambuco, ambas com amputação de membros inferiores. No domingo, 31 de maio, uma criança de 11 anos é atacada também na Praia de Piedade. Diferentemente de Marcela, ela chega ao Hospital da Restauração com a perna ainda preservada, mas em condições irreversíveis. Os médicos decidem amputar a perna esquerda para salvar a vida da criança.

A sucessão de casos reacende um temor conhecido na Região Metropolitana do Recife. Desde os anos 1990, estudos de universidades e órgãos ambientais apontam a costa de Jaboatão dos Guararapes e Recife como uma das áreas com maior incidência de ataques de tubarão do país. O tubarão-cabeça-chata, espécie que se adapta bem a águas turvas e rasas, aparece com frequência como suspeito em laudos e análises de especialistas. Investigações anteriores relacionam a presença dos animais à degradação de estuários, mudanças de rotas de embarcações e ocupação desordenada da orla.

Nos últimos anos, o governo estadual e as prefeituras instalam placas de alerta, restringem esportes aquáticos em trechos críticos e reforçam avisos em períodos de maré mais alta. O ataque a Marcela ocorre mesmo nesse contexto de advertências. Em Piedade, moradores relatam que, apesar dos sinais visíveis, banhistas ainda entram no mar em áreas consideradas de risco, especialmente em dias de calor intenso, quando a sensação de segurança se sobrepõe às orientações técnicas.

Autoridades ambientais e de segurança costeira discutem novos protocolos após os dois casos. Técnicos defendem campanhas permanentes, não apenas em feriados e férias escolares. A avaliação interna é que avisos pontuais perdem força com o tempo e deixam de produzir efeito prático no comportamento dos frequentadores da praia.

A rotina hospitalar também sente o impacto. Casos de politrauma por ataque de animal exigem equipes numerosas, leitos de UTI, equipamentos de hemodinâmica e estoques robustos de sangue e derivados. Cada atendimento de alta complexidade mobiliza dezenas de profissionais em poucas horas.

Pressão sobre saúde pública e cobrança por prevenção

O Hospital da Restauração volta a pedir doações de sangue após a entrada das duas vítimas em estado grave em menos de dois dias. Em nota, a unidade reforça que a Fundação Hemope precisa manter estoques regulares para garantir suporte a cirurgias de emergência e pacientes com sangramentos intensos. “Devido à necessidade permanente de manutenção dos estoques de sangue para o atendimento de pacientes em estado grave, a Fundação Hemope convoca os voluntários aptos à doação de sangue a contribuírem com esse gesto de solidariedade, que ajuda a salvar vidas”, destaca o comunicado.

O apelo tem efeito imediato nas redes sociais, onde familiares e amigos compartilham chamados para doação, em especial de tipos sanguíneos com menor disponibilidade. No Recife, postos da hemorrede registram aumento na procura em dias que se seguem a casos com forte comoção pública, mas enfrentam queda gradual nas semanas seguintes. A instabilidade preocupa gestores, que lidam com um volume constante de traumas, cirurgias oncológicas e partos de alto risco.

A sucessão de ataques também reacende o debate sobre responsabilidade do poder público e comportamento de quem frequenta a orla. Especialistas ouvidos em outros episódios lembram que nenhuma faixa de mar em área de risco é totalmente segura, mesmo em dias aparentemente tranquilos. A recomendação é clara: respeitar as placas, evitar entrar no mar em trechos já mapeados como perigosos e não ultrapassar a linha rasa, em especial em frente a canais e rios.

A Prefeitura de Jaboatão e o governo de Pernambuco discutem internamente novas ações educativas. Propostas incluem campanhas em escolas da região, avisos sonoros em pontos de maior movimento, presença fixa de equipes de orientação na areia e reforço na fiscalização de esportes aquáticos proibidos. Entidades ambientais cobram que qualquer medida venha acompanhada de monitoramento contínuo de tubarões e de recuperação de áreas de mangue, berçário natural de diversas espécies.

Para a família de Marcela e da criança de 11 anos, o foco ainda está longe desses debates estruturais. As próximas semanas significam adaptação a uma nova rotina, com fisioterapia intensiva, reabilitação e acompanhamento psicológico. A possibilidade de uso de prótese depende da evolução clínica, do tipo de amputação e de acesso a serviços especializados, geralmente concentrados em poucas unidades públicas e privadas.

Recuperação lenta e incertezas à beira-mar

Médicos evitam prazos públicos para a alta de Marcela. Ela enfrenta uma sequência de avaliações diárias na UTI, com atenção a infecções, dor e estabilidade hemodinâmica. A etapa seguinte deve envolver transferência para enfermaria, início de fisioterapia e preparação para o retorno ao convívio fora do ambiente hospitalar.

Enquanto isso, a Praia de Piedade segue com seu fluxo de barracas, ambulantes e famílias, mas agora sob uma atmosfera de tensão renovada. Banho de mar, ali, volta a ser uma decisão carregada de incerteza. O desfecho da recuperação de Marcela e da criança ferida ajuda a definir o tom desse debate. A pergunta que fica para autoridades e frequentadores é direta: quantos alertas mais serão necessários até que o risco deixe de ser apenas um aviso na placa e se torne um limite inegociável na prática?

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