Ataque com 555 drones atinge refinaria de Moscou e amplia pressão ucraniana
Um ataque em massa com 555 drones atinge a refinaria de Moscou e outras regiões russas na madrugada desta quinta-feira (18). As forças ucranianas miram a infraestrutura petrolífera para pressionar o governo de Vladimir Putin a encerrar a guerra, enquanto autoridades russas correm para conter incêndios e danos em áreas residenciais.
Refinaria em chamas e bairros atingidos
A principal explosão ocorre na Refinaria de Petróleo de Moscou, no distrito de Kapotnya, sudeste da capital. Vídeos geolocalizados por emissoras internacionais mostram uma coluna espessa de fumaça preta saindo de uma parte do complexo, seguida de uma detonação maior que projeta ao ar o teto de um grande tanque de combustível. A cena expõe a vulnerabilidade de uma das instalações energéticas mais sensíveis da Rússia.
O prefeito Sergei Sobyanin confirma que a refinaria é atingida por diversos drones. Ele afirma que mais de quatro dezenas de aeronaves seguem em direção à cidade antes de serem derrubadas pelas defesas aéreas. “As forças de defesa aérea continuam repelindo um ataque em larga escala”, diz o prefeito, em mensagem divulgada nas redes sociais e em canais oficiais da Prefeitura de Moscou.
Poucos quilômetros adiante, o impacto chega aos bairros residenciais. Em Zhukovsky, nos arredores da capital, um prédio de apartamentos sofre danos após a queda de um drone, segundo a agência estatal Tass, que cita o governador da região de Moscou, Andrey Vorobyov. Sacadas desabam e janelas estilhaçam, mas as autoridades afirmam que não há mortos nem feridos nesse ponto específico.
Fragmentos de aeronaves derrubadas se espalham por outras áreas próximas à capital. Os destroços atingem uma academia, uma instalação industrial, um centro comercial e uma residência, de acordo com as autoridades locais. A cena combina sirenes, fumaça e residentes atônitos em plena madrugada, em uma cidade que tenta manter a rotina enquanto a guerra chega cada vez mais perto.
Estratégia em profundidade e nervosismo em Moscou
A ofensiva desta quinta-feira não é um episódio isolado. Dois dias antes, na terça (16), a mesma refinaria sofre outro ataque de drones. Na ocasião, Sobyanin informa que uma instalação do complexo é danificada. A repetição do alvo reforça que a infraestrutura petrolífera deixa de ser ponto periférico e passa ao centro da estratégia ucraniana de atacar em profundidade o território russo.
Após o bombardeio de terça-feira, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, assume publicamente a responsabilidade pelos ataques de longo alcance. Ele afirma que as Forças Armadas utilizam armamento capaz de atingir alvos a cerca de 500 quilômetros de distância. O líder ucraniano descreve essas operações como parte de um esforço calculado para “aumentar o custo da guerra para Moscou” e pressionar o Kremlin a negociar.
Durante a noite, o Ministério da Defesa da Rússia anuncia a derrubada de 555 drones ucranianos sobre diversas regiões. Sobyanin afirma que cerca de 180 deles se dirigem à capital e são abatidos antes de alcançar o centro da cidade. A escala do ataque, ainda que em grande parte interceptado, obriga o governo russo a mobilizar sistemas de defesa e recursos de emergência por centenas de quilômetros.
Mais ao sul, na região de Rostov, um novo foco de tensão se abre. O governador Yury Slyusar informa que um civil morre e duas pessoas ficam feridas após outro ataque com drones. As explosões provocam danos a uma locomotiva e geram incêndios em duas instalações comerciais. As chamas são contidas, mas a sensação de vulnerabilidade se espalha por mais uma região russa próxima à fronteira com a Ucrânia.
Os ataques se intensificam em um momento de calendário diplomático cheio. Na França, líderes do G7 se reúnem para discutir a continuidade do apoio à Ucrânia. Zelensky tem um encontro bilateral com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e deixa a cúpula afirmando ter recebido “apoio para ampliar as capacidades de defesa aérea” e relatando que o republicano reage positivamente às propostas de Kiev.
Em Bruxelas, ministros da Defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte discutem o rumo da guerra. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, reforça o compromisso de manter o fluxo de armas e sistemas de defesa à Ucrânia. “A Ucrânia está indo muito bem”, declara, citando estimativas de perdas russas entre 30 mil e 35 mil militares por mês, números que Moscou não confirma.
Pressão sobre o petróleo russo e o que muda na guerra
O alvo escolhido por Kiev não é casual. A receita com petróleo responde por pelo menos um terço do orçamento federal russo, segundo analistas ouvidos por instituições financeiras internacionais. Desde o início da invasão à Ucrânia, sanções da União Europeia e dos Estados Unidos limitam o número de compradores dispostos a negociar diretamente com Moscou. A guerra no Oriente Médio e o conflito envolvendo o Irã elevam os preços globais e acabam, em parte, compensando a queda de volumes, o que dá algum fôlego ao caixa russo.
As ações ucranianas tentam corroer esse fôlego. Nos últimos meses, drones e mísseis de longo alcance passam a mirar refinarias, depósitos de combustível, terminais marítimos e instalações militares em território russo, inclusive na região de Leningrado, onde fica São Petersburgo. Os ataques não derrubam a indústria de petróleo, mas já provocam distorções importantes em cadeias de abastecimento.
No início de junho, a Crimeia enfrenta escassez de combustíveis e racionamento de gasolina, depois que operações ucranianas atingem rotas de suprimento da península, anexada pela Rússia em 2014. O episódio funciona como alerta do que pode ocorrer se danos a refinarias e depósitos se acumularem por semanas consecutivas. O ataque repetido à refinaria de Kapotnya insere Moscou, ainda que parcialmente, nessa equação.
O impacto imediato na produção da refinaria não é divulgado, mas especialistas em energia ouvidos por veículos internacionais apontam a possibilidade de interrupções temporárias e redirecionamento de fluxos de petróleo dentro da Rússia. Em um mercado já tenso, qualquer redução de oferta interna obriga o governo a escolher entre abastecer o front militar, proteger grandes centros urbanos ou preservar exportações estratégicas.
Enquanto isso, em Kiev, o governo apresenta os novos ataques como sinal de capacidade tecnológica e resiliência militar no quinto ano de guerra. A mensagem interna é de que a Ucrânia consegue levar o conflito para dentro da Rússia e, assim, diminuir a pressão direta sobre cidades ucranianas. Em Moscou, o Kremlin acusa o Ocidente de alimentar a escalada ao fornecer equipamentos e inteligência que permitem operações tão profundas.
Escalada, negociações e uma fronteira móvel
O ataque desta quinta-feira alimenta o debate sobre os limites da guerra. Trump volta a defender um acordo para encerrar o conflito e diz que “a Rússia perdeu um número enorme de pessoas, e a Ucrânia também”. Ao mesmo tempo, setores de seu governo sinalizam planos para reduzir a presença militar dos Estados Unidos na Europa, o que preocupa aliados da Otan. Mark Rutte tenta minimizar o risco e afirma que países europeus já compensam parte dos recursos americanos.
Para Kiev, o cálculo é claro: quanto mais caro o conflito se torna para Moscou, maior a chance de arrancar concessões futuras. Para a Rússia, ataques em série contra refinarias e infraestruturas críticas podem justificar respostas ainda mais agressivas contra cidades ucranianas e sistemas energéticos rivais. As duas lógicas empurram a linha de frente para além do campo de batalha tradicional e transformam oleodutos, refinarias e subestações elétricas em alvos centrais.
A refinaria de Kapotnya, com seus tanques de combustível danificados e fumaça ainda visível ao amanhecer, se torna o símbolo mais recente dessa nova fase da guerra. A cada novo ataque, a fronteira entre campo militar e vida civil se torna mais difusa. A incógnita agora é até que ponto Rússia e Ucrânia, pressionadas por aliados e pela própria opinião pública, estão dispostas a testar esse limite antes de aceitarem algum tipo de negociação duradoura.
