Ancelotti testa nova base da seleção com Paquetá e Igor Thiago em New Jersey
Carlo Ancelotti mexe na espinha dorsal da seleção brasileira e testa Lucas Paquetá e Igor Thiago no treino aberto desta quarta-feira (3), em New Jersey. O técnico aproveita a atividade diante do público para avaliar mudanças em relação ao time que venceu o Panamá e afinar a formação para a Copa do Mundo de 2026.
Ancelotti abre o jogo em treino para o torcedor
O gramado do centro de treinamentos em New Jersey recebe, no fim da tarde, pouco mais de 5 mil torcedores curiosos para ver de perto a seleção que se prepara para o Mundial de 2026, que começa em 11 de junho do ano que vem. Ancelotti usa o ambiente de jogo, com gritos das arquibancadas e clima de disputa, para testar uma formação com Lucas Paquetá mais adiantado e Igor Thiago como referência na área.
O treino repete parte das ideias usadas na vitória sobre o Panamá, mas exibe uma seleção mais móvel e com outra distribuição de responsabilidades. Paquetá recebe mais liberdade entre as linhas, circula pelos dois lados e se aproxima dos atacantes, enquanto Igor Thiago oferece opção de jogo direto, prende zagueiros e abre espaços para infiltrações. A movimentação agrada ao estafe, que vê na dupla um possível antídoto para defesas mais fechadas, cenário recorrente em Copas.
Nos trabalhos em campo reduzido, Ancelotti para a atividade com frequência, conversa de perto com Paquetá e orienta o posicionamento de Igor Thiago dentro da área. O italiano cobra passes mais rápidos e menos condução de bola, em uma tentativa clara de acelerar a transição entre meio e ataque. A cada interrupção, o técnico gesticula, chama por nome, corrige detalhes de postura corporal e de tempo de bola, como faria em um jogo oficial.
A escolha pelo treino aberto não é apenas um gesto de simpatia com o público brasileiro que vive nos Estados Unidos, estimado em cerca de 1,9 milhão de pessoas segundo dados consulares recentes. Ancelotti transforma a tarde em uma espécie de ensaio geral, com simulações de saída de bola sob pressão, bolas paradas ofensivas e defensivas, além de um coletivo em que o time com Paquetá e Igor Thiago enfrenta a base que encarou o Panamá.
Disputa por vaga e recado ao elenco em reta final pré-Copa
O uso de Paquetá e Igor Thiago desde o início, mesmo em treino, tem peso simbólico em um ciclo que entra em sua reta decisiva. Faltam pouco mais de 12 meses para a estreia na Copa, e cada sessão em campo funciona como peneira fina. O recado é direto: ninguém tem lugar garantido. A movimentação também responde à cobrança por renovação, tema frequente desde a eliminação nas quartas de final em 2022, diante da Croácia, nos pênaltis.
Paquetá, de 29 anos, vive um período de reconstrução de imagem e carreira. Após meses sob investigação em apostas esportivas na Inglaterra, o meia tenta transformar o bom desempenho recente no clube em titularidade estável na seleção. O treino em New Jersey reforça sua importância como organizador e articulador ofensivo, papel que já exerceu em diferentes fases da amarelinha. Ele chama o jogo, se apresenta para receber sob pressão e arrisca lançamentos longos, recurso que Ancelotti valoriza para quebrar linhas.
Igor Thiago, 25, surge como símbolo da nova leva de atacantes testados ao longo dos últimos 18 meses. Com boa temporada no futebol europeu, ele oferece um perfil físico que o elenco carece desde os tempos de centroavantes clássicos, como Luís Fabiano, em 2010. No treino, o camisa 9 alterna pivô de costas para o gol com arrancadas em profundidade e finalizações de primeira, movimento que gera elogios discretos da comissão técnica à beira do campo.
A mudança mexe diretamente com a hierarquia interna. Atacantes mais experientes, que começaram a partida contra o Panamá, veem crescer a concorrência por minutos em campo. Meias de criação também sentem a presença de Paquetá mais influente na armação. Ancelotti insiste com o grupo que a disputa é saudável e que a Copa não se ganha com 11 nomes. Segundo pessoas próximas à comissão, o treinador repete nas reuniões: “Quem aceitar melhor o papel no elenco vai jogar mais”.
Os testes em New Jersey também se encaixam em uma tendência histórica da seleção em anos de Copa. Em 2002, Luiz Felipe Scolari consolida a formação com três zagueiros em amistosos às vésperas do torneio. Em 2014, Felipão define o time titular quase um ano antes, mas ajusta peças em amistosos internacionais. Ancelotti, por sua vez, prefere alongar o período de observação. Desde que assume o comando, em 2024, já utiliza mais de 40 jogadores diferentes em jogos oficiais, número que reforça a busca por equilíbrio entre experiência e renovação.
Seleção ganha nova cara, mas dúvidas seguem até a lista final
Os efeitos práticos das experiências aparecem primeiro dentro do próprio vestiário. A presença de Paquetá e Igor Thiago entre os principais testes eleva a competitividade nos treinos e diminui a margem de conforto de jogadores consolidados. Cada sessão passa a valer como card de apresentação para a lista final da Copa, que, pelo calendário atual, deve ser entregue à Fifa cerca de 30 dias antes do início do Mundial.
Para o torcedor, o treino aberto funciona como termômetro de expectativa. As arquibancadas reagem a cada jogada de efeito, cobram intensidade e ensaiam coros em apoio aos nomes em ascensão. O clima lembra dias de jogo e reforça a sensação de que a seleção entra em uma nova fase de testes, mais direcionados e menos experimentais. O Brasil chega à Copa de 2026 com a missão de encerrar um jejum de 24 anos sem título mundial, desde a conquista de 2002 no Japão, e cada escolha de Ancelotti passa a ser dissecada por comentaristas, ex-jogadores e torcedores nas redes.
O desenho que se vê em New Jersey não é definitivo, mas indica caminhos. Uma seleção com mais controle técnico no meio, representado por Paquetá, e uma referência física na área, com Igor Thiago, tende a enfrentar de forma diferente rivais tradicionais da Copa, como Alemanha e França, e também seleções médias que se fecham atrás da linha da bola. A capacidade de adaptação, palavra repetida por Ancelotti nas entrevistas, ganha contorno prático nas variações mostradas no treino.
Os próximos dias definem se as experiências se consolidam ou se viram apenas mais um desenho tático em uma prancheta extensa. A seleção ainda tem pelo menos dois amistosos programados antes do anúncio da lista final, além de mais semanas de treinos fechados ao público. Ancelotti, acostumado a decisões duras em clubes europeus, sabe que cada minuto em campo pesa. A dúvida que atravessa o ambiente, e que só o tempo responde, é simples e decisiva: o Brasil que se vê hoje em New Jersey é o mesmo que vai pisar no gramado na estreia da Copa de 2026?
