Ancelotti arma Brasil mais físico para estreia contra o Marrocos
Carlo Ancelotti esboça, nesta terça-feira (13), em Nova Jersey, um Brasil mais físico e protegido pelos lados para a estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos. O treinador prepara mudanças nas laterais, no meio-campo e no ataque para conter a força marroquina pelos corredores e reforçar a presença no setor central.
Brasil troca profundidade por força nos lados
A três dias do pontapé inicial, a Seleção treina em ritmo de jogo em Morristown, a cerca de 50 quilômetros do estádio da estreia. As sessões táticas dos últimos dias deixam claro que Ancelotti abandona a ideia de um lateral quase ponta, encarnada por Wesley até o corte por lesão no adutor da coxa, e aposta em uma linha defensiva mais sólida e menos exposta.
Ibañez ganha terreno na disputa com Danilo e assume a frente pela vaga na lateral direita. O defensor do Al-Ahli trabalha repetidamente em cruzamentos, coberturas internas e saídas pelo chão, sob olhar direto da comissão técnica. Em campo reduzido, aparece alinhado com Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos, desenho que reforça o status de provável titular.
Douglas Santos se firma no lado esquerdo por um motivo simples: o Brasil sabe o que o espera. O setor direito marroquino concentra Achraf Hakimi e Brahim Díaz, combinação de velocidade e drible que decide jogos desde a Copa de 2022. Contra uma dupla que ataca em alta rotação por 90 minutos, Ancelotti prefere um lateral mais marcador do que um ala solto.
O desenho atual contrasta com o plano original com Wesley, pensado para atacar o espaço às costas dos pontas adversários. Sem ele, o Brasil perde um homem de profundidade, mas ganha um defensor confortável em duelos físicos, tanto pelo alto quanto no um contra um. A balança pende, de forma deliberada, para o lado da segurança.
Meio-campo mais povoado, ataque com função defensiva
O movimento nas laterais empurra o time para outro ajuste central: o meio-campo passa a ser o coração da proposta. Casemiro e Bruno Guimarães mantêm o lugar de intocáveis, mas deixam de ser uma dupla isolada. Lucas Paquetá, recuperado e treinando sem restrições, ocupa a faixa entre as linhas, encostando ora na armação, ora na pressão pós-perda.
O trio oferece algo que faltou em amistosos recentes: controle de ritmo. Casemiro protege a frente da área, organiza o posicionamento e dita a altura do bloco. Bruno liga defesa e ataque com passes verticais e chegada à área. Paquetá acrescenta criatividade e capacidade de segurar a bola sob pressão, um detalhe decisivo contra um Marrocos conhecido pela disciplina tática e pelas transições rápidas.
Matheus Cunha se consolida como a peça que amarra o quebra-cabeça. Escalado nominalmente como atacante, trabalha em diagonal pela esquerda e volta para fechar o corredor ao lado de Douglas Santos. Sem a bola, o desenho se aproxima de um 4-4-2 compacto, com Cunha recompondo até a altura dos volantes para travar a subida de Hakimi.
O custo é evidente: o Brasil abre mão de um centroavante de referência diária na área e aposta em mobilidade. A comissão técnica entende, porém, que o benefício defensivo pesa mais na estreia. Em jogos de mata-mata, uma falha na cobertura lateral pode custar a campanha. Em fase de grupos, um início inseguro compromete três semanas de trabalho.
Raphinha e Vini Jr. mantêm o papel de desafogar a equipe, mas também recebem novas incumbências. O ponta do Barcelona precisa encurtar o campo e colaborar na marcação do lado forte marroquino, enquanto o astro do Real Madrid é orientado a segurar a bola na frente para permitir que o bloco brasileiro respire. Em vez de um time puramente vertical, Ancelotti desenha uma seleção capaz de diminuir o ritmo quando necessário.
Impacto tático e mensagem para a Copa
A provável escalação com Alisson; Ibañez, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Raphinha, Matheus Cunha e Vini Jr. envia um recado direto ao vestiário e aos adversários. A prioridade, neste início de Mundial, é competir em cada duelo, sobretudo nas laterais, área em que o Marrocos construiu boa parte da campanha histórica em 2022.
Ancelotti não esconde nos treinos a cobrança por intensidade física. A seleção repete sequências de disputa de bola em espaço curto, com metas de recuperação em menos de cinco segundos após a perda. O foco em duelos reforça a leitura de que a Copa de 2026 tende a premiar equipes que dominam não apenas a bola, mas também o contato e o choque.
A opção por Paquetá no meio, em vez de um atacante extra, altera a lógica costumeira da seleção brasileira em estreias de Copa, historicamente marcadas por formações mais ofensivas. Em 2014 e 2018, o Brasil abre o Mundial com dois meias e três atacantes. Em 2026, deve iniciar com três homens de meio e apenas dois pontas, um sinal de adaptação ao futebol de linhas compactas que domina as grandes ligas europeias.
Os principais beneficiados são os jogadores com leitura tática refinada, capazes de cumprir mais de uma função em 90 minutos. Cunha se valoriza pela versatilidade, Paquetá ganha espaço pela capacidade de alternar marcação e criação, e Douglas Santos se torna peça-chave mesmo sem o brilho ofensivo de outros concorrentes. Na outra ponta, atacantes de área clássicos perdem espaço imediato.
O que vem pela frente para a Seleção
Os dois treinamentos restantes em Nova Jersey servem para ajustar detalhes: bolas paradas, distâncias entre linhas e o comportamento do time quando estiver à frente no placar. A comissão técnica trabalha com cenários concretos, como segurar vantagem mínima por 20 minutos finais ou reagir a um gol sofrido cedo, algo que o Brasil sente em Copas anteriores.
Ancelotti usa a semana para fincar uma ideia que o acompanha há décadas: o time se molda aos jogadores disponíveis e ao adversário da vez. Não há promessa de espetáculo permanente, mas de competitividade máxima. Se a estreia contra o Marrocos confirmar o que se vê em Morristown, o Brasil inicia a Copa com menos espaço para improviso e mais espaço para disciplina. A resposta sobre até onde essa escolha pode levar a Seleção começa a aparecer no sábado, quando o Mundial enfim sai do papel para virar jogo valendo.
