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Ancelotti aposta em língua, tática e vestiário para levar o Brasil ao hexa

Carlo Ancelotti intensifica a preparação da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 2026 e tenta transformar desconfiança em apoio para buscar o hexa. Em meio a aulas de português, ajustes no sistema 4-2-4 e renovação de contrato até 2030, o italiano assume o desafio de comandar o primeiro Brasil mundialista com técnico estrangeiro.

Um italiano em busca do coração da seleção

O cenário se desenha no Rio de Janeiro, na sede da CBF. Em uma das primeiras reuniões, funcionários se aproximam de Ancelotti em espanhol, alguns arriscam italiano. O novo técnico sorri, pede licença e corrige o rumo da conversa: ele é quem precisa falar português. A cena, aparentemente banal, marca o início de uma relação que ainda precisa de confiança, mas já encontra gestos concretos de aproximação.

Aos 66 anos, dono de cinco títulos da Liga dos Campeões e passagens por Milan, Chelsea e Real Madrid, Ancelotti entra em um território que conhece apenas de relance. Ao longo da carreira, comanda 43 jogadores brasileiros, mas pisa na América do Sul apenas uma vez, no início dos anos 2000, como observador da Juventus. Agora, a missão é outra: liderar em campo e no idioma um país que não se vê como coadjuvante em nenhuma discussão sobre futebol.

O técnico reage com método. Contrata um professor, Roberto Piantino, e encaixa quatro aulas de português por semana em uma rotina já tomada por viagens, vídeos e treinos. As sessões invadem até o fim de semana. “Lembro que terminamos uma aula na sexta-feira e, como de costume, perguntei quando seria a próxima”, conta Piantino à BBC Sport. “Ele respondeu: ‘Amanhã.’ Era sábado, às nove da manhã, em Vancouver.” A cena se repete mais de uma vez e convence o professor de que o esforço é real.

As aulas não seguem roteiro padrão. Quando Piantino prepara uma lição sobre verbos no imperativo, ouve o técnico interromper a apresentação. “Não, não, não, eu não me comunico desta forma. Eu não uso imperativos. Não é meu estilo dar ordens assim”, relata. A recusa ao tom de comando rígido ajuda a traduzir o personagem que tenta conquistar um vestiário acostumado a ídolos maiores que os técnicos.

Tabu histórico, resistência e um vestiário em disputa

A chegada de Ancelotti obriga o Brasil a encarar um tabu que resiste por mais de um século: ver a seleção principal dirigida por um estrangeiro em uma Copa. Nem o currículo pesado evita a reação inicial. “Somos o único país que venceu a Copa do Mundo cinco vezes. Não é que nenhum estrangeiro nunca deva treinar a seleção, mas eu teria escolhido um técnico brasileiro”, afirma Cafu, campeão mundial em 1994 e 2002.

O ambiente fica mais tenso em novembro do ano passado, no 2º Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol. Ancelotti sobe ao palco para ser homenageado, mas a cerimônia vira palco de queixas. “Eu sempre disse que não gosto de treinadores estrangeiros no meu país e nós, treinadores, somos culpados por esta invasão”, dispara Émerson Leão, ex-goleiro campeão em 1970. O desconforto é tanto que Davide, filho e auxiliar do técnico, deixa o evento pouco depois.

Os meses seguintes reduzem a temperatura. Em campo, o início é irregular: seis vitórias, dois empates e três derrotas nos 11 primeiros jogos. Fora dele, a leitura é mais generosa. Pesquisa Quaest mostra 41% de aprovação e 29% de reprovação ao trabalho de Ancelotti, números considerados positivos para um técnico que mexe em escalações, mexe em hierarquias e carrega o rótulo de estrangeiro. A CBF reage rápido. Antes mesmo da estreia na Copa, renova o contrato até 2030 e sinaliza que o projeto não termina no Mundial de 2026.

O acordo não sai sem contrapartida. Fontes ouvidas pela BBC Sport relatam que Ancelotti segura a caneta por cerca de um mês, à espera de garantias para três funcionários da CBF que o ajudam na adaptação ao Brasil. Só assina depois de ver os contratos deles também prorrogados até 2030. O gesto reforça a imagem de quem joga em grupo também fora das quatro linhas.

Nos gramados, a vitória por 6 a 2 sobre o Panamá, no Maracanã, em 31 de maio, funciona como ensaio e alívio. O jogo é o penúltimo teste antes do Mundial e traz boas notícias. Rayan marca seu primeiro gol pela seleção, Igor Thiago converte pênalti, Vinícius Jr., Casemiro, Lucas Paquetá e Danilo completam o placar. O resultado dá fôlego ao sistema 4-2-4 de Ancelotti, que tenta aproximar a seleção do brilho de clubes como Real Madrid e Barcelona.

A aposta central recai sobre dois nomes. “Temos dois dos cinco melhores jogadores do mundo”, repete o técnico nos corredores da sede da CBF, ao se referir a Vinícius Jr. e Raphinha. A tarefa é fazer com que eles joguem pelo Brasil com a mesma influência que exibem na Europa. Até agora, a sintonia em campo aparece pouco. A goleada diante do Panamá é apenas a terceira partida em que os dois atuam juntos sob seu comando, depois da vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai, em junho de 2025, e da derrota por 2 a 1 para a França, em amistoso de março.

Com Rodrygo e Estêvão Willian machucados, o espaço para erro diminui. A engrenagem ofensiva depende ainda mais da dupla. Ancelotti sabe que precisa equilibrar liberdade e disciplina para que o desenho ousado de quatro atacantes não deixe o time exposto atrás. A seleção chega à Copa após sua pior campanha em Eliminatórias e às portas de um recorde indesejado: nunca ficou seis edições seguidas sem o título. A última taça vem em 2002, há 24 anos.

Impacto, poder de liderança e o que está em jogo

A presença de Ancelotti altera o eixo tradicional de poder na seleção. Para parte da crônica esportiva, o Brasil precisava de um técnico maior que seus jogadores. “Uma das coisas de que o Brasil mais precisava era de um técnico maior que os seus jogadores”, resume Walter Casagrande. No vestiário que reúne Neymar, Vinícius Jr., Raphinha e uma nova geração em ascensão, o currículo do italiano funciona como escudo e ponto de referência.

A capacidade de liderança aparece em episódios discretos. Casemiro, hoje no Manchester United, relembra a partida contra o Paraguai, em junho de 2025, decisiva para garantir vaga na Copa. O primeiro tempo é tenso, o intervalo vira um coro de opiniões. “Muitas pessoas estavam falando, falando, falando”, conta o volante ao ex-zagueiro inglês Rio Ferdinand. Ancelotti interrompe o ruído com uma frase simples: “Pessoal, esperem. Vou fumar um cigarro, volto em cinco minutos e, depois, vocês podem falar.” Volta, fala, e o vestiário entende o recado. “Todos perceberam: ‘OK. Este cara é diferente’”, conclui Casemiro.

O estilo discreto e calmo contrasta com os quatro anos turbulentos que antecedem sua chegada. A CBF troca de presidente por ordem judicial, a seleção testa quatro técnicos diferentes e coleciona resultados abaixo do padrão histórico. O salto para um nome consagrado internacionalmente é também uma tentativa de blindar o time das oscilações políticas que cercam a entidade.

Ex-companheiro de trabalho no Milan e no Paris Saint-Germain, Leonardo define Ancelotti como um “camaleão”. “Aonde vai, ele se adapta às pessoas, à equipe, aos jogadores. Ele é campeão mundial neste aspecto”, diz. A avaliação não é apenas elogio de amigo. A forma como o italiano ajusta linguagem, tratamento e estilo de jogo às particularidades brasileiras tende a servir de estudo de caso para uma geração de técnicos que enxerga o futebol cada vez mais globalizado.

Se o projeto der certo e o hexa vier em 2026, a contratação de Ancelotti dificilmente será lembrada apenas como uma aposta ousada. O título deve abrir espaço para mais treinadores estrangeiros em clubes e, possivelmente, na própria seleção no futuro, reduzindo a resistência vista em fóruns de treinadores e debates televisivos. A experiência também pode influenciar categorias de base e outras modalidades, em um país que ainda trata a figura do técnico como extensão da identidade nacional.

O hexa como teste final de uma nova era

Os próximos meses definem se a ponte construída por Ancelotti entre Europa e Brasil resiste ao primeiro grande abalo. A convocação final para a Copa, em 19 de maio de 2026, fecha a lista de apostas do treinador. A estreia na competição, com um Brasil que tenta equilibrar tradição e ousadia, será também um exame público da escolha feita pela CBF ao romper o tabu do comando estrangeiro.

O contrato até 2030 indica que a entidade enxerga o técnico como líder de um ciclo, não apenas de um torneio. Se o título mundial vier, Ancelotti consolida um modelo que combina adaptação cultural, autoridade técnica e gestão de vestiário. Se o hexa escapar novamente, a discussão sobre identidade, comando e limites para a presença de estrangeiros volta com força ao centro do debate. Em qualquer cenário, o italiano que recusa falar em imperativo e insiste em aprender português já garante um lugar na história: é dele o desafio de descobrir até onde a seleção está disposta a mudar para voltar ao topo do mundo.

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