Amistosos expõem força de Áustria e Marrocos às vésperas da Copa
Vitórias recentes de Áustria e Marrocos em amistosos às vésperas da Copa do Mundo de 2026 acendem o alerta entre as grandes seleções. Resultados apertados e goleadas sugerem um torneio menos previsível, em que times considerados menores ganham confiança para desafiar potências como Brasil e Argentina.
Amistosos ganham peso às portas do Mundial
A Áustria bate a Tunísia por 1 a 0, em um amistoso que parecia burocrático, mas se transforma em sinal de alerta. O gol de Marcel Sabitzer, comemorado com intensidade em Viena, não vale pontos na tabela, vale algo mais difícil de medir: autoestima às vésperas de um Mundial com 48 seleções. O time de Konrad Laimer e Sabitzer entra na Copa em um grupo que tem a Argentina, atual campeã, e passa a ser visto como ameaça real de pontos perdidos.
No mesmo ciclo de preparação, Marrocos atropela Madagascar por 4 a 0 e reforça a fama de seleção incômoda em grandes palcos. O placar elástico, construído com controle de jogo e agressividade no ataque, lembra a campanha surpreendente de 2022, quando o país africano chega à semifinal. A goleada não garante repetição daquela história, mas indica que a equipe mantém repertório para jogos grandes.
Equilíbrio global muda o mapa da Copa
Os amistosos desta semana não acontecem num vácuo. Faltam poucos dias para o início do Mundial de 2026, que pela primeira vez reúne 48 seleções. Havia o temor de uma fase de grupos inflada por jogos previsíveis, marcados por goleadas de favoritos contra figurantes. As últimas atuações sugerem cenário diferente. A Áustria, há décadas longe do protagonismo, se organiza em torno de uma geração espalhada por grandes ligas europeias. Sabitzer, hoje em clube de ponta, e Laimer, consolidado em meio-campo de elite, comandam uma equipe que marca alto, corre o jogo inteiro e aceita o duelo físico.
O 1 a 0 sobre a Tunísia, adversária acostumada a Copas e com sequência recente de participações desde 2018, não encanta pelo número, mas pela forma. A equipe europeia controla espaços, finaliza mais e pouco sofre atrás. A atuação alimenta a ideia de que a Argentina, favorita no grupo, não terá vida mansa desde a estreia. Um tropeço em 90 minutos, num torneio curto, muda projeções e empurra gigantes para cruzamentos mais perigosos já na segunda fase.
Marrocos chega com rótulo diferente. A semifinal de 2022, construída sobre vitórias contra Espanha e Portugal, retira da seleção a condição de surpresa completa. A goleada por 4 a 0 sobre Madagascar, seleção sem tradição em Copas, serve mais como confirmação de rota do que como revelação. O time mantém a base tática sólida, linhas compactas e saídas rápidas, agora com ainda mais jogadores atuando em grandes clubes da Europa. Achraf Hakimi, lateral criado nas divisões de base do Real Madrid e nascido em Madri, simboliza bem essa ponte entre formação europeia e camisa africana.
O fenômeno não é isolado. Em outra frente, a Suécia, renovada, perde por 3 a 1 para a Noruega em clássico escandinavo disputado dois dias antes. O resultado obedece ao momento do rival, que hoje tem Erling Haaland e Martin Ødegaard como referências, ainda que nenhum dos dois entre em campo nesse amistoso específico. A partida expõe o choque de gerações: uma Suécia em reconstrução total, que mesmo assim pode cruzar o caminho do Brasil já na segunda fase, contra uma Noruega que aprendeu a competir sem depender sempre de suas estrelas.
A preparação também passa por jogos menos visíveis. O Canadá vence o Uzbequistão, que tem no zagueiro Khusanov um representante no Manchester City, e reforça a sensação de que até seleções com histórico discreto trazem elenco com nomes acostumados à elite europeia. “Hoje todo mundo sabe como se joga futebol”, resume um dirigente ouvido nos bastidores da preparação, vendo a agenda de amistosos se aproximar do fim.
Favoritos sob pressão em Mundial mais democrático
Os efeitos práticos desses resultados recaem sobre os tradicionais candidatos ao título. Brasil e Argentina entram no torneio com a obrigação histórica de avançar, mas veem o entorno mais hostil. A possibilidade de encarar Noruega, Suécia ou até Marrocos em mata-matas precoces impõe ajuste de rota. Não há mais espaço para experimentar em jogo oficial, nem para subestimar adversários com menos camisa. Cada empate na fase de grupos, cada gol sofrido no fim, pode redesenhar o chaveamento.
Colômbia e Japão, também citados por analistas como seleções em ascensão, alimentam essa leitura. Os japoneses ficam a um gol de enfrentar o Brasil nas quartas de final das Copas de 2018 e 2022. Em ambas, caem nas oitavas, mas deixam a impressão de que a distância técnica diminui. A Colômbia alterna gerações, mas mantém capacidade de produzir atacantes e meias que decidem partidas em ligas fortes. O ambiente que se desenha para 2026 é de Copa aberta, em que a camisa pesa, mas não resolve sozinha.
O novo formato com 48 seleções, em grupos de quatro ou três times, amplia o número de jogos e de cruzamentos possíveis. Também aumenta a margem de risco. Uma noite ruim contra um adversário disciplinado e físico, como a Áustria, ou veloz e criativo, como Marrocos, pode custar a liderança do grupo. Em vez de enfrentar um segundo colocado teoricamente mais fraco, o favorito pode encarar uma seleção em ascensão logo no primeiro mata-mata. É aí que vitórias discretas em amistosos ganham outra leitura: mostram quem chega pronto para explorar qualquer vacilo dos gigantes.
Expectativa de surpresas e ajustes de última hora
Os próximos dias definem a lista final de convocados, os últimos treinos fechados e os derradeiros amistosos em campos europeus, asiáticos e americanos. As comissões técnicas de Brasil, Argentina e demais favoritos revisam vídeos, recalculam cargas físicas e ajustam detalhes táticos. A missão passa por neutralizar seleções que já dão sinais de maturidade competitiva, como Áustria e Marrocos, e antecipar cenários em que uma bola parada ou um contra-ataque se tornam decisivos.
A Copa do Mundo de 2026 começa sob a promessa de ser a mais extensa da história, espalhada por três países-sede e marcada por um calendário comprimido de clubes. Nesse contexto, o desgaste físico dos atletas aumenta e reduz a distância entre elencos estrelados e seleções com menos opções, mas mais frescas. O que hoje aparece em placares de 1 a 0 ou 4 a 0 em amistosos pode se transformar em eliminação precoce de favorito em julho. A única certeza, às vésperas do pontapé inicial, é que a Copa parece menos hierárquica e mais imprevisível. O torcedor, acostumado a guardar surpresas para a segunda semana, talvez precise se preparar para vê-las já no primeiro apito inicial.
