Aliados de Flávio Bolsonaro apostam em pauta anti-facções para 2026
Aliados de Flávio Bolsonaro intensificam, na pré-campanha de 2026, o apoio à decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O grupo vê na bandeira do endurecimento contra o crime um ativo eleitoral mais valioso do que o custo político com o mercado financeiro.
Segurança no centro da disputa eleitoral
O cálculo político é direto: em um país que registra mais de 40 mil homicídios por ano, bolsonaristas avaliam que o eleitor está exausto da sensação de descontrole. A classificação de duas das principais facções brasileiras como terroristas, anunciada por Washington e saudada pelo entorno de Flávio, vira peça central de uma narrativa de “tolerância zero” com o crime organizado.
Nos bastidores, aliados do senador afirmam que a decisão de abraçar sem ressalvas o movimento dos EUA é deliberada, mesmo diante da resistência de parte do mercado. “A população está tão cansada das facções e da insegurança que vai ver com bons olhos qualquer ajuda estrangeira, desde que não mexa na soberania”, resume um aliado de Flávio, sob reserva. Esse grupo calcula que a pauta rende mais votos do que promessas de aceno ao sistema financeiro.
Trump, facções e a disputa com o Planalto
A ofensiva ganha corpo após a visita de Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Donald Trump, na qual o enquadramento de PCC e Comando Vermelho como terroristas entra na pauta do encontro. Entre bolsonaristas, a expectativa é clara: o apoio à decisão americana tem potencial de converter mais votos do que a simbologia da foto ao lado de Trump. A associação direta entre Flávio, o ex-presidente republicano e a promessa de combate duro ao crime integra o roteiro da pré-campanha.
No Planalto, a leitura é oposta. Cerca de 18 horas depois do anúncio da Casa Branca, o governo Lula reage com uma nota dura, assinada após reunião de ministros em Brasília. O texto afirma que o Brasil é uma nação soberana e que já combate de forma permanente PCC, CV, outras facções e milícias. “O lucro por meio do crime não pode ser confundido com motivações ideológicas, políticas e religiosas”, registra o comunicado, numa tentativa de afastar a analogia entre facções brasileiras e grupos terroristas clássicos, como organizações jihadistas.
A mesma nota destaca o papel da família Bolsonaro na articulação com Washington. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”, afirma o texto oficial. Em outro trecho, classifica como “deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país”.
Mercado em alerta e disputa pela narrativa
O governo inclui no contra-ataque argumentos técnicos. A avaliação de integrantes da área econômica e de segurança é que a decisão americana pode reduzir a troca de informações entre polícias e afetar o sistema financeiro. A infraestrutura do Pix, que desde 2020 movimenta trilhões de reais por ano e se torna peça central nas transações do varejo e dos serviços, já vinha sendo observada por reguladores estrangeiros. A classificação como terrorismo acende uma luz amarela em bancos, corretoras e empresas de pagamento, preocupados com sanções, bloqueios e custos extras de compliance.
Mesmo assim, o núcleo político bolsonarista aposta que o conflito com parte dos agentes econômicos é gerenciável. Em meio à tentativa de Flávio de reduzir arestas com o mercado para 2026, auxiliares avaliam que fundos, bancos e grandes empresas podem criticar em notas e relatórios, mas dificilmente romperão a interlocução por causa de uma agenda de endurecimento penal. Na visão desse grupo, o que decide a eleição é o sentimento de segurança na rua, não a percepção de risco em planilhas de analistas.
O Planalto tenta se equilibrar sobre uma linha estreita. De um lado, bate na tecla da soberania para evitar a imagem de submissão ao governo Trump e à política de segurança dos EUA. De outro, mede cada palavra para não ser acusado de defender facções. A estratégia lembra a reação ao tarifaço americano sobre o aço brasileiro, em 2018 e 2019, quando o governo também usou a carta nacionalista. Agora, a diferença é que a discussão atravessa diretamente o cotidiano de milhões de brasileiros, afetados pela violência urbana e pelo poder paralelo de facções em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.
Segurança, soberania e o que vem pela frente
A aposta bolsonarista é converter o apoio à medida de Washington em um divisor de águas na eleição de 2026. A mensagem ao eleitorado é simples: de um lado, quem aceita ajuda externa para sufocar o crime; de outro, quem, na visão deles, relativiza o problema em nome da diplomacia. O governo Lula reage acusando o clã Bolsonaro de “envolvimento com milícias” e de atuar contra os interesses nacionais, numa tentativa de inverter o sinal da narrativa de segurança e associar o adversário ao próprio crime organizado que diz combater.
Especialistas em segurança pública lembram que facções como PCC e Comando Vermelho se estruturam desde os anos 1990 e hoje operam redes de tráfico, extorsão e lavagem de dinheiro que atravessam fronteiras. A nova classificação americana tende a facilitar bloqueios patrimoniais fora do país e ampliar o monitoramento de remessas suspeitas. Ao mesmo tempo, pode reduzir a margem de manobra diplomática do Brasil em negociações multilaterais e acirrar a polarização doméstica em torno da definição de quem, afinal, está do lado da lei.
Nesse cenário, a pré-campanha de 2026 transforma a pauta de segurança em teste sobre até onde o país aceita interferência estrangeira no combate ao crime. A resposta do eleitorado, nas urnas, dirá se o discurso de mão pesada contra facções supera o temor de novos atritos com Washington, com o sistema financeiro e com parceiros comerciais. Até lá, governo e oposição calibram cada frase, cientes de que qualquer deslize pode ser usado, em segundos, como munição na batalha por votos e por autoridade.
