Alcolumbre segura PEC do fim da jornada 6×1 e promete debate longo
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anuncia nesta terça-feira (2.jun.2026) que a PEC que altera a jornada 6×1 só irá a voto depois de passar por comissões. A decisão afasta uma votação relâmpago em pleno ano eleitoral e abre caminho para uma análise prolongada da proposta, que divide a Casa.
Senado resiste a carimbar texto da Câmara em ano eleitoral
No plenário, Alcolumbre afirma que o Senado não será apenas uma instância de “carimbo” das decisões da Câmara dos Deputados. Ele comunica a senadores que a proposta aprovada pelos deputados, que encerra a escala de seis dias de trabalho por semana com um de descanso, depende de despacho da Presidência e não seguirá direto ao plenário. O recado é dirigido tanto à base do governo quanto à oposição, que pressiona por uma definição antes da fase mais aguda da campanha municipal.
O presidente da Casa reforça que pretende criar ao menos uma comissão para examinar a PEC e ouvir representantes de trabalhadores e setores econômicos. “Vai ter que tramitar nas comissões. Deve ter no mínimo uma comissão. Não podemos ser uma Casa carimbadora”, afirma. Ele cita pedidos de colegas para que a proposta fosse levada diretamente ao plenário e rejeita a ideia de decisão em poucas horas: “Não podemos esperar chegar o texto de manhã e votar de tarde”.
Alcolumbre articula uma reunião já na próxima semana com líderes partidários e com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Otto Alencar (PSD-BA). A CCJ é a principal porta de entrada de mudanças na Constituição e concentra o debate sobre a legalidade e a redação de propostas como a da jornada de trabalho. “Ele tem o dever de discutir isso”, diz Alcolumbre sobre Alencar, ao indicar que a PEC será destrinchada artigo por artigo antes de qualquer decisão final.
Disputa de textos e pressão sobre a Presidência do Senado
O impasse não se resume ao texto aprovado na Câmara. Enquanto a proposta que põe fim à escala 6×1 aguarda o despacho de Alcolumbre, uma PEC alternativa, patrocinada pela oposição, alcança o mínimo de 41 assinaturas para tramitar no Senado. Esse segundo texto preserva a possibilidade de até seis dias de trabalho na semana e 44 horas semanais, modelo que hoje rege grande parte dos contratos formais no país, e reforça a chamada jornada negociada, em que acordos individuais poderiam prevalecer sobre convenções coletivas firmadas com sindicatos.
A coexistência das duas PECs acirra a pressão sobre a Presidência do Senado. Em plenário, o senador Styvenson Valentim (PSDB-RN) cobra a definição do calendário, e Alcolumbre reage. Ele afirma se sentir “atacado” por colegas que exigem a votação antes do início oficial da campanha eleitoral e diz ficar “muito triste” com a repercussão que o tema pode ter nas redes sociais. “Não me obriguem, não me ataquem, não me ameacem. Vou decidir no meu tempo”, dispara, num recado direto aos que insistem em acelerar o processo.
Alcolumbre lembra que a Casa tem “200 anos” e que decisões sobre direitos trabalhistas, que afetam milhões de pessoas, não podem ser tomadas sob clima de cliques e hashtags. “É uma Casa de 200 anos, temos que ter cuidado, ainda mais em um ano de debate eleitoral. Muita coisa não pode vir à tona por causa da eleição”, afirma. Ele insiste na ideia de que os 81 senadores têm igual direito de examinar a matéria, o que, na prática, afasta qualquer chance de votação em poucos dias.
O debate em torno da escala 6×1 toca o coração das relações de trabalho no Brasil. O regime, consagrado na legislação como jornada de até 44 horas semanais e seis dias de trabalho, é regra em setores como comércio, serviços, indústria e transporte. A proposta vinda da Câmara, que pretende encerrar esse modelo, é celebrada por parte dos trabalhadores que reclamam de jornadas exaustivas, mas preocupa empresas que calculam aumento de custos e necessidade de reorganizar turnos e contratações.
Impacto para trabalhadores, empresas e negociação coletiva
Uma mudança constitucional na jornada mexe diretamente na escala de plantões, folgas, pagamento de horas extras e contratações futuras. O texto da Câmara, ao acabar com a escala 6×1, é visto por centrais sindicais como oportunidade de ampliar períodos de descanso e reduzir a fadiga, sobretudo em atividades que exigem trabalho contínuo, como supermercados, fábricas de grande porte e empresas de logística. Uma eventual redução prática de horas trabalhadas por semana pode pressionar salários, mas também empurrar empresas a contratar mais para manter o mesmo nível de produção.
O projeto alternativo da oposição segue direção oposta. Ao proteger expressamente a escala de seis dias e reforçar o peso de acordos individuais sobre convenções coletivas, o texto agrada entidades empresariais que defendem flexibilidade nas relações de trabalho. Críticos veem risco de fragilização de sindicatos e temem que trabalhadores aceitem jornadas mais intensas em troca da manutenção do emprego, sobretudo em períodos de desemprego elevado. O embate entre os dois modelos repõe, no Senado, a velha disputa entre proteção legal mínima e liberdade contratual ampliada.
Alcolumbre tenta se equilibrar nesse cenário. Ele afirma, em seu discurso, que espera dar ao Senado “tempo razoável” para se “desobrigar dessa proposta com tamanha envergadura, ouvindo os setores e trabalhadores”. Ao falar em “aperfeiçoamento do texto”, indica abertura para emendas e ajustes que podem suavizar efeitos econômicos ou garantir salvaguardas para categorias mais vulneráveis. Uma tramitação que leve mais de 30 dias, com audiências públicas e pareceres técnicos, tende a expor com mais clareza os impactos sociais e financeiros das mudanças sugeridas.
Comissões, calendário eleitoral e dilema do Congresso
A decisão de empurrar a discussão para comissões especializadas coloca a PEC 6×1 no centro de um tabuleiro que mistura disputa trabalhista e cálculo eleitoral. Senadores que buscam reeleição em outubro medem o custo de se associar a uma mudança que pode ser vendida como avanço de direitos ou como risco de perda de empregos, a depender de quem domina a narrativa nas redes sociais. A declaração pública de Alcolumbre, ao recusar a pecha de “carimbador”, funciona também como blindagem política pessoal diante de um tema de alta combustão.
Nos bastidores, líderes avaliam cenários. Uma saída é alongar a tramitação e empurrar a votação para depois das eleições municipais, reduzindo o calor do debate. Outra hipótese é costurar um texto de meio-termo, que preserve a estrutura básica da jornada atual, mas estabeleça limites mais rígidos de descanso e compensação de horas. Em qualquer caso, o Senado assume, a partir do discurso desta terça-feira, o papel de fiador de uma negociação que pode redefinir a rotina de trabalho de milhões de brasileiros. Resta saber se o “tempo razoável” prometido por Alcolumbre será suficiente para construir consenso ou apenas prolongará uma disputa que já começa polarizada.
