Africanos destroem recordes na Maratona Internacional de Porto Alegre
Daniel Kiprono Sang e Gelane Senbete quebram neste domingo (31) os recordes masculino e feminino da Maratona Internacional de Porto Alegre, em sua 41ª edição. O queniano ainda estabelece a melhor marca da história da maratona em solo brasileiro e consolida o domínio africano nas ruas da capital gaúcha.
Percurso mais plano, clima ameno e pelotão de elite
A manhã ainda escura de Porto Alegre recebe, às 6h, o tiro de largada para uma prova redesenhada para ser veloz. A organização altera o percurso para reduzir subidas e desloca parte do trajeto para fora da zona Sul, tradicionalmente mais acidentada. A altimetria total não passa de 14 metros no ponto mais alto, o que faz a maratona, já conhecida como uma das mais planas do país, ficar ainda mais rápida.
As condições climáticas ajudam. A cidade amanhece com temperatura amena e sem a neblina densa que atrapalha o rendimento no ano anterior. O resultado aparece no cronômetro. Sang cruza a linha de chegada em 2h10min21s, derruba o recorde da prova e estabelece o melhor tempo já registrado em maratonas disputadas no Brasil nos 42,195 quilômetros. Logo atrás dele chegam os compatriotas Eliasa Kibet, em 2h10min59s, e Victor Kimplimo, em 2h11min11s, completando um pódio inteiro queniano.
O melhor brasileiro do dia, Giovani dos Santos, termina em sexto lugar, com 2h12min56s. Entre as mulheres, a etíope Gelane Senbete confirma o favoritismo e vence em 2h31min16s, também em tempo recorde da prova feminina. A queniana Lucy Nthenya cruza dez segundos depois, com 2h31min26s, e a também queniana Emily Chebet fecha o pódio com 2h33min10s. A brasileira Jéssica Ladeira é a sexta colocada, com 2h37min32s, em uma disputa marcada pela presença massiva de africanas no pelotão de frente.
O diretor da prova, Paulinho Stone, já chega à largada convencido de que o desenho do percurso e o horário antecipado podem mudar o patamar da corrida. “Esperamos uma prova muito rápida, de altíssimo nível, e temos atletas olímpicos participando, além de participantes de 26 países”, afirma. A expectativa se confirma em pouco mais de duas horas, quando os recordes caem diante de um público espalhado por boa parte da cidade.
Domínio africano, público crescente e cidade em movimento
A 41ª edição da Maratona Internacional de Porto Alegre reúne cerca de 10 mil corredores apenas na distância clássica de 42 quilômetros. Outros 20 mil participam das provas de sábado, em percursos menores, o que leva a 30 mil o total de inscritos no fim de semana. A ocupação das ruas por corredores, assessorias esportivas e famílias confirma a escalada da corrida de rua no Brasil e no Cone Sul.
O fenômeno se reflete no público estrangeiro. Um grupo de 50 corredores do Rústicos Running Team viaja de Montevidéu exclusivamente para participar da prova. “Ontem alguns correram cinco quilômetros, outros dez, agora aumentamos para 21 quilômetros em alguns, e foi muito confortável, bem bacana. Tivemos apoio de parceiros de lá”, conta o uruguaio Federico Vignolo, que vê no crescimento local um espelho do que ocorre em seu país. Segundo ele, a corrida de rua “cresce de forma vertiginosa” também em Montevidéu.
Nas calçadas, o clima é de torcida familiar. A estudante Sophia Staub e o namorado, o assistente de produção Kauã Flach, saem de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, apenas para acompanhar os pais dela, Edson e Ângela. “Eles correm desde que eu me conheço por gente. Minha mãe, quando eu era menor, competia, aí parou por um tempo, agora acho que está voltando”, diz Sophia. O casal prefere o vôlei, mas transforma a manhã em ritual de arquibancada improvisada à beira do asfalto.
As ações paralelas reforçam o ambiente de evento de grande porte. Há tendas de massagem, estruturas de apoio das assessorias esportivas e um corredor de estandes que mistura marcas esportivas, serviços médicos e iniciativas sociais. Entre elas está a ONG Corre com o Coração, criada após a morte do jovem João Gabriel Hofstatter de Lamare, de 20 anos, em 2025, durante a mesma maratona.
No estande da entidade, voluntários distribuem material informativo e conversam com atletas sobre a necessidade de manter exames clínicos, sobretudo cardiológicos, em dia. “Nunca foi um projeto contra a corrida, mas a favor de uma corrida segura, e do acompanhamento médico durante o período da corrida e os treinos”, afirma a presidente, Mariana Pieri. “Para nós, é simbólico e uma ressignificação estar aqui, por ser a prova onde ocorreu o falecimento do João Gabriel, mas isto mostra que ele pode inspirar outras pessoas e nós continuarmos honrando o legado dele.” Em homenagem ao jovem, o troféu da Meia Maratona agora leva seu nome.
Segurança reforçada, legado esportivo e próximos passos
A estrutura médica acompanha o crescimento da prova. A Unimed Porto Alegre coordena 11 ambulâncias equipadas como UTIs móveis e mobiliza 69 profissionais de saúde, além de centenas de voluntários espalhados pelo percurso. Esses voluntários recebem treinamento básico em massagem cardíaca e no uso de desfibriladores automáticos, posicionados a cada quilômetro no domingo e a cada 500 metros nas provas de sábado.
Um sistema de monitoramento digital permite rastrear os corredores em tempo real. “Eles são rastreados por um aplicativo, e podem fazer um chamado por meio da leitura do QR Code do atleta. Quando aberto, dispara automaticamente para nossa central de regulação, que aciona o recurso mais próximo”, explica o coordenador médico do SOS Unimed Porto Alegre, Marcos Mottin. A tecnologia encurta o tempo de resposta para casos que vão de simples quedas a quadros de exaustão extrema.
A diretora médica da maratona, Ana Sierra, uma das 35 profissionais no mundo certificadas com nível 2 da World Athletics, compara a operação à de grandes provas europeias. Ela relata que a estratégia de voluntários em pontos fixos vem inspirada diretamente da Maratona de Berlim. “A vinda dos voluntários foi uma sugestão do time da Maratona de Berlim, então estamos seguindo aqui alguns dos melhores protocolos do mundo, além de toda a rede de apoio”, afirma. Segundo a médica, os atendimentos mais comuns ainda envolvem fadiga, cãibras e queda de pressão, mas há atenção redobrada para quadros graves de hipertermia, quando a temperatura corporal passa dos 40 graus, e de hiponatremia, queda acentuada do sódio no sangue por excesso de líquido.
A combinação de recordes esportivos, percurso otimizado e protocolo médico robusto reposiciona a Maratona Internacional de Porto Alegre no calendário sul-americano. O desempenho de Sang e Senbete, somado ao domínio de quenianos e etíopes nos pódios, reforça a imagem de Porto Alegre como destino preferencial para atletas africanos em busca de marcas rápidas. Para os brasileiros, a presença constante no segundo pelotão expõe o tamanho do desafio para reduzir a distância em relação à elite mundial.
Os organizadores tentam transformar o momento em tração de longo prazo. As inscrições para a edição de 2027 começam já nesta segunda-feira, com a expectativa de atrair ainda mais estrangeiros e consolidar a maratona como vitrine do turismo esportivo na capital gaúcha. O sucesso da 41ª edição também deve pressionar outras corridas de rua no país a revisar percursos, horários e protocolos médicos, em busca de segurança, competitividade e novos recordes. A resposta de atletas e patrocinadores nos próximos meses mostrará se Porto Alegre consegue sustentar o salto dado neste fim de semana e manter-se na dianteira da corrida por grandes performances no continente.
