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Política

Com aval de Lula, Senado articula redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos

Governo e oposição negociaram votação acelerada da PEC, mas Senado decidiu aguardar análise da Câmara; proposta ainda não foi aprovada.

Com aval de Lula, Senado articula redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos

Com aval direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um acordo costurado entre governo e oposição, o Senado articula para esta quarta-feira (4) a votação da PEC 18/2025, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos e passou a tramitar de forma independente da recém-aprovada PEC da Segurança Pública.

O texto foi apresentado pelo líder do PT, Camilo Santana (CE), e transformou a pauta da maioridade penal em prioridade imediata após a aprovação, ontem, da PEC da Segurança Pública, que recebeu 73 votos favoráveis no primeiro turno e 75 no segundo, e agora será promulgada.

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O que prevê a PEC que reduz a maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos?

A PEC 18/2025 autoriza que adolescentes de 16 e 17 anos sejam responsabilizados como adultos quando cometerem crimes classificados em lei como hediondos, reduzindo a maioridade penal de 18 para 16 anos exclusivamente nesses casos.

Na prática, jovens nessa faixa etária poderão ser julgados e cumprir pena no sistema penal comum se forem condenados por delitos graves, como homicídio qualificado, estupro e latrocínio, entre outros que compõem a lista de crimes hediondos. O restante dos atos infracionais continua sujeito às regras do Estatuto da Criança e do Adolescente e às medidas socioeducativas.

O desenho restrito da proposta é fruto de um arranjo político. Camilo Santana levou ao plenário uma alternativa mais enxuta à agenda defendida pelo PL na campanha eleitoral, que incluía redução mais ampla da idade penal e alcance também para crimes como tráfico de drogas e participação em organizações criminosas. Com isso, o governo busca atender à pressão por endurecimento na segurança pública sem assumir um texto considerado mais radical.

Como o pedido do presidente Lula influenciou a discussão sobre a maioridade penal no Senado?

O apoio pessoal de Lula à redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos funcionou como aval político para que a bancada governista assumisse o tema e negociasse um texto de consenso com a oposição.

Camilo Santana apresentou a PEC 18/2025 já com o sinal verde do Planalto. A proposta surgiu como alternativa a emendas mais amplas, evitando um desgaste maior para o presidente em um assunto historicamente sensível para o PT. Ao defender publicamente essa fórmula específica — apenas para crimes hediondos — Lula deu argumento a aliados para fechar um acordo com o PL e outros partidos do bloco de direita.

Dentro do governo, a leitura é de que a mudança ajudará a responder à forte demanda por rigor na segurança pública sem abrir espaço, neste momento, para uma revisão geral da idade penal. O gesto também mira a opinião pública: num cenário de cobrança por resultados concretos contra o crime, o Planalto tenta mostrar iniciativa e capacidade de diálogo com a oposição.

Articulação acelera rito e leva PEC direto ao plenário

A discussão sobre a redução da maioridade penal ganhou força ontem, durante a votação da PEC da Segurança Pública. O relator da proposta, senador Rogério Carvalho (PT-SE), decidiu separar as emendas que tratavam de maioridade penal, classificadas como assunto estranho ao texto original, para evitar que o tema atrasasse a aprovação das novas regras para integração dos órgãos de segurança.

Com isso, a maioridade penal passou a tramitar em uma PEC própria. Inicialmente, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), indicou que encaminharia o debate para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A rota mudou quando líderes do PT e do PL comunicaram que havia acordo para levar o texto de Camilo Santana diretamente ao plenário.

Para viabilizar o atalho, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) prepara um requerimento de calendário especial. Esse instrumento permite pular a etapa das comissões e colocar a PEC em votação diretamente no plenário, desde que o pedido seja aprovado pelos senadores. A intenção é protocolar o requerimento ainda hoje e já deliberar sobre ele na mesma sessão.

O líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), confirmou que endossa a estratégia. “Eu assinei o requerimento do Braga. Vai ser o texto que o governo decidir”, disse, ao descartar, por ora, a apresentação de uma PEC paralela que ampliaria a redução da maioridade para outros crimes.

Acordo com PL limita texto, mas não encerra divergências

O entendimento entre Camilo Santana e o líder do PL, Carlos Portinho (RJ), é o motor da tentativa de votação relâmpago. O senador petista já vinha afirmando que havia consenso em torno da fórmula restrita aos crimes hediondos e que o compromisso é votar rápido: “Se não votar amanhã, vota na próxima semana. Já estamos construindo o acordo para votar a nossa proposta”, afirmou.

Portinho, por sua vez, admitiu que a convergência é parcial. “Nossa convergência é a redução, mas a divergência teremos que ir ao voto”, disse, indicando que a oposição pretende usar a análise em plenário para tentar endurecer o texto por meio de emendas.

Parlamentares de direita defendem que a diminuição da maioridade penal alcance também crimes graves não classificados como hediondos, como o tráfico de drogas em determinadas circunstâncias, e delitos ligados a organizações criminosas. Essa ampliação, porém, não é consenso nem entre partidos de centro que hoje compõem a base de sustentação do governo no Senado.

A expectativa entre líderes é de que a base governista trabalhe para barrar alterações que desfigurem o acordo original. Ainda assim, o ambiente é de voto aberto no mérito, com possibilidade de mudanças pontuais no plenário.

Entenda o contexto

A pressão por uma resposta legislativa à criminalidade cresceu com o avanço da PEC da Segurança Pública, aprovada ontem pelo Senado com ampla margem — 73 votos a favor no primeiro turno e 75 no segundo. A proposta fortalece a cooperação entre forças policiais, Ministério Público e Justiça no combate ao crime organizado, mas deixou de fora, por decisão política, qualquer mudança sobre maioridade penal.

Para não travar o pacote de segurança, Rogério Carvalho sugeriu que o debate sobre adolescentes infratores fosse deslocado para outra PEC, dedicada exclusivamente ao tema. Foi essa via paralela que desembocou na PEC 18/2025 de Camilo Santana, agora colocada no centro da pauta do Senado.

Na Câmara dos Deputados, o assunto também avança. Uma comissão especial criada pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) discute medidas de punição a jovens infratores e trabalha em um relatório que deve ser apresentado ainda neste mês ou, no mais tardar, na primeira semana de dezembro. A tramitação em paralelo nas duas Casas aumenta a chance de que alguma mudança no tratamento penal de adolescentes seja aprovada nos próximos meses.

Impactos e disputa de narrativas

A eventual aprovação da PEC 18/2025 representará uma mudança profunda na forma como o sistema de justiça lida com adolescentes de 16 e 17 anos envolvidos em crimes de maior gravidade. Ao permitir que sejam punidos como adultos em casos de crimes hediondos, o texto tende a aumentar o número de jovens nessa faixa etária encarcerados em presídios comuns.

Especialistas em segurança pública avaliam que a medida dará novo instrumento legal para combater a criminalidade juvenil organizada, sobretudo em homicídios e crimes sexuais. Por outro lado, entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente alertam para o risco de superlotação do sistema prisional, enfraquecimento das políticas socioeducativas e exposição de jovens a facções criminosas dentro das cadeias.

Politicamente, o movimento permite ao governo Lula tentar ocupar o centro do debate sobre segurança, tema em que costuma ser pressionado por adversários de direita. Ao costurar o acordo para uma redução limitada aos crimes hediondos, o Planalto procura mostrar firmeza contra o crime sem assumir, neste momento, uma guinada ampla na política penal voltada à juventude, o que poderia fragmentar sua base social.